Arqueólogos da Universidade de Barcelona descobriram algo nunca antes visto: um fragmento de papiro com texto da Ilíada de Homero foi encontrado propositadamente incorporado no processo de mumificação de uma múmia da era romana, com cerca de 1600 anos, no sítio arqueológico de Oxirrinco (Al Bahnasa), a 190 km a sul do Cairo.
O papiro foi colocado sobre o abdómen do falecido durante o embalsamamento, e os investigadores acreditam que é a primeira evidência arqueológica de um texto literário grego a ser intencionalmente usado no processo funerário — até agora, todos os papiros encontrados neste contexto eram de natureza mágica ou ritual.
O Catálogo dos Navios
O fragmento foi identificado como parte do "Catálogo dos Navios" (Catalogue of Ships), uma das passagens mais famosas do Livro II da Ilíada, onde o narrador invoca as musas para listar as forças gregas que navegaram para Troia. A identificação foi feita pela papirologista Leah Mascia, da Universidade Livre de Berlim, e pelo filólogo Ignasi-Xavier Adiego, da Universidade de Barcelona, que estudaram o documento frágil durante a segunda campanha de investigação em janeiro e fevereiro de 2026.
Descoberta em Oxirrinco
A descoberta foi feita pela Missão Arqueológica de Oxirrinco (IPOA), dirigida por Maite Mascort e Esther Pons, durante a campanha de escavação entre novembro de 2025 e fevereiro de 2026. Oxirrinco é um dos sítios arqueológicos mais importantes do mundo para papiros — no final do século XIX e início do século XX, os arqueólogos encontraram cerca de meio milhão de fragmentos nas lixeiras antigas da cidade, incluindo peças de teatro perdidas, registos fiscais e cartas privadas.
O que torna esta descoberta única é o contexto funerário: o papiro foi deliberadamente incorporado na mumificação, algo que os arqueólogos nunca tinham visto com um texto literário. "Desde finais do século XIX que uma enorme quantidade de papiros foi descoberta em Oxirrinco, mas a verdadeira novidade é encontrar um papiro literário num contexto funerário", explicou o professor Adiego. A conservadora Margalida Munar também participou na análise do documento.
Necrópole de Al Bahnasa (antiga Oxirrinco), onde o túmulo com a múmia e o papiro da Ilíada foi descoberto. Crédito: Egyptian Ministry of Tourism and Antiquities.
Línguas de ouro e amuletos
No mesmo túmulo (Túmulo 65, Setor 22), os arqueólogos encontraram outras múmias com línguas de ouro e cobre — uma prática funerária romano-egípcia que permitiria ao falecido comunicar com o deus Osíris no além. O facto de a Ilíada ter sido colocada dentro do invólucro da múmia, selada e dobrada sobre o abdómen, sugere que o poema de Homero tinha uma função espiritual comparável à de um amuleto mágico.
Segundo Foy Scalf, egiptólogo da Universidade de Chicago, há evidências de que textos literários gregos eram usados como amuletos mágicos e que Homero era frequentemente citado nesses amuletos, bem como nos manuais conhecidos como "Formulários Greco-Egípcios". Esta descoberta vem confirmar esse conhecimento indireto com prova arqueológica direta.
Língua de ouro encontrada numa das múmias do mesmo túmulo — acreditava-se que permitia ao falecido comunicar com o deus Osíris no além. Crédito: Egyptian Ministry of Tourism and Antiquities.
Um encontro de civilizações
A descoberta reflete o sincretismo cultural do Egito sob domínio romano. Após a conquista de Alexandre Magno em 332 a.C., o grego tornou-se a língua da classe educada. Quando o Egito se tornou província romana em 30 a.C., os costumes funerários egípcios fundiram-se com as tradições gregas e romanas. Em vez de guardar os órgãos em vasos canópicos, os embalsamadores da era romana preferiam preencher a cavidade do corpo com materiais preservados.
A múmia em questão é de um homem adulto, não pertencente à realeza, e os estudos continuam em curso. "Não podemos excluir que outros textos literários possam também aparecer", disse Maite Mascort ao jornal catalão Ara. A equipa espera que investigações futuras revelem se este egípcio anónimo era um amante de Homero — ou se os embalsamadores tinham outros motivos para usar o poema épico, escrito cerca de 700 anos antes de Cristo, como guia para o além.
A missão recebe apoio do Ministério da Cultura espanhol, da Universidade de Barcelona, da Fundação Palarq, da Sociedade Catalã de Egiptologia e da AIXA Serveis Arqueològics, em cooperação com o Conselho Supremo de Antiguidades do Egito e a Universidade do Cairo.
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