A imagem popular da paleontologia é a de um cientista de chapéu de aba larga a descobrir um esqueleto gigante e intacto na areia do deserto. A realidade é bem diferente: a maioria dos fósseis pré-históricos são fragmentos isolados — um dente aqui, uma falange ali. Mas para um paleontólogo, esses fragmentos contam histórias maiores.
E de uma única vértebra encontrada num leito fossilífero na Tailândia, uma equipa de investigadores identificou uma espécie totalmente nova de dinossauro gigante. Batizado de Uragasaurus kalasinensis, o novo dinossauro é um saurópode de pescoço longo — o grupo dos gigantes herbívoros que inclui o Diplodocus e o Brontossauro — que viveu nas florestas do Sudeste Asiático há 150 a 145 milhões de anos, no final do período Jurássico.
Uma vértebra em forma de Y
O fóssil, catalogado como PRC 460, é uma vértebra dorsal anterior — um osso da zona logo atrás do pescoço — encontrada no sítio fossilífero de Phu Noi, na Formação Phu Kradung, no nordeste da Tailândia. A vértebra apresenta uma configuração morfológica invulgar em forma de Y nos processos ósseos superiores, uma assinatura anatómica que não existe em nenhuma outra espécie conhecida.
Para desvendar os segredos do fóssil sem o danificar, a equipa recorreu a tomografia computadorizada, que revelou uma rede complexa de cavidades internas — estruturas pneumáticas que ajudavam a reduzir o peso total do animal. Esta técnica permitiu aos cientistas confirmar que o osso pertencia a um membro dos Mamenchisauridae, a família de saurópodes famosa pelos seus pescoços extraordinariamente longos.
Esta descoberta expande a diversidade conhecida de saurópodes mamenquissaurídeos no Sudeste Asiático e fornece novas informações sobre a distribuição geográfica e a história evolutiva do clado.
— Apirut Nilpanapan, paleontólogo da Mahasarakham University, Tailândia
Para além da China
Os mamenquissaurídeos eram comuns na China durante o Jurássico Médio a Superior, mas a sua presença fora da China sempre foi raramente documentada. O Uragasaurus kalasinensis é o primeiro mamenquissaurídeo formalmente nomeado na Tailândia, e a sua descoberta sugere que esta família de dinossauros tinha uma distribuição geográfica muito mais ampla do que se pensava — estendendo-se por todo o leste da Ásia.
A Formação Phu Kradung, no nordeste da Tailândia, é uma das áreas mais ricas em fósseis de vertebrados do Jurássico no Sudeste Asiático. As tomografias computorizadas revelaram a estrutura pneumática interna da vértebra do Uragasaurus. Crédito: Nilpanapan et al., Sci. Rep. 2026
A análise filogenética conduzida pela equipa coloca o Uragasaurus perto da base da árvore genealógica dos mamenquissaurídeos, sugerindo que representa um dos membros mais primitivos do grupo. Isto indica que a história evolutiva destes dinossauros de pescoço longo é mais complexa do que se imaginava.
O que conta um único osso
Curiosamente, a escavação também revelou outros ossos de saurópodes nas proximidades — incluindo uma fíbula, um coracóide e outras vértebras — que os investigadores suspeitam poderem pertencer à mesma espécie. No entanto, nenhum destes fragmentos apresentava características suficientemente distintivas para serem atribuídos com confiança ao Uragasaurus. Apenas a vértebra original tinha a 'impressão digital' anatómica necessária para diagnosticar uma nova espécie.
O nome Uragasaurus vem do sânscrito 'Uraga' (cobra), em referência ao pescoço longo e serpentino destes dinossauros, combinado com 'saurus' (lagarto, em grego). O epíteto 'kalasinensis' refere-se à província tailandesa de Kalasin, onde o fóssil foi encontrado.
Vista frontal e traseira da vértebra dorsal anterior (PRC 460) que serviu de base à identificação do Uragasaurus kalasinensis. A estrutura em forma de Y é visível na parte superior. Crédito: Nilpanapan et al., Sci. Rep. 2026
A descoberta sugere que existiam ligações faunísticas entre a China e o Sudeste Asiático durante o Jurássico Superior, permitindo a circulação de grupos semelhantes de animais entre estas regiões. Os investigadores esperam que novas escavações na Formação Phu Kradung possam revelar esqueletos mais completos e ajudar a reconstruir com maior detalhe a história evolutiva destes gigantes.
O estudo foi publicado na revista Scientific Reports (Nature Portfolio) a 8 de julho de 2026, com o DOI: 10.1038/s41598-026-49822-3, por uma equipa liderada por Apirut Nilpanapan da Mahasarakham University, Tailândia.
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