A Agência Espacial Europeia adjudicou à The Exploration Company um contrato com valor potencial de 760 milhões de euros para desenvolver e demonstrar a cápsula de carga Nyx. O objetivo é criar um serviço comercial europeu capaz de transportar carga para a Estação Espacial Internacional, acoplar-se autonomamente e trazer materiais de volta à Terra.
Conceção artística do futuro veículo Nyx durante uma reentrada. Não é uma fotografia de uma missão operacional. Crédito: The Exploration Company.
Essas missões adicionais poderão servir a ISS ou uma futura estação espacial comercial em órbita baixa.
Da experiência industrial a uma cápsula completa
O programa começou como LEO Cargo Return Service e passou a chamar-se ALADDIN — sigla inglesa para demonstração acelerada de acoplamento autónomo a um módulo da ISS em órbita baixa.
A ideia foi apoiada pelos Estados-membros da ESA em 2022 e transformada numa competição industrial no final de 2023. Na primeira fase, a agência selecionou a The Exploration Company e a Thales Alenia Space, atribuindo 25 milhões de euros a cada uma para o desenvolvimento inicial.
A segunda fase, lançada em março de 2026, pretende passar dos estudos e protótipos para a conclusão do sistema e para uma demonstração em órbita. O contrato agora anunciado foi entregue à The Exploration Company.
A ESA não esclareceu no comunicado se poderá existir uma segunda adjudicação desta fase a outro fornecedor. Por isso, a escolha da Nyx não deve ser apresentada como confirmação de que a empresa será necessariamente a única participante europeia.
Capital público cobre 60% da demonstração
O modelo escolhido combina financiamento público e privado. Segundo a ESA, a The Exploration Company demonstrou ter assegurado junto de investidores privados 40% do financiamento necessário para a missão de demonstração. A agência cobre os restantes 60%.
A empresa anunciou também uma ronda de investimento de 450 milhões de dólares, mas esse capital não se destina exclusivamente à Nyx. Financia igualmente o desenvolvimento de motores reutilizáveis, novas contratações e a expansão industrial. Não pode, portanto, ser tratado automaticamente como a parcela privada da missão contratada pela ESA.
A agência assume o papel de cliente-âncora: encomenda o primeiro serviço para ajudar a concluir uma capacidade comercial que, no futuro, poderá ser vendida a outros operadores.
Primeiro lançamento será num Ariane 64
A The Exploration Company assinou separadamente com a Arianespace o lançamento da missão inaugural da Nyx. A cápsula deverá seguir para o espaço num Ariane 64, a versão do Ariane 6 equipada com quatro propulsores auxiliares, a partir do Centro Espacial Europeu de Kourou, na Guiana Francesa.
Depois de colocada em órbita baixa, a Nyx deverá prosseguir autonomamente até à estação. A empresa mantém 2028 como objetivo para a demonstração, enquanto a documentação do programa europeu admite o primeiro voo até 2029. Ainda não existe uma data concreta de lançamento anunciada pelas três entidades.
A Nyx ainda tem de provar que funciona
A cápsula comercial de escala completa ainda não voou, não se acoplou à ISS e não realizou uma missão de transporte e recuperação. Encontra-se em desenvolvimento e em processo de certificação com a NASA.
Em junho de 2025, uma demonstradora menor chamada Mission Possible chegou ao espaço com 25 cargas, executou controlo de atitude e iniciou uma reentrada controlada. As comunicações perderam-se a cerca de 26 quilómetros de altitude, antes da abertura dos paraquedas, e a cápsula não foi recuperada. A própria empresa classificou a missão como um sucesso parcial.
Desde então foram realizados ensaios adicionais, incluindo testes de paraquedas e de impacto na água. São passos importantes, mas avaliam subsistemas ou modelos de teste e não equivalem a uma missão completa da Nyx.
A aprovação obtida em 2025 na primeira fase da revisão de segurança da ISS também não constitui uma certificação final. Permitiu à empresa avançar da arquitetura preliminar para o projeto detalhado.
Europa procura capacidade própria de transporte
A Europa depende atualmente de veículos estrangeiros para levar carga à ISS e, sobretudo, para devolver equipamentos e experiências científicas à Terra. A Nyx pretende recuperar uma capacidade europeia que desapareceu depois do fim do cargueiro ATV, embora aquele veículo não tivesse sido concebido para sobreviver à reentrada.
O contrato dá à empresa recursos e um cliente para tentar fechar essa lacuna, mas o teste decisivo ainda está por realizar. Até a Nyx conseguir lançar, acoplar-se autonomamente, regressar e ser recuperada, os 760 milhões de euros representam uma combinação de missão contratada e opções futuras — não uma capacidade espacial já operacional.
Portugal participa na ESA enquanto Estado-membro, mas não existe nas fontes consultadas confirmação de investimento português especificamente destinado ao ALADDIN nem de empresas nacionais envolvidas na cadeia industrial da Nyx.
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