Na madrugada de 23 de julho, o telemóvel do ostreicultor Denis Bellocq tocou antes das 4h30. A mensagem era curta e inequívoca: ordem de evacuação imediata. À mesma hora, a norte da baía de Arcachon, o megaincêndio de Gironde que tinha começado na tarde de 22 de julho em Saumos — a 40 quilómetros a sul de Bordéus — galgava a duna atlântica e aproximava-se das habitações da península do Cap-Ferret. A sul-oeste de Bordéus, o céu de Moutchic tingiu-se de laranja sobre a praia do lago Lacanau.
Em menos de 48 horas, a Guarda Nacional francesa tinha ordenado uma das maiores evacuações em tempo de paz na história do país: 220.000 pessoas retiradas de cinco municípios costeiros — La Teste-de-Buch, Gujan-Mestras, Le Teich, Biganos e Lège-Cap-Ferret. O Presidente Emmanuel Macron, em visita ao centro de crise operacional (CODIS) de Bordéus na segunda-feira 27 de julho, classificou o fogo como a «situação mais difícil desde a II Guerra Mundial» — frase que reproduziu, sem alterar uma vírgula, nos dias seguintes.
Na quinta-feira 30 de julho, o balanço consolidado apontava para 42.000 hectares de pinhal destruídos, 240 casas consumidas pelas chamas e 88 bombeiros feridos — um número que tinha subido dos 75 contabilizados no domingo 26 de julho. A superfície ardida equivale a cerca de 60.000 campos de futebol e supera o maior incêndio alguma vez registado em França na última década.
Timelapse de satélite Copernicus Sentinel-2 L2A entre 22 e 29 de julho de 2026, mostrando a evolução diária da pluma de fumo do incêndio de Gironde. Imagem: ESA / Copernicus / Wikimedia Commons.
Uma «pyrocumulonimbus» pela primeira vez em França continental
A 24 de julho à tarde, a coluna de fumo de Gironde atingiu a tropopausa. Formou-se uma nuvem cumuliforme de origem pirogénica — uma pyrocumulonimbus, ou «pyroCb» — uma estrutura atmosférica típica de incêndios de grande dimensão que injecta aerosóis e vapor de água directamente na estratosfera, podendo gerar os seus próprios relâmpagos. Foi a primeira vez em que o fenómeno foi observado em França continental, embora ocorrências similares tivessem sido registadas na Córsega em 2021. A pyroCb repetiu-se na noite de 25 para 26 de julho.
A pluma de fumo, com vários milhares de quilómetros de extensão, foi fotografada pelo satélite Copernicus Sentinel-2 e prolongou-se sobre o oceano Atlântico, atingindo a Galiza, o norte de Portugal continental (a 24 e 25 de julho o céu de Trás-os-Montes e do Minho ficou enevoado com fumo de Gironde) e a costa atlântica irlandesa.
A resposta europeia: Canadair, Air Tractor e Black Hawk
A 24 de julho, Macron pediu oficialmente a activação do Mecanismo de Proteção Civil da União Europeia. Nas horas seguintes, chegaram a Bordéus:
- Dois Canadair CL-415 da Croácia — o país que mais rapidamente respondeu;
- Dois Air Tractor AT-802F Fire Boss de Portugal, com uma equipa de sete elementos da Força Aérea Portuguesa;
- Dois aviões leves de carga de água da Suécia;
- Dois helicópteros pesados Black Hawk, um da Eslováquia, outro da Chéquia;
- Um helicóptero da Suíça e cerca de 30 bombeiros suíços para a península do Cap-Ferret.
A 28 de julho juntaram-se ainda dois CH-53 alemães e dois aviões de combate a incêndios da Turquia. A 29 de julho a Bélgica enviou veículos especializados Panther e camiões de reabastecimento. Ao todo, segundo a Marianne, a Franceinfo e o Sud Ouest, o dispositivo aéreo mobilizado em Gironde incluiu mais de 70 meios — entre os 12 Canadair franceses, oito Dash 8, 39 helicópteros da Sécurité civile, os 14 aparelhos europeus e a aeronave de transporte militar A400M mobilizada a partir do final de julho.
Aeronave Air Tractor AT-802F Fire Boss em operação de combate a incêndios — modelo idêntico aos dois exemplares destacados pela Força Aérea Portuguesa para Gironde. Foto: CONAF / Wikimedia Commons.
Portugal: a frota dos dois Air Tractor
O envio dos dois Air Tractor portugueses é, este ano, politicamente sensível. A Força Aérea Portuguesa opera apenas dois exemplares do AT-802F Fire Boss, ao abrigo de um contrato de leasing com a Aerial Fire Boss International — uma frota mínima, herdada do dispositivo que substituiu os antigos aviões PZL M-18 Dromader. A 15 de julho de 2022, o piloto da FAP André Serra, de 38 anos, ex-militar da Força Aérea, morreu em Torre de Moncorvo (distrito de Bragança) num acidente com um dos Air Tractor durante uma operação de combate a incêndios, em Urros — uma perda que a GPIAAF (Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves e Acidentes Ferroviários) investigou no relatório divulgado a 18 de julho do mesmo ano. Portugal tem vindo a substituir este modelo: em maio de 2024 foi assinado um contrato para seis novos Air Tractor AT-802, com entregas previstas para 2026-2027.
Enviar os dois exemplares operacionais em simultâneo para França implica, na prática, deixar o dispositivo nacional aéreo de combate a incêndios com capacidade mínima durante as semanas de maior risco de fogo em Portugal — a época 2026 está a ser, segundo dados do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), a mais grave desde 2017, com mais de 100.000 hectares já ardidos em território continental. O Governo português invocou, no entanto, a obrigação de solidariedade europeia do Mecanismo UCPM, e a Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC) confirmou a 25 de julho que a missão dos Air Tractor em Gironde estava enquadrada por aquele dispositivo.
A 31 de julho, segundo o Sud Ouest, o fogo de Saumos — que tinha sido estabilizado, mas não totalmente extinto — continuava a ser combatido com o dispositivo europeu, sob coordenação do centro operacional do CODIs de Bordéus.
A frase de Macron e os limites da solidariedade
A escala do fogo e a mobilização dos meios europeus, no entanto, expuseram fragilidades da própria França. Os 12 Canadair franceses — os aviões anfíbios de combate a incêndios de maior capacidade, com 6.000 litros por descarga — estão obsoletos, com uma média de 25 anos de serviço, e sofrem de faltas de peças e de técnicos de manutenção. A renovação foi parcialmente resolvida: o país encomendou em 2024 dois DHC-515 (financiados a 75% pelo programa europeu rescEU, com entrega prevista entre 2028 e 2030) e, em junho de 2026, mais dois DHC-515 financiados a 100% por Paris, num contrato de 200 milhões de euros com entrega entre 2032 e 2033. Para já, a França depende de pedidos formais a Portugal, Croácia, Chéquia, Eslováquia, Suécia, Suíça, Alemanha, Bélgica, Itália e Grécia para colmatar a sua própria falta de meios.
Macron agradeceu, em várias mensagens na rede X, a «solidariedade concreta, rápida e operacional» dos parceiros europeus. Mas a ironia ficou visível: o país que historicamente liderou o dispositivo aéreo de combate a incêndios da Europa está, este verão, a receber emprestado de parceiros mais pequenos exactamente os meios que decidiu não renovar durante décadas.
Feito por humanos — Portugal Binário
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