Uma equipa de investigadores da Universidade de Coimbra descobriu um mecanismo biológico até agora desconhecido que permite bloquear a propagação da proteína tau tóxica nos neurónios — e esta descoberta valeu-lhe o Prémio Inovação Bluepharma | Universidade de Coimbra 2025. O projeto, liderado por Nuno Apóstolo, do Instituto Multidisciplinar do Envelhecimento (MIA-Portugal), abre caminho a uma nova classe de fármacos capazes de travar a progressão do Alzheimer e de outras doenças neurodegenerativas antes da morte dos neurónios.
Um travão natural contra a proteína tau
O grupo de investigação identificou que a proteína IgLon5 — uma molécula presente naturalmente no organismo — tem a capacidade de bloquear a internalização da proteína tau patológica pelas células nervosas. Nos doentes com Alzheimer e outras tauopatias, a tau forma agregados tóxicos que se propagam de neurónio para neurónio, espalhando a degenerescência por todo o cérebro.
"No laboratório e em resultados preliminares, nós conseguimos mostrar que nas células tratadas com IgLon5 existe uma diminuição da captação e da internalização da proteína tóxica de tau, por comparação a células que não foram tratadas com esta proteína", explicou Nuno Apóstolo na cerimónia de entrega do prémio, que decorreu na Sala do Senado da Reitoria da UC.
60 milhões de pessoas afetadas no mundo
As doenças neurodegenerativas afetam atualmente cerca de 60 milhões de pessoas em todo o mundo — 57 milhões segundo o Diário de Coimbra — e só na Europa representam um custo estimado de 130 mil milhões de euros por ano. O Alzheimer é a forma mais comum de demência, responsável por 60 a 80% dos casos, e não existe atualmente qualquer tratamento modificador da doença que impeça a sua progressão.
O Alzheimer e outras demências afetam 60 milhões de pessoas no mundo. A equipa da UC descobriu um mecanismo que pode travar a propagação da doença.
A estratégia terapêutica agora premiada visa aproximar a estrutura da IgLon5 e desenvolver moléculas que consigam potenciar esta função protetora, criando um "travão fisiológico" que bloqueie a entrada e propagação dos agregados tóxicos de tau no cérebro.
Prémio de 50 mil euros e parceria com a indústria
O projeto vencedor recebeu um prémio monetário de 20 mil euros, que poderá ser complementado com um investimento adicional de 30 mil euros para apoiar o desenvolvimento da tecnologia. A colaboração com a Bluepharma — farmacêutica portuguesa que celebra 25 anos — permitirá apoiar o desenvolvimento industrial e facilitar o percurso regulatório rumo a ensaios clínicos.
"A ideia é semear uma solução inovadora" e, a curto e longo prazo, conseguir ter impacto científico com a disseminação e publicação dos resultados, mas também ter impacto "na inovação clínica, de conseguir fazer a validação desta nova estratégia de tratamento", afirmou o investigador.
Equipa multidisciplinar e próxima edição do prémio
O projeto premiado pretende criar as bases para a futura transferência da tecnologia para a indústria farmacêutica e ensaios clínicos.
O projeto integra três equipas constituídas por Nuno Apóstolo e Luís Ribeiro (MIA-Portugal), Rui M. Brito (Centro de Química de Coimbra) e Irina Moreira (Centro de Neurociências e Biologia Celular da UC / PURR.AI). A cerimónia de entrega do prémio foi presidida pelo reitor da UC, Amílcar Falcão, e contou com a presença do CEO da Bluepharma, Sérgio Simões, e do presidente do júri, Fernando Seabra Santos.
Com periodicidade bienal, o Prémio Inovação Bluepharma | Universidade de Coimbra distingue projetos científicos de excelência na área das Ciências da Saúde com elevado potencial de transformação em produtos ou serviços inovadores, promovendo a transferência de conhecimento da academia para a indústria e, finalmente, para a sociedade.
Se conseguirmos encontrar alvos terapêuticos que permitam travar esse processo neurodegenerativo estamos a trabalhar na área do envelhecimento saudável. Este projeto reflete uma área emergente, que é a área cerebral e das patologias neurodegenerativas, para a qual não há muitas soluções ao dia de hoje.
— Amílcar Falcão, reitor da Universidade de Coimbra
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