O governo russo está a considerar uma proibição total das exportações de gasóleo, numa tentativa desesperada de travar a escalada de preços e a escassez de combustível no mercado interno. A crise foi desencadeada por uma campanha sistemática de ataques de drones ucranianos contra refinarias russas, que dizimaram a capacidade de refinação do país e estão a obrigar Moscovo a repensar toda a sua estratégia energética.
O anúncio foi feito esta terça-feira, 24 de junho, pelo vice-primeiro-ministro russo, Alexander Novak, durante uma reunião com o presidente Vladimir Putin e outros altos responsáveis. Novak descreveu a situação no mercado interno como "desafiante, mas sob controlo", revelando que uma proibição total das exportações de gasóleo está agora a ser ponderada, juntando-se às restrições já em vigor sobre gasolina e jet fuel.
Esgotámos a capacidade em todas as refinarias, encurtámos os prazos de reparação e adiámos a manutenção programada para datas posteriores.
— Alexander Novak, Vice-Primeiro-Ministro russo, 24 de junho de 2026
Refinarias em chamas: a campanha de drones que parou a Rússia
A Ucrânia intensificou esta primavera os ataques contra a infraestrutura energética russa, visando refinarias de petróleo e redes de distribuição. O objetivo estratégico é claro: cortar as receitas que alimentam a máquina de guerra russa e provocar ruturas internas que enfraqueçam o regime de Putin.
O caso mais emblemático é o da refinaria da Gazprom Neft, situada a sul de Moscovo. A instalação foi atacada a 16 de junho, quando uma unidade de destilação responsável por 53% da capacidade foi destruída. Dois dias depois, a 18 de junho, um segundo ataque danificou a unidade mais moderna, que respondia pelos restantes 47%. No espaço de 48 horas, a refinaria perdeu 100% da sua capacidade de produção.
A produção russa de gasolina caiu 25% em comparação com a média de junho de 2025, segundo a Reuters. O preço médio da gasolina na Rússia subiu 6,6% desde o início do ano, ultrapassando os 69,11 rublos por litro (cerca de 3,56 dólares por galão) a 15 de junho, de acordo com dados da Rosstat.
Refinaria de petróleo — a infraestrutura de refinação russa está sob pressão sem precedentes, com múltiplas instalações danificadas ou paralisadas por ataques de drones. Crédito: Janob Mirzaolim, CC BY-SA 4.0
Racionamento em duas dezenas de regiões
Quase duas dezenas de regiões russas introduziram restrições à compra de gasolina e gasóleo nas últimas semanas, segundo a imprensa independente russa. Os postos de combustível limitam os condutores a 10-20 litros por compra, e alguns oferecem apenas gasóleo. As perturbações chegam numa altura crítica, com a época de férias de verão e a campanha agrícola em pleno vigor.
Perante este cenário, o Ministério da Energia russo estabeleceu uma "task force" com as maiores empresas energéticas do país para garantir o funcionamento "estável e eficiente de todo o setor". Pela primeira vez, o ministério reconheceu oficialmente que os ataques de drones ucranianos eram diretamente responsáveis pelas "dificuldades" no mercado interno de combustíveis.
A situação no mercado interno de combustíveis é desafiante, mas está sob controlo. As restrições regionais são problemas ocasionais de distribuição em certas regiões e em postos de gasolina específicos.
— Alexander Novak, Vice-Primeiro-Ministro russo, 24 de junho de 2026
Rússia prepara-se para importar gasolina — um sinal dos tempos
Numa reviravolta histórica, a Rússia — um dos maiores produtores mundiais de petróleo — está a preparar-se para importar gasolina por via marítima a partir da Ásia ainda este mês, segundo fontes da Reuters. A Duma está a acelerar legislação fiscal para criar subsídios governamentais especificamente destinados a financiar importações de gasolina da Índia.
O CEO da Rosneft, Igor Sechin, enviou em maio uma carta a Putin a pedir uma reorganização temporária da distribuição de combustíveis para evitar ruturas. Sechin recomendou que o governo obrigasse todas as petrolíferas a canalizar pelo menos 30% do crude para refinarias nacionais e suspendesse as regras que exigem a venda de combustível de topo em bolsas públicas, alegando que intermediários estão a acumular stocks para aumentar os preços.
Mapa do Estreito de Ormuz — uma das rotas energéticas mais críticas do mundo. A crise de combustíveis na Rússia ocorre num contexto de tensões elevadas no Médio Oriente, com o Irão a tentar impor portagens no Estreito de Ormuz. Fonte: Wikimedia Commons
O impacto para Portugal e Europa
Embora a União Europeia tenha reduzido significativamente a importação de derivados de petróleo russos desde 2022, as sanções e os embargos não eliminaram completamente a exposição indireta. O gasóleo russo continua a chegar à Europa através de rotas indiretas e de países terceiros, e uma proibição total das exportações russas terá inevitavelmente impacto nos preços globais dos combustíveis.
Em Portugal, o preço dos combustíveis já reflete a tensão nos mercados internacionais. O petróleo Brent caiu esta semana para abaixo dos 75 dólares por barril, numa reação às notícias de que o tráfego no Estreito de Ormuz está a retomar após negociações entre EUA e Irão. No entanto, a crise russa poderá inverter esta tendência. A produção da OPEP mantém-se 34% abaixo dos níveis anteriores à guerra, segundo dados da Lusa/ECO.
Esta crise mostra como a guerra de drones está a reescrever as regras da geopolítica energética. A Ucrânia, sem frota de superfície ou força aérea convencional, está a asfixiar a economia russa atacando o seu calcanhar de Aquiles: a capacidade de refinar e exportar petróleo.
— Análise Portugal Binário
O contexto mais amplo
A crise russa dos combustíveis não é um fenómeno isolado. Ela insere-se num contexto de guerra energética global que inclui: a crise do Estreito de Ormuz (com o Irão a tentar impor portagens aos petroleiros), a transição da UE para fora dos combustíveis fósseis russos (com embargo progressivo ao gás aprovado), e a aceleração das energias renováveis como resposta estratégica.
Para Portugal, que já aprovou o leilão de 750 MW em baterias (a apresentar a 29 de junho) e mantém uma das maiores Zonas Económicas Exclusivas da Europa, a crise energética global reforça a urgência da transição para fontes renováveis e armazenamento de energia — uma aposta que o país tem vindo a consolidar.
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