Retrato a preto e branco de Karl Deisseroth, de camisa branca e barba curta, com a mão apoiada na têmpora, sobre fundo escuro

Karl Deisseroth em 2022. Fotografia: Christopher Michel — Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0), recorte.

🔬 Ciência

Optogenética ganha o Nobel da Medicina 2026: luz que liga neurónios

A Assembleia do Nobel, no Instituto Karolinska, atribuiu esta segunda-feira o prémio de Fisiologia ou Medicina de 2026 a três investigadores que criaram a optogenética, um método que liga e desliga neurónios escolhidos com luz. O galardão vai para os alemães Peter Hegemann e Georg Nagel, que encontraram a proteína na origem da técnica, e para o norte-americano Karl Deisseroth, que a transformou num interruptor para neurónios.

O método mudou a forma como a neurociência testa causas: em vez de observar que duas coisas acontecem ao mesmo tempo, permite desligar um circuito e ver o que deixa de funcionar. A técnica já saiu dos laboratórios — está a ser testada em doentes para tentar devolver a visão, e uma terapia optogenética entrou em Setembro em revisão formal na FDA.

A optogenética não deu aos neurocientistas imagens melhores do cérebro: deu-lhes a possibilidade de ligar e desligar uma célula à escolha. É o que separa uma correlação de uma prova.

O que faltava à neurociência

Durante o século XX, os investigadores mapearam que zonas do cérebro mexem em que funções, mas não conseguiam provar relações de causa. Estimular com electricidade ou destruir uma região afecta tudo o que passa por ali, e ver neurónios a acender não diz se eles causam o comportamento ou apenas o acompanham.

Com o novo instrumento, os cientistas revelaram circuitos ligados a memórias concretas, a emoções e a comportamentos, incluindo circuitos relevantes em doenças neurológicas e psiquiátricas — é assim que o comunicado do Nobel descreve o impacto da técnica. O comité sublinha que essas ligações não podiam ser provadas antes de existir uma forma de controlar um grupo de neurónios sem tocar nos vizinhos.

Da alga ao interruptor

A história começa numa alga de água doce, a Chlamydomonas, que nada em direcção à luz. No início dos anos 2000, Hegemann quis saber como o fazia e, com Nagel, descobriu a canalrodopsina, uma proteína da superfície da célula. Quando a luz azul a atinge, abre-se um canal e entram iões carregados, o que gera um impulso eléctrico.

Os dois verificaram que a proteína tornava sensível à luz qualquer célula onde fosse colocada, além das algas. Deisseroth deu o passo seguinte: introduziu o gene da canalrodopsina em neurónios de rato e conseguiu accioná-los com luz azul. Publicou o resultado em 2005; dois anos depois, o interruptor já funcionava nos cérebros de ratinhos vivos.

Microscopia electrónica de varrimento com várias células ovais da alga Chlamydomonas, cada uma com dois flagelos finos, sobre fundo escuro

A canalrodopsina foi descoberta nesta alga, a Chlamydomonas reinhardtii: cada célula tem dois flagelos e um mecanismo sensível à luz que a faz nadar para onde há claridade.

Crédito: Dartmouth Electron Microscope Facility / Wikimedia Commons (domínio público)

PrémioNobel de Fisiologia ou Medicina de 2026
Anunciado5 de Outubro de 2026, em Estocolmo
LaureadosPeter Hegemann, Georg Nagel e Karl Deisseroth
InstituiçõesUniversidade Humboldt de Berlim, Universidade de Würzburg, Universidade de Stanford e Instituto Médico Howard Hughes
Valor12 milhões de coroas suecas, em três partes iguais
Canalrodopsina descobertainício dos anos 2000
Neurónios accionados com luzpublicado em 2005, em ratinhos vivos em 2007
Restauro parcial de visão num doente2021
Prémio António Champalimaud de Visão 2026Botond Roska e José-Alain Sahel, 1 milhão de euros

A visão é o primeiro alvo clínico

Os primeiros doentes tratados com optogenética perderam os fotorreceptores — as células que captam a luz — mas mantêm neurónios intactos na retina. A ideia é dar-lhes um gene que torne essas células sensíveis à luz e fornecer a luz por uns óculos. Em 2021, a Nature Medicine publicou o caso de um homem de 58 anos, cego desde os 40 por retinite pigmentosa, que voltou a distinguir passagens de peões na rua depois da injecção no olho e de meses de treino.

A aplicação clínica deu em Setembro um passo formal. A 9 de Setembro, a empresa norte-americana Nanoscope anunciou que a FDA aceitou e deu entrada à candidatura de licença biológica do MOGENRY, uma terapia optogenética para a retinite pigmentosa com perda grave de visão. Não é uma aprovação.

A candidatura apoia-se num ensaio de fase 1/2a, no RESTORE — fase 2b/3, aleatorizado e controlado por um procedimento simulado — e num estudo de seguimento a longo prazo, o REMAIN. A empresa afirma que o ensaio cumpriu os objectivos principais e que não houve efeitos secundários graves ligados ao tratamento.

Em Portugal, a aplicação da técnica à visão já foi distinguida. A 15 de Setembro, a Fundação Champalimaud atribuiu o Prémio António Champalimaud de Visão 2026, no valor de um milhão de euros, a Botond Roska e José-Alain Sahel, dois dos autores do trabalho publicado em 2021.

Nos laboratórios portugueses, a optogenética é sobretudo pré-clínica: a Fundação Champalimaud e o ICVS da Universidade do Minho têm grupos que a usam para ligar e desligar populações de neurónios em modelos animais.

O que ainda não existe

A optogenética exige duas coisas que o corpo não tem: um gene novo, entregue por um vírus modificado, e uma fonte de luz. No olho, ambas cabem numa injecção e num par de óculos. No cérebro, a luz teria de chegar por uma fibra implantada, e a técnica continua a ser experimental: a estimulação cerebral profunda, usada em doentes com Parkinson, continua a ser feita com eléctrodos.

Nenhuma terapia optogenética está aprovada, e o próprio comunicado da empresa descreve os doentes com perda grave de visão por retinite pigmentosa como um grupo sem terapia aprovada. A afirmação de que o MOGENRY seria a primeira terapia independente do gene mutado é da empresa e depende da decisão da FDA. O Nobel, por sua vez, premeia uma ferramenta de investigação: não valida nenhum produto nem nenhum tratamento concreto.

A decisão da FDA, ainda sem data pública, dirá se o primeiro produto optogenético chega ao mercado. Nos laboratórios, entretanto, a pergunta já mudou de forma: deixou de ser onde está a actividade e passou a ser o que acontece quando ela é interrompida.

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