A indústria automóvel europeia está a assistir a uma mudança histórica. A BYD, maior fabricante chinesa de veículos, vendeu 32.380 carros na Europa em maio de 2026 — 141% mais do que no mesmo mês de 2025 — ultrapassando a Citroën (31.665 unidades) pela primeira vez. As marcas chinesas no seu conjunto atingiram 10,7% de quota de mercado europeu, um novo recorde, e ultrapassaram as japonesas em vendas mensais também pela primeira vez. E tudo isto apesar das tarifas da União Europeia sobre veículos elétricos chineses, que chegam aos 45,3%.
Os números de maio: BYD 32.380, Citroën 31.665
Os dados da consultoria Dataforce, citados pelo InsideEVs, mostram que a BYD emplacou 32.380 veículos na Europa em maio, um crescimento de 141% face ao período homólogo. A Citroën registou 31.665 unidades, o que significa que a marca chinesa ultrapassou um dos nomes mais tradicionais da indústria europeia. O resultado permitiu ainda à BYD superar a SAIC Motor (controladora da MG) e assumir a liderança entre os fabricantes chineses no mercado europeu.
No total, as marcas chinesas — BYD, SAIC Motor, Zhejiang Geely, Chery Automobile e Leapmotor — registaram 121.030 emplacamentos na Europa em maio, praticamente o dobro do volume de um ano antes (+97%). A quota de mercado subiu para 10,7%, o valor mais alto de sempre.
BYD Seal U, o híbrido plug-in mais vendido na Europa no primeiro trimestre de 2026, com 21.494 unidades. Os PHEV estão a impulsionar o crescimento chinês por estarem isentos das tarifas adicionais da UE. Crédito: BYD
Chinesas batem japonesas pela primeira vez
Segundo dados da ACEA (Associação Europeia de Fabricantes de Automóveis) citados pelo Valor Económico e Nikkei Asia, as cinco montadoras chinesas monitorizadas venderam 138.410 unidades em maio nos 31 principais países europeus, um aumento de 65% face ao ano anterior. No mesmo período, as japonesas Toyota, Honda, Nissan, Suzuki, Mazda e Mitsubishi venderam 130.424 unidades, uma queda de 3%. As chinesas venderam 6% mais veículos do que as japonesas — um marco histórico.
Outras marcas chinesas também aceleraram fortemente: a Leapmotor cresceu 487%, a Chery 243% e a XPeng 138% face ao ano anterior. O crescimento é tão expressivo que a consultora AlixPartners projeta que as marcas chinesas podem alcançar 16% de participação no mercado europeu até 2030.
Tarifas de 45,3%? Os chineses contornam-nas
A União Europeia impôs tarifas sobre veículos elétricos fabricados na China no outono de 2024, adicionando taxas de até 35,3 pontos percentuais à tarifa base de 10%, elevando a alíquota máxima para 45,3%. A medida visava travar a entrada de carros chineses considerados "injustamente baratos" devido a subsídios estatais.
Mas a estratégia chinesa revelou-se mais matizada. Em vez de depender exclusivamente de elétricos a bateria (BEV), as marcas chinesas apostaram forte nos híbridos plug-in (PHEV), que não estão sujeitos às tarifas adicionais — e estão a colher resultados. O BYD Seal U é o híbrido plug-in mais vendido na Europa no primeiro trimestre de 2026, com 21.494 unidades, seguido pelo Jaecoo 7 com 17.434 unidades.
A BYD está a expandir agressivamente no exterior devido à desaceleração do mercado interno chinês. As vendas de carros novos da empresa para o primeiro semestre de 2026 totalizaram 1,8 milhão de unidades, uma queda de 16%. O mercado interno está a saturar e a guerra de preços é feroz.
Além dos híbridos, os fabricantes chineses estão a estabelecer produção dentro da Europa. A Chery montou a sua sede europeia em Barcelona e planeia fabricar localmente. A Leapmotor vai montar SUVs numa fábrica da Stellantis em Espanha. A BYD está a construir uma fábrica na Hungria e já produz na Turquia. Segundo a S&P Global, 44% dos carros chineses vendidos na Europa em 2035 já serão fabricados no continente ou na Turquia.
A BYD está a construir uma fábrica na Hungria para produção local de veículos elétricos, contornando as tarifas da UE. Crédito: Pexels
O contexto global: BYD vendeu 789 mil carros no exterior em meio ano
As vendas internacionais da BYD cresceram 70% no primeiro semestre de 2026, atingindo 789.367 veículos de passageiros. Só em junho, 44% das vendas da BYD no exterior foram de veículos de passageiros. O presidente da BYD, Wang Chuanfu, afirmou na assembleia anual de acionistas que as vendas no exterior em 2026 devem atingir 1,6 milhões de veículos — um salto de mais de 50% face aos 1,04 milhões de 2025.
E as europeias? Volkswagen lidera, mas a pressão aumenta
É importante contextualizar: apesar do marco, a BYD ainda está longe das líderes tradicionais. Em maio, a Volkswagen liderou o ranking europeu com 121.318 unidades, seguida pela Toyota (72.180), Skoda (71.591) e BMW (65.688). Mas a trajetória é clara — as marcas chinesas estão a ganhar terreno a um ritmo que preocupa a indústria europeia, e as tarifas, até agora, não foram suficientes para as travar.
Segundo a Xataka Brasil, 22% de todos os carros elétricos comprados na Europa entre janeiro e abril de 2026 foram fabricados na China. E esse número continua a subir.
💬 Comentários
Nenhum comentário ainda. Sê o primeiro a comentar!