Lupa sobre gotas de água a simbolizar a contaminação por PFAS, os «químicos eternos»
🔬 Ciência

Cientistas encontram fraqueza oculta nos «químicos eternos»

Os PFAS, conhecidos como «químicos eternos» por resistirem mais de mil anos no ambiente, podem afinal ter um calcanhar de Aquiles. Uma equipa da Universidade de Aarhus, na Dinamarca, descobriu que radicais de hidrogénio gerados por luz ultravioleta intensa conseguem quebrar as moléculas destes compostos — sem precisar de químicos adicionais. A descoberta abre caminho a tecnologias que os destruam de vez, em vez de apenas os transferirem de sítio.

O que são os químicos eternos?

PFAS (per- e polifluoroalquilados) são uma família de mais de 10 mil compostos sintéticos usados desde a década de 1940 em produtos do dia-a-dia: frigideiras antiaderentes, embalagens de alimentos, vestuário impermeável, espumas de combate a incêndios, cosméticos e pesticidas. O que os torna tão úteis é também o que os torna um pesadelo ambiental: a ligação carbono-flúor é uma das mais fortes da química orgânica.

«Sabemos que os PFAS são extremamente estáveis por causa das fortes ligações carbono-flúor, e partir essas ligações é o principal desafio», explica o professor associado Zongsu Wei, que liderou o estudo. «Ao identificarmos os radicais de hidrogénio como o motor dominante, temos agora uma direção mais clara para desenhar tecnologias mais eficientes e sustentáveis que realmente destruam estes químicos, em vez de apenas os removerem.»

Equipamento de laboratório usado na análise de contaminantes como os PFAS

Equipamento de laboratório usado na análise de contaminantes como os PFAS. A nova técnica usa apenas luz UV e água para quebrar as moléculas.

Como funciona a descoberta

A equipa descobriu que quando a água é exposta a luz ultravioleta de alta energia (comprimentos de onda abaixo dos 300 nanómetros), formam-se radicais de hidrogénio — partículas altamente reativas. Estes radicais atacam as moléculas de PFAS, removendo gradualmente os átomos de flúor e partindo os compostos em fragmentos mais pequenos e menos persistentes.

Estudos anteriores focavam-se noutras espécies reativas como os principais agentes de degradação. A nova investigação, publicada na revista Environmental Science & Technology (DOI: 10.1021/acs.est.5c16178), mostra que o verdadeiro protagonista são os radicais de hidrogénio.

Hoje, muitas tecnologias conseguem filtrar PFAS da água, mas não os eliminam. O verdadeiro objetivo é a degradação: partir as moléculas por completo. Compreender o mecanismo é essencial para lá chegarmos de forma verde e escalável.

— Zongsu Wei
Cientista a trabalhar em laboratório

Os radicais de hidrogénio, gerados a partir de água e luz UV, atacam as ligações carbono-flúor dos PFAS e quebram-nas progressivamente.

Portugal na linha da frente

Portugal não escapa ao problema. O Forever Pollution Project, um consórcio jornalístico europeu, identificou 10 locais com contaminação comprovada por PFAS em território nacional. O caso mais grave é Muge, em Salvaterra de Magos, que atingiu 3200 nanogramas por litro (ng/l) — centenas de vezes acima do limiar de alerta.

Para além destes, há nove locais de contaminação presumida no Algarve, incluindo as ETAR de Lagos, Portimão, Albufeira, Faro e Vila Real de Santo António, além dos aeroportos de Portimão e Faro. Estudos académicos detetaram PFAS nas bacias dos rios Ave, Leça, Antuã e Cértima.

Europa aperta o cerco

Desde 12 de janeiro de 2026, todos os Estados-Membros da UE são obrigados a monitorizar PFAS na água potável. França já proibiu a produção e venda de produtos com PFAS onde existem alternativas. A Agência Europeia dos Produtos Químicos (ECHA) prepara um parecer final sobre uma restrição universal aos PFAS até ao final de 2026.

Sinalização de área contaminada junto a um aquífero

A nova técnica UV pode vir a ser instalada em estações de tratamento para destruir PFAS em vez de apenas os filtrar.

Para os leitores Portugueses

Com aquíferos costeiros vulneráveis, uma costa extensa e rios que atravessam zonas industriais históricas (Estarreja, Ave, Leça), Portugal está na primeira fila dos países que mais podem beneficiar de uma tecnologia que destrua PFAS de forma limpa e acessível. Para um país onde o turismo, a agricultura de regadio e a qualidade da água são prioridades nacionais, a diferença entre «remover» e «destruir» é tudo menos académica.

Feito por humanos — Portugal Binário

Fonte: Universidade de Aarhus · ScienceDaily · 16 JUN 2026

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