Rota do cabo submarino Polar Connect através do Oceano Ártico, passando perto do Polo Norte
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Europa vai enterrar €1,5 mil milhões no gelo do Ártico para ligar internet à Ásia

A União Europeia está a apostar forte numa ideia que parecia ficção científica: um cabo de fibra ótica com €1,5 mil milhões de investimento que vai atravessar o Oceano Ártico, passar perto do Polo Norte e ligar a Escandinávia ao Japão. Chama-se Polar Connect, e a meta é tê-lo operacional até 2030.

Porquê agora?

Neste momento, cerca de 90% do tráfego de internet entre a Europa e a Ásia passa pelo Mar Vermelho e pelo Canal do Suez — um dos maiores estrangulamentos digitais do planeta. Ali, numa faixa estreita de mar entre o Iémen e o Djibouti, concentram-se 15 cabos submarinos críticos. E nos últimos anos, essa rota tornou-se tudo menos segura.

Em fevereiro de 2024, um míssil Houthi atingiu o navio-cargueiro Rubymar. A embarcação começou a afundar-se e, ao derivar, a âncora arrastou-se pelo fundo e cortou três cabos submarinos (AAE-1, SEACOM e EIG). Foram precisos 4 a 6 meses para reparar os estragos — porque nenhum navio de reparação se atrevia a entrar na zona de conflito.

Em setembro de 2025, a história repetiu-se: um navio comercial arrastou a âncora sobre quatro cabos perto de Jeddah (SMW4, IMEWE, FALCON), provocando picos de latência de 30% entre a Índia e a Europa. A Microsoft Azure confirmou perturbações nas rotas da Ásia para a Europa, e a Cloudflare registou atrasos generalizados.

A situação agravou-se em 2026 com o conflito entre os EUA e o Irão. O consórcio do 2Africa Pearls — extensão do maior cabo submarino do mundo, liderado pela Meta — viu-se forçado a declarar força maior. A Alcatel Submarine Networks (ASN), empresa francesa contratada para instalar o cabo, parou todas as operações no Golfo Pérsico. O navio cableiro Ile De Batz ficou retido no porto de Dammam, Arábia Saudita, à espera do fim da guerra.

A rota pelo gelo

O Polar Connect é a resposta a esta vulnerabilidade estratégica. O cabo vai sair da Escandinávia, passar a leste da Gronelândia, cruzar o Oceano Ártico junto ao Polo Norte e chegar ao Japão, com ramais possíveis para a América do Norte e a Coreia do Sul. É a rota mais curta entre a Europa e a Ásia — e, mais importante, não atravessa território controlado por governos hostis nem zonas de conflito.

Apresentação pública do projeto Polar Connect, com mapa da rota ártica e ilustração de cabo submarino no ecrã

O Polar Connect foi apresentado publicamente em 2025 como um projeto financiado pela União Europeia. O mapa mostra a rota proposta através do Oceano Ártico, a leste da Gronelândia.

O projeto é liderado por um consórcio de entidades públicas nórdicas: a NORDUnet (rede de investigação nórdica) e as agências nacionais da Suécia (Sunet), Finlândia (CSC), Noruega (Sikt), Dinamarca (DeiC) e Islândia (RHnet), com o apoio do Secretariado Sueco de Investigação Polar. A UE já atribuiu mais de €10 milhões em estudos preparatórios através do programa CEF Digital, incluindo €4,97 milhões para a fase de mapeamento do fundo do mar (Polar Connect Step 2).

O custo total estimado do Polar Connect situa-se entre €1,2 e €1,5 mil milhões, segundo um artigo académico publicado no The Polar Journal (Taylor & Francis, janeiro de 2026). A instalação propriamente dita — 80 dias durante o verão ártico, quando o gelo recua — poderá custar entre $142 e $237 milhões, mas o valor final dependerá de condições que ninguém consegue prever com certeza.

O gelo não perdoa

Se a motivação geopolítica é forte, os desafios técnicos são igualmente assustadores. O maior problema são os icebergues e o gelo marinho, que podem raspar o fundo onde os cabos assentam. Não existem navios cableiros com capacidade quebra-gelo — seria preciso construí-los de raiz, ou usar duas embarcações em simultâneo.

Equipa da Polar Connect Initiative em reunião de trabalho

A Polar Connect Initiative é liderada por um consórcio de entidades de investigação nórdicas, apoiado pela Comissão Europeia através do programa CEF Digital.

O caso da Quintillion, no Alasca, serve de aviso. A empresa tentou ligar a Europa à Ásia através do Alasca e o cabo partiu em duas ocasiões devido ao gelo marítimo. A primeira vez foi em junho de 2023 — a empresa teve de esperar que o gelo derretesse para fazer a reparação. A segunda foi em janeiro de 2025, e a equipa de reparação esperou oito meses até conseguir aceder à zona afetada.

A própria Polar Connect Initiative reconhece o risco num relatório do Secretariado Sueco de Investigação Polar: «O que parece possível num ano pode ser totalmente impossível no seguinte. A natureza manda nesta parte do mundo.»

Uma corrida às alternativas

O Polar Connect não está sozinho. A Meta anunciou o Project Waterworth, um cabo de 50.000 km que vai contornar o Médio Oriente ligando os EUA, a Índia, a África do Sul e o Brasil — mas esse projeto está a anos de distância. E a China, entretanto, já testou com sucesso um cortador de cabos submarinos a 3.500 metros de profundidade (abril de 2026), num ensaio que o China Science Daily descreveu como «a ponte para a aplicação real» do equipamento.

O Polar Connect tem também uma componente científica: o cabo será equipado com sensores ambientais (tecnologia SMART) para monitorizar a temperatura do oceano, a atividade sísmica e as alterações climáticas no Ártico. E 10% da sua capacidade ficará reservada para investigação e educação europeias.

O projeto realiza este verão o mapeamento do fundo do mar no Oceano Ártico e promete um workshop técnico em agosto de 2026. Se tudo correr dentro do plano, a primeira fibra ótica a cruzar o topo do mundo estará operacional dentro de quatro anos.

Até lá, 90% dos dados entre a Europa e a Ásia continuam a passar por um dos pontos mais instáveis do planeta — um fio de 15 cabos no fundo do Mar Vermelho, à mercê de mísseis, âncoras e guerras que ninguém controla.

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