O Sol a nascer sobre o limbo da Terra visto de órbita, com a fina camada azul da atmosfera e parte da estrutura da Estação Espacial Internacional à direita.

NASA / Wikimedia Commons (domínio público) — nascer do Sol sobre o limbo da Terra, visto da Estação Espacial Internacional (imagem ilustrativa)

🚀 Espaço

Do espaço veio um haiku: a IA da Google respondeu de órbita

Uma TPU de classe de centro de dados, a bordo de um satélite, executou um modelo de inteligência artificial em órbita e devolveu o resultado à Terra. O anúncio é da Google e tem data: 30 de outubro. O pedido foi enviado durante uma passagem sobre uma estação terrestre e a resposta desceu quando o satélite passou por Svalbard, na Noruega. O modelo era o Gemma 4, um dos modelos abertos da empresa, e o pedido era simples: escrever um haiku sobre estar no espaço.

Blue marble below / Data streams in silent grace / Starlight feeds my core.

— Gemma 4, a bordo do protótipo do Project Suncatcher

Resposta do modelo em órbita, descarregada em Svalbard a 30 de outubro de 2026 — tradução nossa: «Mármore azul em baixo / Dados correm em graça silenciosa / A luz das estrelas alimenta o meu núcleo»

O teste provou uma coisa estreita: uma TPU a bordo corre um modelo e devolve texto. Não provou débito, estabilidade, resistência à radiação ou custo. A distância entre estas duas frases é toda a distância que separa uma demonstração de uma infraestrutura.

O que aconteceu até aqui

O satélite foi lançado a 1 de outubro na missão Transporter-18 da SpaceX, construído em parceria com a Planet, e a Google confirmou o contacto dias depois. Seguiu-se a lista de verificações de arranque: ligar os módulos do computador de bordo e da TPU e correr os primeiros testes de aprendizagem automática. O marco de 30 de outubro é o primeiro resultado visível dessa sequência. Depois do haiku, a equipa testou limericks e pedidos de telemetria sobre o estado dos sistemas de bordo.

Porque é que alguém quer computadores no espaço

A ideia do Project Suncatcher, apresentada em novembro de 2025 e agora publicada em artigo na revista Joule, é pôr constelações de satélites com TPU a orbitar onde o Sol quase nunca se põe. A órbita proposta é heliossíncrona, de amanhecer-anoitecer, de modo a que os painéis solares estejam expostos a luz quase constante — a Google calcula que, na órbita certa, um painel pode ser até oito vezes mais produtivo do que à superfície da Terra, e que assim se dispensam baterias pesadas. O obstáculo económico é o lançamento: o artigo projeta que, se o custo descer para cerca de 200 dólares por quilograma em meados da década de 2030, o valor amortizado por quilowatt fica próximo do custo da energia num centro de dados em terra.

Lançamento do protótipo1 de outubro de 2026, Transporter-18 da SpaceX, com a Planet
Marco «Hello World»30 de outubro de 2026
Modelo executado em órbitaGemma 4
Estação que recebeu a respostaSvalbard, Noruega
Próximos testesstress térmico e exposição a radiação
Marco seguintedois satélites interligados, em 2027

O que é difícil e ainda não está resolvido

No espaço não há ar para levar o calor embora: o calor tem de ser conduzido até radiadores e libertado por radiação, e é isso que a Google vai agora medir, a par dos erros que a radiação cósmica provoca nos chips. Falta também o que faz a força de um centro de dados — computadores ligados entre si a grande velocidade. O plano passa por ótica de espaço livre entre satélites em formação próxima, e o primeiro teste com dois aparelhos interligados está previsto para 2027.

O que isto tem a ver com o resto de nós

A ligação é a fatura elétrica. A computação da inteligência artificial consome energia em escala industrial, e é por isso que os centros de dados se tornaram um assunto de política pública também em Portugal, onde há 46 instalações, 44 iniciativas em avaliação e uma regra a caminho que vai exigir energia renovável a quem se instale. A proposta da Google é uma resposta radical à mesma pergunta: em vez de levar a energia até aos computadores, levar os computadores até à fonte de energia.

O que fica por provar

Praticamente tudo o que interessa para saber se isto é viável. Uma resposta de texto não diz nada sobre quantos pedidos o sistema aguenta, com que latência responde a um utilizador real, quanto dura o hardware sob radiação, nem se o custo por cálculo se aproxima do de um centro de dados terrestre. O artigo da Joule é um desenho de sistema com projeções, não uma medição de serviço. «Primeiro» é a palavra da Google: nenhuma entidade independente auditou a alegação.

Vale a pena acompanhar dois momentos: os resultados dos testes de calor e radiação, que dirão se as TPU sobrevivem ao ambiente, e a experiência de 2027 com dois satélites ligados por laser. Se essa ligação funcionar, deixa de haver só computadores no espaço e passa a haver, em princípio, um princípio de rede. Até lá, o haiku é bonito e é verdadeiro — mas é um poema, não um serviço.

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