O robô CHARMIE, desenvolvido do zero pelo Laboratório de Automação e Robótica (LAR) da Escola de Engenharia da Universidade do Minho, conquistou o segundo lugar na RoboCup@Home 2026 — a competição mais exigente do mundo para robôs de serviço doméstico. Construído integralmente em Guimarães com hardware, mecânica, eletrónica e software de inteligência artificial próprios, o CHARMIE derrotou equipas com orçamentos milionários e robôs comerciais.
Vice-campeão entre 24 equipas mundiais
A RoboCup 2026 decorreu em Incheon, na Coreia do Sul, reunindo mais de 3.000 investigadores, estudantes e profissionais de dezenas de países. Na categoria RoboCup@Home — dedicada a robôs de assistência e serviço capazes de apoiar pessoas em ambientes domésticos e hospitalares — o CHARMIE enfrentou as 24 melhores equipas do mundo numa semana de provas excessivamente exigentes.
Apenas seis equipas chegaram à final. Do outro lado estavam representantes da Alemanha, Coreia do Sul, Japão e Tailândia — países com décadas de investimento em robótica. O robô da UMinho manteve-se consistentemente entre o primeiro e o terceiro lugar ao longo de todas as provas, garantindo o vice-campeonato mundial.
Um robô feito em Portugal, do zero
O coordenador da equipa, professor Fernando Ribeiro, destacou o contraste entre os recursos da equipa minhota e os das rivais: a maioria das equipas de topo compete há vários anos, dispõe de orçamentos elevados, recorre a plataformas robóticas comerciais e leva robôs suplentes — permitindo-lhes trabalhar em paralelo. O CHARMIE é, pelo contrário, uma plataforma concebida do zero no LAR, resultado de muitas horas de investigação, desenvolvimento e testes de uma equipa que nunca deixou de acreditar que era possível competir ao mais alto nível. Por essa razão, a equipa portuguesa foi muito felicitada pelas restantes seleções ao longo do dia da final.
Projetado para auxiliar idosos e pessoas com mobilidade reduzida, o CHARMIE é um robô móvel autónomo equipado com um braço manipulador, sensores LiDAR, câmaras de profundidade e sistemas avançados de interação. Consegue comunicar em inglês, transportar objetos, apanhar itens do chão, preparar pequenos-almoços simples, regar plantas, retirar roupa da máquina de lavar, fazer limpeza doméstica e atender à mesa num cenário de restaurante — tudo em interação direta com os avaliadores.
Um contratempo de última hora não travou o CHARMIE
Nos momentos que antecederam a final, a equipa enfrentou um contratempo que podia ter comprometido tudo: um curto-circuito no hub USB obrigou à substituição da câmara instalada no braço do robô poucos minutos antes da competição. Ainda assim, o CHARMIE entrou em prova sem comprometer o desempenho, demonstrando a robustez do hardware e a capacidade de reação da equipa.
Após a realização das seis provas da final, seguiu-se um período de espera pela validação das classificações por parte do júri. A confirmação do segundo lugar foi recebida com enorme emoção pela equipa minhota, que viu reconhecidos anos de trabalho. A cerimónia de entrega de prémios marcou o momento alto, com a equipa portuguesa a subir ao pódio para receber o troféu perante centenas de participantes de todo o mundo.
25 anos de RoboCup na UMinho
A Universidade do Minho participa na RoboCup desde 1999, com presença constante de estudantes ao longo dos anos e várias distinções acumuladas. A instituição já passou por diferentes categorias — do futebol robótico na 'Middle Size League' ao futebol robótico humanoide — tendo integrado a categoria RoboCup@Home desde 2023.
O professor Fernando Ribeiro foi também distinguido pela Federação Internacional RoboCup com um diploma de reconhecimento pela sua dedicação à iniciativa. Ribeiro já desempenhou os cargos de vice-presidente (2018-2022) e trustee da organização (2014-2024), sublinhando o peso de Portugal na governança mundial da robótica.
O que é a RoboCup@Home?
A RoboCup@Home é a liga mais prestigiada da RoboCup focada em robôs de serviço e assistência. Avalia a capacidade dos robôs para realizar tarefas do quotidiano em contexto doméstico, exigindo interação direta com pessoas, reconhecimento de objetos, navegação autónoma, manipulação e tomada de decisão em ambientes não estruturados. As provas incluíram interação humano-robô, recolha e colocação de objetos, serviço geral, lavagem de roupa, atendimento em restaurante e limpeza doméstica.
Para além da componente competitiva, a RoboCup afirma-se como um espaço de partilha científica, promovendo o intercâmbio de conhecimento entre universidades e centros de investigação internacionais, através da discussão de novas soluções, algoritmos e futuras colaborações na área da robótica autónoma.
Este resultado coloca Portugal entre a elite mundial da robótica de serviço e representa um dos maiores feitos de sempre do Laboratório de Automação e Robótica da Universidade do Minho — provando que, com talento e dedicação, é possível competir ao mais alto nível global, mesmo contra orçamentos incomparavelmente superiores.
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