Borboleta Heliconius erato (Red Postman) a alimentar-se de pólen — espécie que pode viver quase um ano. Crédito: Shutterstock/ScienceDaily
🔬 Ciência

Borboletas que quase não envelhecem: Heliconius vive 3x mais que parentes e pode desvendar segredos da longevidade

Há uma borboleta nas florestas tropicais da América Central e do Sul que parece ter encontrado o segredo para envelhecer devagar. Enquanto a maioria das borboletas vive apenas algumas semanas, as Heliconius podem chegar a quase um ano — e, mais espantoso ainda, não mostram sinais de declínio físico à medida que envelhecem.

A descoberta, publicada a 16 de junho de 2026 na revista Nature Communications por uma equipa liderada pela Universidade de Bristol em colaboração com o Smithsonian Tropical Research Institute, no Panamá, revela que estas borboletas tropicais do género Heliconius estão entre as mais longevas já documentadas — e podem tornar-se um modelo fundamental para estudar a biologia do envelhecimento.

348 dias contra 14: a diferença é de 25 vezes

A maioria das borboletas adultas vive apenas algumas semanas. Mas o estudo descobriu que algumas espécies de Heliconius vivem em média três vezes mais que os seus parentes mais próximos, com certos indivíduos a atingir perto de um ano de vida.

Outras espécies do género também apresentam vidas impressionantemente longas: entre 106 a 277 dias, de acordo com o estudo publicado na Nature Communications.

O teste da força: borboletas que não perdem a garra

Para medir o declínio físico associado à idade, a equipa construiu um dispositivo a que chamaram «The Pullinator» — um poleiro forrado com lixa, ligado a uma balança de laboratório. Seguravam a borboleta pelas asas, baixavam-na até agarrar o poleiro, e puxavam até ela largar. Quanto mais peso a borboleta aguentava antes de largar, melhor a sua condição física.

O resultado foi surpreendente: a Heliconius hecale (que pode viver até 277 dias) não mostrou qualquer declínio fisiológico no teste de força à medida que envelhecia. Já a Dryas iulia, uma espécie próxima que não se alimenta de pólen e vive apenas 98 dias, apresentou uma clara deterioração relacionada com a idade.

As borboletas Heliconius estão entre as mais longevas, mas o que as torna verdadeiramente notáveis é que parecem ter evoluído não só para viver mais tempo, mas também para envelhecer mais devagar.

— Dra. Jessica Foley, autora principal do estudo (Universidade de Bristol / Tufts University)

O segredo está no pólen?

A maioria das borboletas adultas alimenta-se exclusivamente de néctar — essencialmente açúcar. As Heliconius são raras exceções: alimentam-se também de pólen, o que lhes fornece aminoácidos, lípidos e outros nutrientes que a maioria das borboletas apenas obtém durante a fase de lagarta.

Para testar se o pólen era a chave da longevidade, os investigadores alimentaram Heliconius hecale sem pólen durante toda a sua vida adulta. O resultado: mesmo sem pólen, estas borboletas viveram muito mais tempo do que os seus parentes que não comem pólen.

Queríamos perceber se a extensão de vida se mantinha mesmo sem pólen — o que indicaria mecanismos evolutivos de longevidade para além da nutrição. E mantém-se. As Heliconius evoluíram para viver mais, e o pólen é apenas parte da história.

— Dra. Jessica Foley

Um novo modelo para estudar o envelhecimento

O estudo analisou 28 espécies de Heliconius, das quais apenas seis não se alimentam de pólen. As que comem pólen vivem entre 106 e 348 dias, enquanto as que não comem vivem entre 14 e 98 dias. Mas mesmo dentro do grupo que come pólen, há variações que sugerem que a evolução desenvolveu múltiplas estratégias antienvelhecimento.

Os cientistas acreditam que as Heliconius podem tornar-se um modelo promissor para a investigação da longevidade humana, tal como as moscas-da-fruta, os vermes e as leveduras têm sido usados para descobrir os mecanismos genéticos e bioquímicos do envelhecimento.

As Heliconius têm outra característica intrigante: cérebros grandes para o seu tamanho e uma impressionante memória de longo prazo — que também parece manter-se com a idade. Os autores do estudo planeiam agora investigar os mecanismos moleculares por detrás desta longevidade invulgar.

Ao comparar Heliconius de vida longa com os seus parentes de vida curta, temos uma experiência evolutiva natural que pode ajudar a revelar como o tempo de vida é prolongado — tornando-as um modelo altamente promissor para a investigação da biologia do envelhecimento.

— Dra. Jessica Foley

O que isto significa para os humanos

As borboletas podem parecer distantes dos humanos, mas os mecanismos fundamentais do envelhecimento — stress oxidativo, disfunção mitocondrial, encurtamento dos telómeros — são partilhados por todo o reino animal. Compreender como uma borboleta consegue viver 25 vezes mais que a sua parente mais próxima pode revelar princípios biológicos que se aplicam a todas as espécies, incluindo a nossa.

O Dr. Jaret C. Daniels, curador do McGuire Center for Lepidoptera and Biodiversity no Museu de História Natural da Flórida, que não participou no estudo, comentou: «Este estudo reforça a utilidade de muitos grupos de insetos como organismos modelo importantes para vários campos de investigação. Como muitos insetos são frequentemente ignorados ou subvalorizados pelos humanos, estudos como este podem ajudar a mudar essa perspetiva.»

Num mundo onde a procura pela fonte da juventude move indústrias inteiras, talvez a resposta esteja, afinal, numa pequena borboleta tropical que decidiu comer pólen em vez de néctar — e, ao fazê-lo, encontrou uma forma de enganar o tempo.

Feito por humanos — Portugal Binário

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