Ilustração de neurónios — cientistas descobriram um grupo de neurónios no tronco cerebral que atua como filtro de atenção. Crédito: Shutterstock/ScienceDaily
🔬 Ciência

Cientistas descobrem neurónios ancestrais que funcionam como «filtro de foco» cerebral — e podem explicar a PHDA

Já lhe aconteceu estar a tentar concentrar-se e qualquer ruído ao lado o distrai por completo? Para a maioria das pessoas, o cérebro tem um mecanismo natural que filtra o que não interessa e mantém o foco no que é importante. Mas esse mecanismo nem sempre funciona bem — e os cientistas podem ter descoberto porquê.

Uma equipa de neurocientistas da Johns Hopkins University, nos Estados Unidos, identificou um conjunto de neurónios localizados no tronco cerebral (brainstem) — uma região evolutivamente muito antiga — que funciona como um verdadeiro «motor de seleção atencional». A descoberta foi publicada esta semana na revista Nature Communications.

Uma marca da PHDA é que mesmo distrações muito fracas desviam a atenção — e é exatamente o que vemos quando estes neurónios são silenciados. Mas no dia seguinte, quando os neurónios são reativados, o mesmo animal consegue ignorar distrações novamente, mesmo as mais fortes.

— Shreesh Mysore, Johns Hopkins University

Uma região ancestral do cérebro

Durante décadas, acreditou-se que a atenção era controlada principalmente pelo córtex pré-frontal, uma região especialmente desenvolvida em humanos e primatas. Mas esta teoria deixava uma pergunta por responder: como é que animais sem um córtex pré-frontal desenvolvido — como aves e peixes — também conseguem concentrar-se?

«Se recuarmos na evolução, durante centenas de milhões de anos, as aves sempre tiveram esta capacidade, os peixes sempre tiveram esta capacidade. E não têm um córtex pré-frontal desenvolvido», disse Ninad Kothari, primeiro autor do estudo. «Conseguimos identificar uma região evolutivamente antiga no tronco cerebral que confere esta capacidade.»

A experiência: ligar e desligar o foco

Para testar o papel destes neurónios, a equipa desenhou uma tarefa de atenção semelhante às usadas em estudos com humanos. Os ratinhos viam estímulos visuais num ecrã e eram recompensados quando respondiam corretamente à informação apresentada à sua frente, ignorando distrações laterais.

Os ratinhos executavam a tarefa com sucesso — até os investigadores desligarem temporariamente os neurónios do tronco cerebral. Instantaneamente, os animais tornavam-se hiper-distraíveis, falhando a tarefa sempre que surgia um estímulo concorrente. Testes adicionais descartaram problemas de visão ou motricidade — os ratinhos perdiam apenas a capacidade de comparar informação concorrente e focar-se no que era relevante.

«A única coisa afetada era a capacidade de pegar em peças de informação concorrentes, compará-las e prestar atenção à localização com a informação mais importante», explicou Mysore. «Esta parte do cérebro é como um motor de seleção atencional.»

Implicações para a PHDA e autismo

A PHDA (Perturbação de Hiperatividade com Défice de Atenção) afeta cerca de 5% das crianças e 2,5% dos adultos em todo o mundo — números semelhantes em Portugal, onde se estima que dezenas de milhares de pessoas vivam com a condição, muitas sem diagnóstico.

Todos os indícios sugerem que estes neurónios existem também no cérebro humano. Mysore e a sua equipa querem agora perceber se funcionam da mesma forma em humanos e se podem estar comprometidos em pessoas com PHDA e autismo.

Todas as evidências até à data sugerem que estes neurónios existem em humanos também. Mas serão eles responsáveis pela atenção seletiva espacial em humanos? Uma hipótese entusiasmante é que sim, que desempenham um papel crucial.

— Shreesh Mysore, Johns Hopkins University

Se futuros estudos confirmarem que as células funcionam de forma diferente em pessoas com PHDA, a descoberta poderá orientar o desenvolvimento de medicações e terapias mais direcionadas — em vez de abordagens generalizadas como as atuais.

O contexto Português

Portugal tem investido em neurociência de ponta, com centros como a Champalimaud Foundation (Lisboa) e o Centro de Neurociências de Coimbra (CNC-UC) a produzirem investigação de nível internacional no estudo dos circuitos neuronais e da atenção. Embora este estudo específico seja americano, ele sublinha a importância de compreender os mecanismos básicos do cérebro — ciência fundamental que depois se traduz em melhores tratamentos para milhões de pessoas, incluindo os Portugueses que vivem com PHDA.

Numa altura em que o mundo digital nos bombardeia com distrações constantes — notificações, anúncios, multitasking —, perceber como o cérebro decide o que merece atenção nunca foi tão urgente. Esta descoberta não explica apenas como focamos: explica como falhamos a focar. E esse conhecimento, para quem vive com PHDA, pode fazer toda a diferença.

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