Uma ilha de gelo com uma área semelhante à de Manhattan separou-se de um glaciar da Gronelândia depois de anos de fissuras acompanhadas por satélite. O desprendimento aconteceu a 4 de agosto, mas só foi possível perceber a evolução da rutura porque o Copernicus Sentinel‑1 observou regularmente a língua de gelo flutuante do glaciar Petermann.
Imagem de radar do glaciar Petermann, onde uma secção da língua de gelo flutuante se desprendeu. Crédito: ESA / dados Copernicus Sentinel‑1.
A secção que se separou tem uma área estimada de 76,4 km² e pode atingir 150 metros de espessura. Trata-se de um bloco tabular — relativamente plano e muito extenso — que passou a deslocar-se independentemente no oceano Ártico.
A ESA compara a área aproximada da nova ilha de gelo — cerca de 76 km² — com a área de Manhattan. Crédito: ESA.
O radar viu a separação a acontecer
As imagens de radar de 3 de agosto já mostravam uma deterioração evidente ao longo da zona central da língua de gelo. Cerca de 24 horas depois, às 20h00 UTC de 4 de agosto, a nova ilha de gelo estava completamente separada do lado oriental do glaciar.
A vantagem do Sentinel‑1 é poder observar a região de dia e de noite, mesmo quando há nuvens. A missão europeia permitiu ainda comparar observações repetidas com apenas um dia de intervalo, acompanhando a propagação das fissuras e a deformação da superfície em resposta às marés.
À esquerda, a imagem ótica; à direita, o interferograma Sentinel‑1, que revela a deformação e a propagação das fissuras na língua de gelo. Crédito: ESA / M. Hammond, Universidade de Leeds.
Os investigadores acompanham o Petermann por satélite desde 2019. As observações de longo prazo mostraram que as fraturas se foram a expandir e que a língua flutuante apresentava sinais crescentes de instabilidade. O investigador Adam Garbo, da Universidade de Ottawa, afirmou que a equipa esperava esta separação há vários anos.
Uma perda invulgar no Ártico
Para o glaciar Petermann, esta é a maior perda de gelo flutuante desde 2012. A ESA descreve também o episódio como o maior desprendimento deste tipo registado no Ártico desde 2020. Blocos tabulares desta dimensão são mais comuns no Oceano Austral, junto à Antártida, do que no Ártico, o que torna esta ilha de gelo particularmente útil para estudar a forma como estas massas se deslocam e se fragmentam.
O desprendimento não significa que o nível do mar vá subir de forma imediata na proporção da área perdida: o gelo já estava a flutuar. A importância do evento está na dinâmica da língua de gelo, no recuo do glaciar e na oportunidade de observar a evolução de um bloco gigantesco depois de se separar.
O próximo problema está no caminho do icebergue
A equipa científica e o Serviço Canadiano do Gelo vão continuar a acompanhar a trajetória da ilha de gelo com satélites, observações aéreas e dados de rastreio. Um bloco tão espesso pode permanecer intacto durante anos e, mais tarde, fragmentar-se em pedaços menores e mais difíceis de detetar.
É por isso que o fenómeno interessa também à navegação e às operações offshore no Ártico. O risco não é apenas o icebergue que se vê nas imagens: são os fragmentos que podem continuar a deslocar-se muito depois de a rutura inicial deixar de ser notícia.
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