Daniel Ek (Spotify) e Hjalmar Nilsonne, fundadores da Neko Health, com o equipamento de scan corporal proprietário
🏥 Saúde

Daniel Ek (Spotify) recolhe 613 milhões de euros para escanear corpos humanos — 100 mil pessoas já pagaram para saber se estão doentes

Daniel Ek, o homem que transformou a forma como o mundo ouve música com o Spotify, está a tentar fazer o mesmo pela medicina preventiva. A sua startup, a Neko Health, acabou de fechar uma ronda de financiamento de 700 milhões de dólares (cerca de 613 milhões de euros), a maior até hoje no sector da saúde preventiva baseada em tecnologia. A empresa, cofundada com Hjalmar Nilsonne em 2018, vale agora quase sete mil milhões de dólares — quatro vezes mais do que valia em Janeiro de 2025.

O dinheiro, liderado pela Lightspeed Venture Partners e O.G. Venture Partners, vai financiar a primeira clínica americana, em Nova Iorque, e o desenvolvimento da próxima geração de dispositivos médicos proprietários. Entre os investidores individuais contam-se nomes que habitualmente não aparecem em rondas de saúde: Mark Zuckerberg e Priscilla Chan, Maria Sharapova, Thierry Henry, will.i.am e o autor Tim Ferriss.

Equipamento de scan corporal proprietário da Neko Health — captura milhões de pontos de dados sobre pele, coração e circulação

O scanner da Neko Health foi desenvolvido internamente em Estocolmo e combina imagiologia avançada com análise de sangue no local.

O que é, exactamente, um scan Neko

Não é uma ressonância magnética. Não usa radiação. Não é uma TAC. O que a Neko vende é uma avaliação de saúde de 60 minutos que combina sensores proprietários — a empresa constrói o seu próprio hardware, software e protocolos clínicos — com análise de sangue no local. O equipamento capta milhões de pontos de dados sobre a pele, coração e circulação. No final, um médico revê os resultados presencialmente com o paciente.

O scan rastreia sinais precoces de cancro de pele (incluindo alterações em sinais invisíveis a olho nu), doença cardiovascular, diabetes e síndrome metabólica. Desde Junho de 2026, inclui também composição corporal em segundos e integração com dados de wearables como o Apple Watch. O preço: 299 libras no Reino Unido (cerca de 350 euros), 2.750 coroas suecas (cerca de 249 euros).

Dermatoscopia digital da Neko Health — mapeamento de mais de 2.000 sinais de pele com rastreio de alterações ao longo do tempo

O scan tira mais de 2.000 imagens de alta resolução da pele, mapeando sinais de cabeça aos pés e permitindo comparação entre consultas.

Os números que impressionam os investidores

Mais de 100 mil pessoas já passaram pelas oito clínicas da Neko — quatro em Londres, duas em Estocolmo, e mais duas na capital sueca. Mais de 350 mil estão na lista de espera ou já marcaram consulta. A taxa de re-reserva é de 75 por cento: três em cada quatro pessoas que fazem um scan voltam no ano seguinte. A empresa diz que, entre os membros recorrentes com condições graves detectadas no primeiro scan, três em cada quatro tinham a situação controlada ou resolvida no segundo.

Entrámos em mercados onde a saúde é gratuita, e centenas de milhares de pessoas fazem fila para pagar um scan. Isso também captura a imaginação.

— Daniel Ek, cofundador da Neko Health, ao New York Times

Um caso concreto: Alex Tew, fundador da app de meditação Calm, publicou no X que o scan da Neko detectou um sinal maligno nas suas costas que ele não sabia ter. Removeu-o de imediato. «Estou grato à Neko por me ajudar a descobrir isto — não tenho a certeza de como o teria feito de outra forma», escreveu.

Clínica Neko Health com tecnologia proprietária e equipa médica interna — modelo de prevenção proactiva

As oito clínicas da Neko (Londres, Estocolmo, Birmingham, Manchester) operam com equipamento e protocolos desenvolvidos pela própria empresa.

O que é que Portugal tem a ver com isto

À primeira vista, nada — a Neko não opera em Portugal e não há planos para tal. Mas a pergunta mais relevante é outra: porque é que não existe nada parecido? Portugal tem um SNS sobrecarregado onde a medicina preventiva é quase inexistente. Os check-ups anuais, quando existem, são superficiais. A lista de espera para uma consulta de dermatologia pode ultrapassar os seis meses. O rastreio de cancro de pele depende quase exclusivamente da vigilância do próprio paciente.

A Neko provou uma coisa contraintuitiva: em mercados com saúde pública gratuita (Suécia, Reino Unido), as pessoas pagam do próprio bolso para prevenção proactiva. Não por desconfiança no sistema público — mas porque o sistema público intervém quando a doença já existe, não antes. O modelo da Neko é exactamente o oposto: detectar problemas quando ainda são pequenos, baratos de tratar e potencialmente evitáveis.

Se o modelo se provar nos EUA — o mercado mais difícil e mais caro — é uma questão de tempo até chegar ao sul da Europa. E quando chegar, a questão não será se funciona, mas se o SNS português saberá integrá-lo.

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