Distinguir com precisão uma célula cancerígena de uma célula saudável é um dos problemas mais complexos da oncologia moderna. As células tumorais apresentam alterações subtis na sua superfície molecular — glicanos anormais, versões truncadas de açúcares que as células saudáveis mantêm intactos ou escondidos. Até agora, os anticorpos desenvolvidos para reconhecer estas diferenças ou não se ligavam com força suficiente ou reagiam com tecido saudável por engano. A equipa liderada por Paula Videira, professora catedrática e diretora da unidade de investigação UCIBIO na NOVA School of Science and Technology (NOVA FCT), resolveu o problema.
O L2A5 foi desenvolvido ao longo de anos de investigação em glicobiologia, combinando trabalho laboratorial com parcerias internacionais. A patente foi registada em 2019.
O anticorpo L2A5 — um farol molecular
A equipa de Paula Videira desenvolveu o L2A5, um anticorpo monoclonal que reconhece o antigénio sialyl Tn (STn), uma estrutura molecular presente na superfície de aproximadamente 80% das células cancerígenas — mas ausente ou inacessível nas células saudáveis. O que torna o L2A5 verdadeiramente inovador é a sua precisão excecional: os padrões únicos nas regiões de ligação do anticorpo permitem-lhe reconhecer simultaneamente vários marcadores de cancro relacionados, sem reagir com tecido saudável.
Esta precisão abre caminho a várias aplicações terapêuticas: pode ser adaptado para conjugados anticorpo-fármaco (ADCs) que entregam medicamentos diretamente nos tumores, ou para terapias CAR-T que "treinam" o sistema imunitário do próprio doente para caçar células positivas para STn. O L2A5 funciona como um farol molecular que guia o tratamento ao local certo — e apenas lá.
Paula Videira (direita) com a sua equipa no laboratório da NOVA FCT. O L2A5 resultou de uma colaboração entre a Universidade NOVA de Lisboa, o Instituto Português de Oncologia de Lisboa (IPO) e o Helmholtz-Zentrum Dresden-Rossendorf.
Investigação de longo prazo que deu frutos
"Não houve um momento 'eureka'. Foi um processo cumulativo. Cada experiência reforçava a nossa confiança", afirma Paula Videira. O desenvolvimento do L2A5 demorou anos, combinando investigação fundamental com uma visão clara de aplicação médica. A patente foi registada em 2019 (EP3743726B1), e nesse mesmo ano Videira e os seus colegas co-fundaram a CellmAbs, uma spin-off para levar o anticorpo ao mercado. Em 2024, a CellmAbs e a NOVA assinaram um acordo de licenciamento com uma empresa farmacêutica, que assumiu o desenvolvimento clínico do L2A5.
O projeto resultou de uma colaboração multidisciplinar entre a Universidade NOVA de Lisboa, o Instituto Português de Oncologia Francisco Gentil (IPO Lisboa) e o centro de investigação alemão Helmholtz-Zentrum Dresden-Rossendorf. "A nossa história nunca poderia vir de uma única área disciplinar. Quando partilhamos ideias, a energia torna-se coletiva", sublinha a investigadora.
Finalista na categoria Research do European Inventor Award
O trabalho de Paula Videira e da sua equipa valeu-lhes a nomeação como finalistas na categoria 'Research' (Investigação) do Prémio Inventor Europeu 2026, atribuído pelo Instituto Europeu de Patentes (EPO). A cerimónia decorreu a 2 de julho em Berlim, com transmissão em direto. Os outros finalistas na mesma categoria foram Adrian V.S. Hill (Irlanda/Reino Unido), pela vacina altamente eficaz contra a malária R21/Matrix-M, e Mikko Möttönen (Finlândia), por um sensor criogénico de micro-ondas para computação quântica. O vencedor da categoria foi Adrian Hill.
Na Europa, registaram-se cerca de 2,7 milhões de novos casos de cancro em 2024, segundo a Comissão Europeia — a segunda principal causa de morte no continente e a primeira em pessoas com menos de 65 anos. Invenções como o L2A5 respondem a uma necessidade urgente de diagnósticos mais precisos e terapias menos invasivas. O reconhecimento pelo EPO coloca a investigação portuguesa no mapa global da inovação oncológica.
Paula Videira é doutorada em Biotecnologia, com licenciatura em Bioquímica pela Universidade de Coimbra, e lidera o Grupo de Investigação em Glicoimunologia na NOVA FCT desde 2008. O seu percurso mostra que a investigação fundamental em áreas aparentemente marginais — como o estudo dos açúcares nas células — pode gerar avanços com impacto direto na vida dos doentes.
Feito por humanos — Portugal Binário
💬 Comentários
Nenhum comentário ainda. Sê o primeiro a comentar!