🔬 Ciência

Planeta "fantasma" descoberto após 11 anos escondido nos dados — é o exoplaneta mais ténue já imageado da Terra

Astrónomos descobriram um planeta que andava a fazer "esconde-esconde" há mais de uma década — e só agora conseguiram dizê-lo: "encontrámos-te!" Batizado de Beta Pictoris d, o novo exoplaneta é 100 vezes mais ténue que o seu vizinho Beta Pictoris b, tornando-se o exoplaneta mais ténue alguma vez imageado diretamente da Terra.

A descoberta foi anunciada esta quarta-feira (15 de julho de 2026) pelo Observatório Europeu do Sul (ESO) e publicada na revista The Astrophysical Journal Letters. O planeta orbita a estrela Beta Pictoris, a 63 anos-luz de distância, na constelação austral de Pictor, e tem uma massa de 2,4 vezes a de Júpiter — o que o torna um dos exoplanetas mais leves alguma vez captados por imagem direta a partir do solo.

11 anos de esconde-esconde

A descoberta começou por acaso. A equipa liderada por Ben Sutlieff, da Universidade de Edimburgo (Reino Unido), e Markus Bonse, do ESO (Alemanha), estava a estudar o já conhecido Beta Pictoris b com o instrumento ERIS montado no Very Large Telescope (VLT), no Chile. Quando analisaram as imagens, algo não batia certo.

"Há qualquer coisa ali, viste?", recorda-se Markus Bonse de ter dito ao olhar para os dados. O que parecia um pontinho quase impercetível ao lado de Beta Pictoris b acabou por ser um novo planeta. Ao vasculharem o arquivo de observações do ESO, que remonta a 11 anos, os astrónomos encontraram Beta Pictoris d em múltiplas imagens antigas — incluindo uma onde mal se distinguia contra o brilho do seu vizinho maior.

O planeta d, parece, tem estado a jogar às escondidas connosco durante mais de uma década e só agora podemos dizer 'encontrámos-te!'

— Jayne Birkby, astrónoma da Universidade de Oxford

A situação tornou-se ainda mais invulgar quando uma segunda equipa, liderada por Aidan Gibbs, da Universidade da Califórnia em San Diego (EUA), anunciou ter descoberto o mesmo planeta de forma independente — usando o Telescópio Espacial James Webb (JWST) da NASA. Para evitar que uma investigação influenciasse a outra, os dois grupos mantiveram as descobertas em segredo até terminarem as análises. Ambos os estudos foram publicados em simultâneo.

O mais ténue de sempre

Beta Pictoris d é um gigante gasoso frio, composto maioritariamente por dióxido de carbono, com água e metano na sua atmosfera. Leva 91 anos a completar uma órbita em torno da sua estrela — mais do que os 84 anos de Urano no Sistema Solar. Enquanto os outros dois planetas do sistema (Beta Pictoris b e c) têm cada um cerca de 10 vezes a massa de Júpiter, o novo planeta tem apenas 2,4 massas jovianas, o que o torna consideravelmente mais pequeno e frio — e, por isso, extremamente difícil de detetar.

O imageamento direto de exoplanetas é uma técnica rara. Dos mais de 6.000 exoplanetas já confirmados, menos de 100 foram detetados por este método, que exige captar a luz do próprio planeta separada do brilho ofuscante da estrela-mãe. O sistema Beta Pictoris é agora apenas o segundo, a par do sistema HR 8799, onde mais de dois planetas foram imageados diretamente.

Conceito artístico do sistema Beta Pictoris, com os três planetas: Beta Pictoris d (direita), b e c (esquerda). Crédito: NASA, ESA, CSA, STScI, Ralf Crawford

Um sistema muito jovem

Ao contrário do Sistema Solar, que tem 4,5 mil milhões de anos, o sistema Beta Pictoris tem apenas cerca de 20 milhões de anos — é um bebé em termos cósmicos. Isto significa que planetas gigantes já se formaram, mas planetas rochosos mais pequenos ainda podem estar em processo de formação.

A descoberta de Beta Pictoris d também resolve um mistério no seu próprio sistema: o planeta tem exatamente a massa e a posição certas para explicar a forma peculiar do disco de detritos que rodeia a estrela, feito dos restos da formação planetária.

Sistemas com múltiplos exoplanetas imageados diretamente são os 'santos graais' das descobertas, porque podem ensinar-nos muito sobre como diferentes exoplanetas são no mesmo ambiente de formação.

— Ben Sutlieff, astrónomo da Universidade de Edimburgo

A descoberta abre caminho a novas observações com o futuro Extremely Large Telescope (ELT) do ESO, atualmente em construção no deserto do Atacama, no Chile, e que promete revelar ainda mais planetas escondidos em sistemas vizinhos.

Mapa celeste da constelação Pictor, com a localização de Beta Pictoris assinalada (círculo vermelho). A estrela está a 63 anos-luz da Terra. Crédito: ESO, IAU and Sky & Telescope

O estudo foi publicado no The Astrophysical Journal Letters (DOI: 10.3847/2041-8213/ae80a0), com mais de 90 autores de instituições de todo o mundo, incluindo Bélgica, França, Alemanha, Irlanda, Itália, Países Baixos, Suíça, Reino Unido e Chile.

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