Quando o poço seca, a alternativa habitual é chamar um camião-cisterna. Foi precisamente esse o problema que Hashem Arouzi encontrou na sua propriedade em Ibiza. A solução que decidiu desenvolver não procura água no subsolo, no mar ou numa barragem: tenta extraí-la directamente do ar.
A sua empresa, a britânica Ahbstra, apresentou em Barcelona a ARK, uma máquina que afirma conseguir produzir até 500 litros de água por dia a partir da humidade atmosférica. A empresa diz que o sistema foi pensado para propriedades sem ligação à rede pública, sobretudo em regiões Mediterrânicas onde os poços estão a perder fiabilidade.
A unidade Ahbstra ARK fotografada em ambiente interior. A imagem mostra claramente a carcaça do equipamento e não é uma renderização. Crédito: Ahbstra, via Envirotec.
A proposta chega num momento em que a escassez de água se tornou um problema estrutural no sul da Europa. Segundo a Agência Europeia do Ambiente, cerca de 28% do território da União Europeia e 32% da população foram afectados por condições de escassez sazonal de água em pelo menos um trimestre de 2023. Portugal aparece entre os países afectados, sobretudo durante a Primavera e o Verão.
Uma esponja molecular para o ar seco
A ARK utiliza materiais conhecidos como estruturas metal-orgânicas, ou MOFs. São estruturas cristalinas com cavidades internas que podem ser desenhadas para capturar determinadas moléculas.
Em 2025, Susumu Kitagawa, Richard Robson e Omar Yaghi receberam o Nobel da Química pelo desenvolvimento dos MOFs. A informação oficial do Nobel refere que estes materiais já foram estudados para capturar água do ar do deserto, separar poluentes da água, armazenar hidrogénio e capturar dióxido de carbono.
Demetris Stylianou, responsável de engenharia da Ahbstra, junto de um equipamento de demonstração. A fotografia ajuda a mostrar a escala e o circuito, mas não é uma vista da ARK completa. Crédito: Ahbstra, via Envirotec.
A diferença em relação a muitos geradores convencionais de água atmosférica está no método. Esses equipamentos funcionam de forma semelhante a um desumidificador: arrefecem o ar até ao ponto de condensação e recolhem a água formada. Quando a humidade é baixa, esse processo exige mais energia e produz menos água.
Os MOFs funcionam de outra forma. Capturam o vapor de água nas suas superfícies internas e libertam-no depois com recurso a calor. A Ahbstra afirma ter resolvido parte do problema de fazer circular grandes volumes de ar por meio de um sistema próprio, chamado Suspended Particle Reactor, que mantém os grânulos de MOF em movimento dentro do fluxo de ar.
500 litros, mas não em qualquer condição
A cifra de 500 litros por dia não é uma produção garantida em todos os locais. A própria empresa admite que o desempenho depende da temperatura, da humidade, do tipo de MOF e da energia disponível.
Numa entrevista à Tech.eu, Hashem Arouzi afirmou que a ARK pode produzir cerca de 500 litros por dia a 30 graus Celsius e 30% de humidade relativa. Em condições mais extremas, com 45 graus e apenas 10% de humidade, a empresa aponta para aproximadamente 300 litros por dia. Estes números são declarações do fabricante.
Fotografia do lançamento da ARK em Barcelona, com membros das equipas Ahbstra e Promethean junto do expositor transparente. A imagem documenta o evento, mas não mostra a ARK completa. Crédito: Promethean Particles.
A ficha técnica da empresa indica uma produção máxima de 500 litros por dia, funcionamento entre 10% e 80% de humidade relativa, consumo energético de 0,47 a 0,70 kWh por litro, potência nominal entre 10 e 16 kW, dimensões de 6,3 × 2,8 × 2,9 metros e peso de 4 toneladas.
A ARK está direccionada sobretudo para moradias, hotéis e empreendimentos fora da rede pública de água. A empresa diz que a água pode ser encaminhada para depósitos e cisternas ou utilizada para reabastecer poços. Qualquer utilização como água para consumo terá, contudo, de cumprir as regras de qualidade e tratamento aplicáveis no local.
O preço anunciado é de aproximadamente 150 mil libras, cerca de 175 mil euros na conversão apresentada pela Euronews. A Water Magazine refere ainda um consumo próximo dos 10 kW num clima Mediterrânico típico, razão pela qual alguns clientes estarão a combinar o equipamento com produção solar.
É uma máquina grande, pesada e cara. Não é um electrodoméstico para instalar numa varanda, nem uma alternativa imediata à rede pública de abastecimento. A própria Ahbstra está a desenvolver versões mais pequenas e menos exigentes em energia, mas essas variantes ainda não são o produto apresentado como ARK.
A prova decisiva ainda está para chegar
As primeiras unidades compradas deverão ser instaladas no início de 2027, principalmente nas Ilhas Baleares. Até lá, a tecnologia permanece entre a demonstração e a primeira implantação comercial: já existe uma máquina e já existe uma campanha de vendas, mas ainda falta observar o comportamento do equipamento durante meses de utilização real.
A Euronews confirmou que ainda não estão disponíveis dados independentes, revistos por pares, sobre o desempenho e a durabilidade da ARK em condições reais prolongadas. A questão decisiva não é se os MOFs conseguem capturar vapor de água — isso está demonstrado há anos. É saber se uma máquina de quatro toneladas consegue fazê-lo todos os dias, com qualidade controlada, consumo aceitável e custos suportáveis.
A ideia é forte porque responde a um problema concreto: uma casa isolada cujo poço deixou de fornecer água. Mas, por enquanto, a ARK deve ser apresentada como um produto em primeira implantação comercial, com desempenho ainda dependente das declarações da empresa, e não como uma solução já validada para Portugal ou para todo o Mediterrâneo.
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