Primeiro edifício público impresso em 3D em Portugal — Ecocentro de Perafita, Matosinhos, construído pela Havelar em cinco dias. Crédito: Havelar/Viva Porto
📰 Geral

Primeira casa e primeiro edifício público impressos em 3D em Portugal — Havelar quer revolucionar a construção civil

Construir um edifício de 600 metros quadrados em cinco dias. Sem tijolos, sem cimento tradicional, sem o ruído e o pó de uma obra convencional. Isto não é ficção científica — é o que a startup Portuguesa Havelar já está a fazer.

Fundada em 2023 em Vila do Conde por José Maria Ferreira, a Havelar (junção do inglês «have» com o Português «lar») nasceu da experiência do seu fundador no setor das fachadas leves. Identificou constrangimentos recorrentes na construção tradicional — prazos apertados, materiais expostos precocemente, desperdício elevado — e decidiu encontrar uma alternativa. Depois de várias experiências, a resposta tornou-se clara: a impressão 3D de grande escala.

A primeira casa impressa em 3D em Portugal

Em menos de dois anos, a Havelar imprimiu a primeira habitação em 3D em Portugal: uma moradia de 90 metros quadrados, com dois quartos, concluída em menos de um mês — uma fração do tempo que uma construção tradicional levaria. A técnica permite produzir 45 metros quadrados de paredes impressas em apenas 20 horas, com uma redução de desperdício de materiais e uma pegada carbónica significativamente menor.

Depois de várias experiências concluímos que a solução mais viável era a impressão em 3D. Esta tecnologia permite reduzir desperdício, otimizar recursos e diminuir a dependência de mão de obra intensiva.

— José Maria Ferreira, fundador e CEO da Havelar
Havelar — startup Portuguesa de impressão 3D na construção civil. Crédito: AICEP Portugal Global

O primeiro edifício público impresso em 3D

O grande marco chegou em maio de 2026. Em Perafita, Matosinhos, foi inaugurado o primeiro edifício público construído em Portugal com recurso a impressão 3D. A estrutura, com 600 metros quadrados, foi erguida em cinco dias pela Havelar, com um investimento de 800 mil euros financiado pelo PRR (Componente C03 — Respostas Sociais).

O edifício acolhe o projeto «Recircular Lab», um laboratório dedicado à prevenção e reutilização de resíduos — desde eletrónica e mobiliário a roupa e outros materiais —, antes da sua entrega a famílias carenciadas e instituições do concelho. Além do betão, a construção incorpora materiais como terra e argila, contribuindo para soluções mais sustentáveis.

O projeto de arquitetura e o acompanhamento científico estiveram a cargo da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP), que está também a avaliar o comportamento técnico do edifício ao longo do tempo. O novo espaço tem uma forte vertente social: promove a integração profissional de pessoas com incapacidade e em situação de vulnerabilidade, com workshops de costura, carpintaria e aproveitamento de desperdícios alimentares.

O que a impressão 3D muda na construção

A impressão 3D de grande escala oferece várias vantagens face à construção tradicional: prazos até 50% mais curtos, redução de desperdício de materiais, menor dependência de mão de obra intensiva (num setor marcado pela escassez de profissionais qualificados) e a possibilidade de construir in situ com maior previsibilidade e controlo logístico.

Segundo a SIC Notícias, a técnica promete tirar um terço do preço final de uma casa equivalente — um fator crítico num país onde o acesso à habitação é um dos maiores problemas sociais. Com a capacidade de produzir 45 m² de paredes em 20 horas, uma moradia de 90 m² pode ter as paredes impressas em menos de dois dias de trabalho.

Esta tecnologia permite-nos produzir até 45 metros quadrados de paredes em apenas 20 horas. Estamos a embarcar numa missão para redefinir os espaços de habitação em Portugal.

— Simi Launay, Chief Creative Officer da Litehaus (parceira Havelar)

O futuro: Gaia e a expansão

A Havelar não pára. O próximo projeto está já previsto para Vila Nova de Gaia, com lançamento em setembro de 2026, onde será apresentado um conceito inovador de moradias construídas através de impressão 3D. A empresa consolida assim uma estratégia que combina eficiência produtiva, sustentabilidade e ambição internacional.

Numa altura em que a construção civil enfrenta uma crise de mão de obra e a habitação em Portugal atinge preços recorde, a impressão 3D afirma-se como uma alternativa viável — mais rápida, mais barata e mais sustentável. A Havelar, com os seus dois marcos já concretizados (a primeira casa e o primeiro edifício público), coloca Portugal na rota de uma tecnologia que promete mudar a forma como construímos.

💬 Comentários

Nenhum comentário ainda. Sê o primeiro a comentar!