Caixa de televisão Android preta da marca Tracer, ao lado do respectivo comando, em frente a uma televisão.

Caixa Android TV Tracer, em fotografia de arquivo (Oliwier Jaszczyszyn / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0). Não é um dos modelos identificados na operação.

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1,3 milhões de caixas de TV vinham infetadas pelo próprio fabricante

A Google e um conjunto de parceiros desmantelaram uma botnet — uma rede de aparelhos infetados e controlados à distância — que tinha mais de 1,3 milhões de caixas de televisão Android infetadas de fábrica. O caso, anunciado a 2 de Novembro, não começou com um descuido de quem comprou o aparelho: segundo o relatório do Google Threat Intelligence Group, o código malicioso vinha gravado no firmware, o software que o equipamento traz de origem, e foi ali colocado pela própria fabricante, a chinesa Videostrong, que vendia o acesso aos aparelhos a grupos criminosos.

A empresa, com endereço em Shenzhen, foi proibida de fabricar equipamentos Android certificados — os que trazem as aplicações da Google — e de fornecer software a outros fabricantes certificados. Nas fontes consultadas até esta terça-feira não foi localizada qualquer reacção pública da Videostrong.

O que os aparelhos faziam

A maioria dos aparelhos eram caixas de streaming Android TV, mas o relatório identifica também equipamentos de telemedicina, máquinas de karaoke e painéis de sinalização digital. Neles, o código instalava módulos que os transformavam em nós de «proxy residencial»: o endereço de internet de casa passava a ser alugado a terceiros, que navegam como se estivessem na rede de outra pessoa. Entre os módulos encontrados pela Google há serviços de proxy, software de partilha de ligação e ferramentas de fraude publicitária; a empresa diz ter observado também roubo de dados dos equipamentos afetados.

Caixas infetadasmais de 1,3 milhões
Outros dispositivos com acesso cortadopelo menos 10 milhões (estimativa da Google)
Âmbitomais de 200 países
Iníciopelo menos o final de 2024
Módulos por aparelhoaté três programas de proxy residencial

Como funcionava

O encadeamento tinha três passos. No primeiro, o programa — chamado x.cpe em muitas versões — vinha pré-instalado na partição de firmware e corria com o privilégio de sistema do Android, o que lhe dava controlo sobre o resto do aparelho. Não pode ser removido pelo utilizador: se for apagado, volta a instalar-se no arranque seguinte.

Diagrama com quatro caixas em sequência: firmware de fábrica, x.cpe, com.abc.nexus e módulos de proxy residencial, fraude publicitária e mais malware.

Esquema simplificado: o código vinha gravado no firmware, corria com privilégio de sistema e recebia módulos de monetização. Ilustração: Portugal Binário, a partir do relatório da Google Threat Intelligence Group.

O segundo elo, com.abc.nexus, funcionava como carregador: recebia ordens por um servidor de mensagens do tipo MQTT e instalava os módulos. As instruções podiam incluir a instalação silenciosa de aplicações, capturas de ecrã, injecção de teclas e comandos de shell. Antes disso, o malware desactivava a verificação do Google Play Protect no aparelho, para que as instalações passassem sem aviso. Em Agosto de 2026, quem controlava a rede começou a instalar versões novas disfarçadas de aplicações do sistema.

O que a operação cortou — e o que não cortou

A Google avançou com acções legais para derrubar os domínios e servidores de comando da Videostrong e de mais de uma dúzia de famílias de malware distribuídas por este canal, excluiu a empresa e futuras subsidiárias dos dispositivos Android certificados e mudou o seu processo de revisão, depois de a Videostrong ter usado técnicas de ofuscação para carregar o código malicioso só depois do primeiro arranque. A operação teve como parceiros a Polícia Nacional do Japão, a Lumen, a HUMAN Security, a Plume, a Synthient e a TrendAI.

A Google estima que o corte dos domínios de comando retire o acesso a pelo menos 10 milhões de outros dispositivos comprometidos, porque os grupos associados a esta rede usam os mesmos servidores noutros aparelhos. É uma estimativa, não uma contagem. Já os 1,3 milhões têm quem os conte: a TrendAI diz ter identificado «mais de 1,3 milhões» de aparelhos e a Synthient, citada pelo Krebs on Security, considera o número «altamente conservador». A Plume, parceira da operação, fala de equipamentos espalhados por mais de 200 países.

O que a operação não resolve é o que já está dentro de casa. Não foi anunciada qualquer recolha dos aparelhos vendidos, nem uma forma de os limpar: o que foi cortado é o acesso de quem controlava a rede às caixas.

Quem vendia, quem comprava

A Videostrong desenha e produz hardware por encomenda, que outras marcas vendem com o seu nome. A Google diz que o malware estava «em muitos modelos e marcas diferentes, ao longo de vários anos». A Synthient encontrou o mesmo esquema em caixas vendidas com a marca MECOOL, da também chinesa Skyworth. É este arranjo — um fabricante que serve muitas marcas — que transforma o firmware num ponto de falha comum a milhares de aparelhos aparentemente distintos.

Do outro lado está o negócio que paga: o relatório nomeia fornecedores de proxy residencial cujos módulos apareceram nos aparelhos, como a Linkfog, a AppSalt (Honeygain, do grupo Oxylabs) e a NetNut. A Oxylabs não respondeu ao pedido de comentário do Krebs on Security. A Google argumenta que as promessas de fornecimento «ético» destes serviços têm de ser provadas com consentimento auditável e que, na sua análise, o consentimento só aparece quando a plataforma obriga.

A diferença entre uma caixa de TV barata e um computador comprometido é quem colocou o código lá. Neste caso, quem o colocou foi o fabricante — e o aparelho continuou a funcionar normalmente durante anos, enquanto alugava a ligação de casa.

O que pode fazer

Para quem compra: a Google mantém uma lista pública de fabricantes certificados e recomenda que os equipamentos ligados se comprem apenas a marcas que ali figurem. Para quem já tem uma caixa destas: manter o Play Protect activo, desconfiar de aplicações que pagam por «largura de banda não utilizada» — uma das formas de recrutar aparelhos para redes de proxy — e rever as permissões de VPN e de proxies instalados no equipamento.

Fica de fora o que o relatório não diz: quantos destes aparelhos estão em Portugal. A Google não publica números por país e o mapa da botnet mostra concentrações, não contagens nacionais. Sobre responsabilidades, o relatório é explícito: além do fabricante, aponta lojas e retalhistas que deviam exigir auditorias de segurança aos fornecedores e retirar de venda os equipamentos implicados.

O caso importa menos pelo número redondo do título do que pela lógica que expõe. Uma botnet assim não vive de um erro de programação: vive de um modelo de negócio em que o aparelho mais barato da sala de estar é vendido uma vez e explorado durante anos.

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