A SpaceX lançou a 7 de julho de 2026 o primeiro satélite comercial movido a energia nuclear da história. O BOHR (Betavoltaic Orbital High-Reliability), construído pela empresa norte-americana City Labs, decolou a bordo do Falcon 9 na missão Transporter-17, a partir da Base de Força Espacial de Vandenberg, na Califórnia, juntamente com outros 80 payloads.
O BOHR é um CubeSat — um satélite miniaturizado de dimensões padronizadas — que transporta a bordo uma bateria nuclear da dimensão de uma moeda. A tecnologia chama-se NanoTritium e funciona por efeito betavoltaico: o decaimento radioativo do trítio (um isótopo de hidrogénio) liberta partículas beta, que são convertidas diretamente em eletricidade por um semicondutor. Não há fissão, não há reator — é uma micropilha nuclear.
«Este é um passo histórico para a energia nuclear comercial no espaço. O BOHR demonstra que sistemas de energia nuclear seguros, compactos e aprovados pela regulação estão prontos para implantação comercial de rotina.»
— Peter Cabauy, CEO da City Labs
Uma bateria que dura 20 anos
Ao contrário dos geradores termoelétricos de radioisótopos (RTG) usados em missões como as Voyager da NASA — que convertem o calor do decaimento radioativo em eletricidade — o NanoTritium opera a uma escala muito menor. As células betavoltaicas da City Labs convertem diretamente a radiação beta do trítio em corrente elétrica, sem necessidade de calor ou partes móveis.
A vantagem é a longevidade: a City Labs afirma que as suas baterias podem fornecer energia contínua por mais de 20 anos, independentemente da luz solar. O BOHR continua a usar painéis solares para as operações normais do satélite — o NanoTritium alimenta exclusivamente a carga útil de demonstração — mas o princípio está validado para futuras missões que precisem de energia onde o Sol não chega.
O caminho regulatório também é inédito
O BOHR é também o primeiro satélite comercial nuclear a obter aprovação de lançamento pela FAA ao abrigo do National Security Presidential Memorandum-20 (NSPM-20), o quadro legal que regula o lançamento de sistemas nucleares espaciais. A análise de segurança foi preparada pela City Labs com supervisão técnica de Kevin Makinson, e independentemente revista e validada pelos Sandia National Laboratories, uma autoridade de referência em autorizações nucleares nos EUA.
A FAA emitiu a autorização afirmativa a 30 de setembro de 2025, um marco regulatório que demonstra que o setor privado pode navegar o processo de aprovação para materiais nucleares em voos espaciais comerciais.
Para que serve uma bateria nuclear no espaço?
Há lugares no espaço onde os painéis solares não funcionam bem: regiões permanentemente sombrias da Lua (onde se suspeita existir gelo de água), o lado escuro de asteroides, o espaço profundo além de Marte, e ambientes de elevada radiação ou temperatura extrema. Nestes locais, uma bateria nuclear compacta que funciona durante décadas sem manutenção é a diferença entre uma missão possível e uma missão impossível.
A NASA, no âmbito do programa Artemis, planeia enviar humanos para o polo sul lunar ainda esta década. O BOHR testa exatamente o tipo de tecnologia que poderá alimentar sensores, comunicações e instrumentos científicos nessas regiões sem luz.
A City Labs já trabalha há anos com NASA, Força Aérea dos EUA, AFWERX e SpaceWERX através do programa Small Business Innovation Research (SBIR), e em junho de 2026 recebeu um contrato de $1,5 milhões da DARPA para a próxima geração de baterias nucleares.
«As regiões permanentemente sombrias da Lua são cientificamente importantes — podem conter gelo de água e outros recursos. Mas operar lá cria um grave problema energético. Painéis solares não ajudam dentro da sombra profunda. É aí que a micropotência nuclear se torna útil.»
— SpaceEyeNews, análise da missão BOHR
O que o BOHR não é
Não é um reator nuclear. O BOHR não usa fissão — não há urânio, não há reação em cadeia, não há produção de calor em grande escala. O trítio é um isótopo de baixa energia, cuja radiação beta é travada por uma folha de papel. A City Labs afirma que os seus sistemas operam a níveis de radiação extremamente baixos e são projetados para manuseamento, transporte e integração seguros em ambientes de lançamento comercial.
Também não vai alimentar uma base lunar — a potência é minúscula, na ordem dos microwatts, suficiente para sensores e pequenos dispositivos, não para habitats ou rovers.
O que o BOHR faz é provar que o conceito funciona em condições reais de voo. E, como tantas vezes na tecnologia, são os primeiros passos pequenos que abrem caminho para os grandes saltos.
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