O sistema de posicionamento global (GPS) tornou-se um campo de batalha. O que durante décadas foi uma tática reservada a operações militares — interferir nos sinais de navegação por satélite para cegar ou enganar o inimigo — está hoje a atingir a aviação civil, o transporte marítimo e as infraestruturas críticas. E os números são impressionantes: só no Mar Báltico, o número de voos afetados por interferências GPS saltou de 17.243 em 2024 para 59.447 em 2025, um crescimento de 245%.
O caso mais mediático ocorreu em agosto de 2025, quando o avião da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, foi forçado a aterrar em Plovdiv, na Bulgária, guiado exclusivamente por mapas de papel — porque todo o GPS da região do aeroporto tinha sido desligado por interferência russa. O incidente, confirmado pela própria Comissão Europeia e reportado pelo Financial Times, foi atribuído a Moscovo e gerou uma vaga de sanções coordenadas entre a UE e o Reino Unido.
Jamming e spoofing: duas formas de atacar o GPS
Os ataques a sistemas de navegação por satélite dividem-se em duas categorias principais, ambas documentadas no relatório CISO Predictions 2026 da Fortinet.
O jamming (ou bloqueio) consiste em emitir um sinal de rádio mais forte na mesma frequência do GPS, sobrepondo-se ao sinal legítimo que vem dos satélites a 20.000 quilómetros de altitude. O recetor deixa de receber dados porque o ruído ambiente anula a comunicação. É como estar a tentar falar ao lado de alguém a gritar. Foi esta a técnica usada contra o avião de von der Leyen.
O spoofing (ou falsificação) é mais sofisticado e perigoso: em vez de bloquear o sinal, o atacante transmite sinais GPS falsos que enganam o recetor, fazendo-o acreditar que está numa posição diferente. Segundo o relatório da Fortinet, esta técnica pode "degradar ou desativar munições, desviar drones e mísseis, levar aviões a entrar em território inimigo e impedir aterragens". Como os sinais dos satélites chegam à superfície extremamente enfraquecidos, um transmissor em solo pode facilmente sobrepor-se a eles.
59.447 voos afetados no Báltico — e a escalada continua
Os dados fornecidos à BBC pela consultora SkAI Data Services são esclarecedores. Em 2024, registaram-se 17.243 ocorrências de interferência GPS na região do Mar Báltico. Em 2025, o número disparou para 59.447. O crescimento coincide com a intensificação do uso de drones e guerra eletrónica no conflito Rússia-Ucrânia.
A situação agravou-se ainda mais em 2026. Em março, 5.381 voos comerciais em todo o mundo transmitiram posições incorretas devido a spoofing, contra apenas 99 em fevereiro e 14 em janeiro — um aumento de 5.300% num mês, impulsionado pelo conflito no Golfo Pérsico entre os EUA, Israel e o Irão, que começou a 28 de fevereiro de 2026.
As regiões mais afetadas são o Mar Báltico (especialmente junto às fronteiras da Rússia e Bielorrússia), o Golfo Pérsico, o Mar Vermelho, e áreas da Índia, Paquistão e Mianmar. Na Estonia, 85% dos voos já foram afetados. Em Lituânia, registaram-se mais de 1.000 casos em junho de 2025 — 22 vezes mais do que no ano anterior. Na Polónia, foram 2.732 incidentes só em janeiro de 2025.
Kaliningrado: o centro de guerra eletrónica russo
O epicentro das interferências no Báltico é Kaliningrado, o enclave russo entre a Polónia e a Lituânia. Ali, a Rússia mantém uma base militar equipada com tecnologia de guerra eletrónica de última geração, incluindo o sistema Tobol — uma rede de vigilância, defesa e ataque eletromagnético capaz de interferir comunicações por satélite, redes GSM e GPS num raio de centenas de quilómetros.
Os ataques mais conhecidos para bloquear uma sinal de GPS são as ações de jamming ou spoofing. A primeira consiste em emitir uma sinal de rádio de forma que se sobreponha à sinal que nos chega dos satélites a 20.000 quilómetros, que por geral são mais débeis. O spoofing, mais perigoso, tenta suplantar os sinais legítimos dos satélites GNSS, podendo oferecer dados de posicionamento falsos à aeronave.
