Braço robótico do ROV KIEL 6000 a segurar um nódulo de manganês no fundo do Oceano Pacífico — o tipo de tecnologia que o Hub Azul em Oeiras vai potenciar. Crédito: ROV KIEL 6000 / Wikimedia Commons CC BY 4.0
🔬 Ciência

Portugal abre centro de robótica subaquática de €4M em Oeiras — tanques de teste, supercomputadores e incubadora para 18 startups

O Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) inaugurou a 1 de julho o Hub Azul – Polo Oeiras Mar, o primeiro nó operacional de uma rede nacional de inovação oceânica. O centro de €4 milhões financiado pelo PRR oferece tanques de teste para robôs subaquáticos, supercomputadores para modelação climática e espaço de incubação para startups — e já tem 18 empresas internacionais na primeira vaga de aceleração.

O que é o Hub Azul?

O Hub Azul é uma rede de polos de inovação distribuídos pela costa portuguesa, desenhada para transformar Portugal num laboratório vivo de tecnologia oceânica. O polo de Oeiras, instalado no campus do IPMA em Algés, é o primeiro a abrir portas. O investimento total da rede é de €15,7M, também financiado pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR).

O centro foi concebido para encurtar o caminho entre a investigação científica e a aplicação comercial. Empresas, investigadores e startups passam a ter acesso a infraestruturas que antes estavam dispersas ou eram inacessíveis para pequenas equipas — um tanque de teste para robótica submersa, supercomputadores para simulação oceânica e oficinas especializadas para prototipagem.

Falésias do Cabo da Roca, o ponto mais ocidental da Europa — a costa atlântica que Portugal quer transformar em laboratório vivo de economia azul.

O Cabo da Roca, em Sintra. Portugal tem a terceira maior Zona Económica Exclusiva (ZEE) da Europa e aposta numa rede de hubs de inovação oceânica para rentabilizar esse potencial de forma sustentável.

Tanques, supercomputadores e incubadora

O polo de Oeiras está equipado com um tanque de teste para robótica subaquática que permite simular condições de mar profundo sem necessidade de fretar embarcações, reduzindo drasticamente os custos de validação para veículos autónomos submersos (AUV) e sensores oceânicos. As oficinas — mecânica, eletromecânica e eletrónica — permitem montar e iterar protótipos no local.

Os investigadores têm ainda acesso a sistemas de supercomputação de alto desempenho para tarefas intensivas como modelação oceânica, calibração de sensores assistida por IA e simulação climática. O centro dispõe também de uma biblioteca especializada em ciências marinhas, um espaço museológico com as coleções biológicas e geológicas do IPMA, e áreas de armazenamento para amostras e espécimes em condições de arquivo internacional.

18 startups já a bordo

O programa de aceleração Hub Azul, gerido pelo Fórum Oceano, já selecionou 18 startups internacionais. Entre elas está a Finless Foods, uma empresa norte-americana que cultiva atum-rabilho em laboratório como alternativa sustentável à sobrepesca. Embora nem todas as startups operem fisicamente a partir de Oeiras, têm acesso à rede de infraestruturas de teste, aconselhamento regulatório e contactos com investidores.

Um dos primeiros projetos a beneficiar do centro foi o "Get Smart Offshore", que venceu a competição de ideias Hub Azul Ideation em abril de 2026. Liderado por investigadores da Universidade de Évora (MARE/ARNET) e do IPMA, o projeto está a desenvolver um sensor ambiental biomimético auto-calibrável, alimentado por inteligência artificial, para aquacultura offshore.

Investigador com óculos de segurança em ambiente laboratorial — a componente humana da inovação no Hub Azul.

O Hub Azul School, em parceria com a Escola Náutica Infante Dom Henrique, vai formar a próxima geração de técnicos e engenheiros para a economia azul.

Sete hubs, uma estratégia

O polo de Oeiras é apenas a primeira peça de um sistema distribuído que vai cobrir a costa portuguesa. Estão previstos mais cinco hubs: Olhão (focado em biotecnologia marinha e valorização alimentar), Leixões (robótica de mar profundo e tecnologia de ambiente extremo, com um biobanco marinho no CIIMAR em Matosinhos), Peniche e Aveiro. Um sétimo local ainda não foi confirmado.

A complementar os polos, o Hub Azul School integra a Escola Náutica Infante Dom Henrique (ENIDH) e a rede FOR-MAR para alinhar o ensino marítimo com as necessidades da indústria — formando técnicos e engenheiros em ferramentas digitais, sistemas autónomos e análise de dados aplicados ao oceano.

Portugal como laboratório vivo do Atlântico

A estratégia do governo português enquadra o Atlântico como um ambiente de teste contínuo — um gerador de dados em tempo real onde sensores, drones e sistemas de monitorização operam em condições oceânicas reais, e não em laboratórios controlados. Este modelo atrai empresas que precisam de validar produtos sob corrosão salina, pressão extrema e bioincrustação marinha antes de os lançar no mercado.

As projeções apontam para um crescimento de 30% da economia azul portuguesa até ao final da década, impulsionado pela energia eólica offshore, aquacultura, biotecnologia marinha e logística portuária. O Hub Azul funciona como o tecido conjuntivo que liga estes subsetores: as universidades fornecem investigação, os polos disponibilizam teste, os aceleradores canalizam investimento e a escola forma profissionais.

A inauguração de julho de 2026 coloca Portugal à frente de países vizinhos em infraestrutura dedicada à tecnologia oceânica. Espanha e França operam institutos de investigação, mas poucos consolidaram teste, incubação e formação num único programa com financiamento dedicado do PRR.

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