Eram nove da noite na Florida quando o céu da Space Coast se incendiou. O New Glenn — 98 metros de altura, sete motores BE-4 a metano, a grande aposta de Jeff Bezos para fazer frente à SpaceX — estava na plataforma 36A de Cabo Canaveral para um teste de rotina. Os motores acenderam. Segundos depois, o foguetão inteiro se desfez numa bola de fogo que iluminou o Atlântico, fez tremer as casas no condado de Brevard e deixou um rasto de metal retorcido que ainda ardia no dia seguinte. Ninguém morreu. Mas a Lua, essa, ficou mais longe.
A Ars Technica descreveu-a como «a explosão de foguetão mais espetacular desde o N1 soviético em 1969». E a comparação não é exagerada. O New Glenn estava totalmente abastecido — metano líquido e oxigénio líquido — quando o motor central (segundo as primeiras indicações) falhou e desencadeou uma deflagração em cadeia. A torre de proteção contra raios, com dezenas de metros de altura, deixou de existir. O transportador-eretor, a estrutura que levanta o foguetão na vertical, ficou danificado para além do recuperável. A plataforma 36A, na qual a Blue Origin investiu mil milhões de dólares desde 2016, está fora de serviço por um mínimo de 15 meses.
O que aconteceu exatamente
O teste era um static-fire — um ensaio pré-lançamento em que os motores são acesos enquanto o foguetão está preso à plataforma. O objetivo era validar tudo para a missão NG-4, que tinha lançamento previsto para 4 de junho. Os satélites Amazon Leo que iriam a bordo estavam em segurança num hangar próximo — o teste era só com o foguetão.
A sequência, segundo o que se sabe até agora: os sete motores BE-4 acenderam → uma anomalia no motor central → falha catastrófica na base do first stage → deflagração do metano e oxigénio líquidos → bola de fogo. A Blue Origin confirmou o acidente às 21h05: «Experienciámos uma anomalia durante o teste hotfire de hoje. Todo o pessoal está a salvo.» Jeff Bezos, 15 minutos depois: «Dia muito difícil, mas vamos reconstruir o que for preciso e voltar a voar. Vale a pena.»
It's too early to know the root cause but we're already working to find it. Very rough day, but we'll rebuild whatever needs rebuilding and get back to flying. It's worth it.
— Jeff Bezos, no X, 28 de maio de 2026
O New Glenn na plataforma LC-36A, em Cabo Canaveral. Sete motores BE-4 a metano, 98 metros de altura. A Blue Origin investiu mil milhões de dólares nesta infraestrutura. Foto: Ars Technica
A Lua ficou mesmo mais longe
A explosão de um foguetão na plataforma é má. Mas o que torna esta explosão catastrófica é o que o New Glenn transportava — ou melhor, o que devia transportar nos próximos meses.
A Blue Origin tem um contrato com a NASA para levar carga à Lua. O Blue Moon Mark 1, um módulo lunar não-tripulado, estava previsto para este outono — a missão Moon Base 1. Dois dias antes da explosão, a 26 de maio, a NASA tinha acabado de atribuir 280,4 milhões de dólares à Blue Origin para levar dois rovers à superfície lunar em 2028. Tudo dependia do New Glenn.
O Artemis III (2027), a missão que devia testar a acoplagem de módulos lunares em órbita terrestre, contava com o Blue Moon Mark 2 da Blue Origin. O Artemis IV (2028), o regresso de astronautas americanos à superfície da Lua, tinha o Mark 2 como opção principal. Tudo isto está agora em espera — «não é realista imaginar um módulo lunar tripulado pronto em qualquer momento de 2028», escreveu Eric Berger na Ars Technica.
Se não consegues lançar foguetões New Glenn, então sim, vai ser muito difícil entregar o módulo lunar e a outra infraestrutura de que a Blue Origin é uma parte crítica para o Artemis.
— Greg Autry, professor da University of Central Florida, ao Florida Today
O céu da Space Coast iluminou-se a laranja na noite de 28 de maio. Residentes de Brevard County relataram janelas a tremer e um estrondo que se ouviu a quilómetros de distância. Foto: Palm Beach Post
E agora, Bezos contra Musk — mas sem foguetão
A ironia é amarga. Menos de 12 horas depois da explosão, um Falcon 9 da SpaceX descolou da plataforma LC-40 — a 10 quilómetros de distância — sem problemas. «Menos de 12 horas depois, na mesma base onde tivemos uma anomalia, tivemos um lançamento», disse o Coronel Brian Chatman, comandante da Space Launch Delta 45, com um orgulho que não escondia o contraste.
Elon Musk, questionado no X, respondeu com cinco palavras: «Most unfortunate. Rockets are hard.» O administrador da NASA, Jared Isaacman, foi mais diplomático: «O voo espacial é implacável, e desenvolver nova capacidade de lançamento pesado é extraordinariamente difícil. Vamos trabalhar com os nossos parceiros para apoiar uma investigação completa.»
O resultado prático é que os Estados Unidos ficam, mais uma vez, totalmente dependentes da SpaceX para lançamentos médios e pesados. O Vulcan Centaur da ULA, que usa os mesmos motores BE-4, já estava parado por uma anomalia separada. Se a causa raiz da explosão for um defeito de design do BE-4 — e não um erro de procedimento — o problema alastra-se à ULA e o monopólio da SpaceX solidifica-se por anos.
O que se perdeu (além do foguetão)
A fatura desta explosão lê-se em várias colunas.
Primeiro, a plataforma. Reconstruir o LC-36A ou terminar o LC-36B (que estava em construção) vai demorar, na melhor das hipóteses, 15 meses. O New Glenn não voa em 2026. Um lançamento no primeiro semestre de 2027 seria «heroico», nas palavras da Ars Technica.
Segundo, a Amazon. Jeff Bezos é dono da Blue Origin — e da Amazon. A constelação Amazon Leo, 3.200 satélites de banda larga, tem 24 lançamentos contratados com o New Glenn. Cada mês de atraso é um mês em que a SpaceX continua a dominar a internet via satélite.
Terceiro, o ecossistema. A AST SpaceMobile perdeu um satélite na missão NG-3 (abril de 2026) e dependia do New Glenn para o próximo. As ações caíram. A Rocket Lab também recuou em bolsa. O Washington Post resumiu: «Explosão massiva do foguetão da Blue Origin dá vantagem a Elon Musk na corrida espacial.»
Há uma fotografia que correu a internet no dia a seguir. Mostra os destroços do New Glenn ao amanhecer — metal negro, retorcido, ainda a fumegar. A estrutura que era um dos foguetões mais avançados do planeta estava reduzida a sucata. Mas a fotografia mais reveladora é outra: o Falcon 9 da SpaceX a subir ao céu, 12 horas depois, no mesmo complexo de lançamento, como se nada tivesse acontecido.
Bezos prometeu reconstruir. Tem dinheiro para isso — dezenas de mil milhões. Mas dinheiro não compra tempo. E o tempo, neste caso, é o que separa os Estados Unidos da Lua.
Feito por humanos — Filipe Guerra
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