— David Marugán, especialista em segurança e radiocomunicações, ao El Confidencial
Mapa-mundo com milhares de pins a assinalar zonas de interferência GPS — o Mar Báltico, o Golfo Pérsico e o Mar Vermelho são as regiões mais afetadas por spoofing e jamming em 2025-2026. Foto: Markus Spiske / Unsplash
A Rússia dispõe ainda de sistemas portáteis como o R-330Zh Zhitel, um camião com tecnologia de interferência que se desdobra em 40 minutos e consegue bloquear GPS, comunicações por satélite e redes móveis num raio de 30 quilómetros, com autonomia para 1.600 horas de operação contínua.
Não são só os aviões: navios, exércitos e infraestruturas
O risco de interferência GPS não se limita à aviação. Segundo a Fortinet, os setores mais expostos são as companhias aéreas, o transporte marítimo e os fabricantes de defesa. Navios mercantes no Báltico e no Mar Negro têm reportado perda de sinal GPS, e há casos documentados de embarcações a navegar à deriva porque os sistemas de navegação ficaram cegos.
Em 2024, o então secretário de Defesa britânico, Grant Shapps, também viu o seu avião sofrer interferências GPS ao sobrevoar o enclave de Kaliningrado. Em junho de 2026, um avião da Força Aérea Real (RAF) que transportava o secretário de Defesa John Healey sobrevoava a Estónia quando o transponder passou a indicar que a aeronave estava em território russo, a 300 quilómetros da sua posição real.
€300 mil milhões em perdas — o preço da ciberinsegurança na Europa
Os ciberataques em geral — incluindo mas não limitados a GPS spoofing — custaram às quatro maiores economias europeias (França, Alemanha, Itália e Espanha) aproximadamente €300 mil milhões nos últimos cinco anos, segundo o grupo segurador global Howden. O relatório, divulgado em setembro de 2025, estima que 49% das empresas nestes países sofreram pelo menos um ciberataque no período.
Só na primeira metade de 2025, registaram-se 3,2 milhões de ataques DDoS na Europa, Médio Oriente e África. A Europa foi responsável por 22% de todos os ataques globais de ransomware. O impacto financeiro e operacional é cada vez mais difícil de ignorar.
A resposta europeia: Galileo e uma base de dados de vulnerabilidades
A União Europeia não está parada. O sistema de navegação europeu Galileo já oferece o serviço OSNMA (Open Service Navigation Message Authentication), que permite detetar tentativas de spoofing ao autenticar criptograficamente os sinais dos satélites. O comissário europeu da Defesa, Andrius Kubilius, afirmou que a UE está a expandir a constelação de satélites em órbita baixa para "maior robustez" do sistema.
Paralelamente, a Forrester prevê que a UE crie a sua própria base de dados de vulnerabilidades conhecidas e exploradas, nos moldes da CISA americana, para melhorar a coordenação e partilha de informação entre estados-membros. A OTAN, sob a liderança de Mark Rutte, está também a trabalhar em medidas para combater as intromissões em voos civis.
As interferências e a suplantação de identidade prejudicam as nossas economias aéreas, marítimas e de transporte.
— Andrius Kubilius, comissário europeu da Defesa
O que esperar em 2026 e 2027
O relatório anual da Google Cloud Cybersecurity Forecast 2026 alerta que as operações cibernéticas de Estados como Rússia, China, Irão e Coreia do Norte vão expandir-se. A Rússia continuará a usar a guerra eletrónica como ferramenta de pressão híbrida sobre a Europa, nomeadamente através de interferências GPS no Báltico e no Mar Negro. A China, por seu lado, pode visar o setor dos semicondutores e a infraestrutura satélite.
A Fortinet prevê que a interferência nos sistemas GPS continuará em 2026 "à medida que a guerra cibernética se torna prática corrente". As recomendações para mitigar o risco incluem: encriptação adicional dos sinais satélite, sistemas de navegação redundantes (como navegação inercial), treino de pilotos para identificar interferências, e a adoção generalizada de recetores compatíveis com o Galileo OSNMA.
Se há uma lição a tirar dos últimos dois anos, é esta: o GPS, essa tecnologia que tomamos por garantida, é surpreendentemente frágil. E quando falha, não há app que substitua um mapa de papel.
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