Um mergulhador a 60 metros de profundidade, no meio do Estreito da Sicília, a remover redes de pesca abandonadas de um navio naufragado. De repente, uma sombra de quatro metros emerge da escuridão azul. Não é um peixe qualquer — é um tubarão-branco adulto, a primeira vez que alguém consegue filmar um debaixo de água no Mediterrâneo.
O encontro aconteceu em meados de maio de 2026, a cerca de 80 quilómetros da costa, quando Derk Remmers, mergulhador da organização Ghost Diving, se preparava para retirar redes fantasmas de um navio afundado quando o tubarão surgiu. «O meu primeiro pensamento foi: preciso de ligar a câmara ou ninguém vai acreditar em nós. Estava a tremer muito», contou Remmers à National Geographic. «Ele passou por nós e parecia tão surpreendido com o encontro como nós.»
Tubarão-branco adulto filmado no Estreito da Sicília, a cerca de 60 metros de profundidade. Crédito: Derk Remmers / Ghost Diving / Healthy Seas
Uma população genética de 3,2 milhões de anos
O que torna este avistamento especialmente relevante é o que a ciência já sabe sobre estes tubarões. Um estudo genético liderado pela Universidade de Bolonha, publicado no Journal of Biogeography em 2020, revelou que os tubarões-brancos do Mediterrâneo são uma população geneticamente distinta, isolada há cerca de 3,2 milhões de anos — desde o período Pliocénico.
Através da análise de ADN mitocondrial de restos de tubarões encontrados nos últimos 200 anos, os investigadores descobriram que estes tubarões estão geneticamente mais próximos das populações do Pacífico do que das do Atlântico. A teoria é que os tubarões-brancos do Pacífico viajaram através do Atlântico e entraram no Mediterrâneo por uma antiga passagem oceânica conhecida como Istmo Centro-Americano, antes deste se fechar há cerca de 3 milhões de anos.
O registo histórico: de Rondelet (1554) a Carlotta (1906)
O primeiro registo conhecido de um tubarão-branco no Mediterrâneo vem do médico francês Guillaume Rondelet, que em 1554 escreveu sobre um tubarão de tamanho enorme capturado ao largo de Marselha, França, com uma armadura completa no estômago. Rondelet batizou-o de De Lamia — um demónio feminino da mitologia grega que devorava crianças.
No século XIX, a espécie era vista como uma ameaça aos humanos e ativamente caçada. Entre 1872 e 1905, o governo austro-húngaro oferecia recompensas monetárias a pescadores por cada tubarão-branco capturado. Só entre 1872 e 1882, foram capturados 21 grandes tubarões-brancos. Foi também nesta época que se capturou um dos maiores tubarões do mundo: uma fêmea de quase 5,5 metros ao largo da Croácia em 1906, apelidada de Carlotta, que ainda hoje está preservada no Museu de História Natural de Trieste — o maior tubarão-branco empalhado do mundo.
Criticamente em perigo: mais de 90% desapareceram
Apesar de protegida por tratados internacionais da ONU que proíbem a sua captura e venda, a população mediterrânica de tubarão-branco está listada como criticamente em perigo pela IUCN. Um estudo de 2019 estimou um declínio de 61% desde a segunda metade do século XX, mas Alessandro De Maddalena, criador do Italian Great White Shark Data Bank — um arquivo que regista todos os avistamentos desde a Idade Média — acredita que o declínio real é superior a 90% no último século.
Acredito que restam, no máximo, algumas centenas de indivíduos em todo o Mediterrâneo. Ao longo do último século, o declínio da espécie é provavelmente superior a 90%.
— Alessandro De Maddalena, especialista independente em tubarão-branco do Mediterrâneo
O banco de dados de De Maddalena, mantido privado por preocupação com a espécie, contém mais de 700 registos — desde exemplares preservados em museus a capturas acidentais, relatos históricos e observações de mergulhadores.
O Estreito da Sicília: o último reduto
O Estreito da Sicília, entre a Itália e a Tunísia, é considerado um dos últimos viveiros de tubarão-branco no Mediterrâneo e uma das suas derradeiras fortalezas. A região é rica em atum-rabilho, a principal presa dos tubarões-brancos, e tem registos de fêmeas grávidas, juvenis e adultos de ambos os sexos.
Outras áreas de viveiro suspeitas incluem o Adriático Oriental (ao largo da Croácia) e o Golfo de Edremit, na Turquia. No entanto, o conhecimento científico sobre onde estes tubarões passam a maior parte do tempo, onde se alimentam, migram ou reproduzem continua a ser extremamente limitado.
A informação que temos vem largamente de registos dispersos de interações com a pesca e observações de superfície, o que dificulta avaliações precisas da estrutura e distribuição da população.
— Carlo Cattano, investigador do Centro de Ciências Marinhas da Sicília (Stazione Zoologica Anton Dohrn)
O que o futuro reserva
O vídeo de Remmers não é apenas um documento raro — é também um alerta. As alterações climáticas estão a redistribuir as presas e a aquecer as águas do Mediterrâneo, o que pode estar a alterar os padrões de movimento dos tubarões. Mais avistamentos não significam necessariamente recuperação: podem significar apenas que os tubarões estão a aparecer em sítios diferentes porque o seu habitat está a mudar.
O projeto LIFE PROMETHEUS está a testar dispositivos eletromagnéticos de dissuasão aplicados a artes de pesca para reduzir as interações entre tubarões e pescadores. Mas os cientistas alertam que proteger esta população requer a expansão de áreas marinhas protegidas, a proibição de métodos de pesca destrutivos (como o palangre) e, acima de tudo, mais investigação.
Historicamente, a falta de interesse na investigação de tubarões entre as instituições responsáveis pelos estudos de biologia marinha na região atrasou significativamente a aquisição de informações. Felizmente, a situação mudou nos últimos anos. Esperemos que não seja demasiado tarde.
— Alessandro De Maddalena
O tubarão-branco-do-Mediterrâneo é um fantasma que nunca desapareceu — mas que pode desaparecer sem darmos por isso. O vídeo de Remmers é a prova de que ainda está lá. A questão é se vamos agir a tempo de o manter.
📹 O vídeo original do encontro pode ser visto em: instagram.com/reel/DZUInK_Oz3o
Feito por humanos — Portugal Binário
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