O fósforo é um dos três nutrientes fundamentais dos fertilizantes agrícolas, juntamente com o azoto e o potássio. Sem ele, as culturas não conseguem desenvolver correctamente as raízes, produzir energia ou formar sementes. O problema é que a agricultura moderna continua dependente de rocha fosfatada extraída de minas, um recurso finito e sujeito a perturbações nas cadeias de abastecimento.
Becca Muenich, professora associada da Universidade do Arkansas, recolhe uma amostra de água num curso de água em Prairie Grove, no Arkansas. A fotografia acompanha o comunicado da universidade sobre a investigação. Crédito: Whit Pruitt/Universidade do Arkansas.
Um estudo publicado na Proceedings of the National Academy of Sciences analisou se os Estados Unidos poderiam reduzir essa dependência recorrendo ao fósforo já acumulado nos solos e presente em resíduos agrícolas, estrume, lamas de depuração, ossos, cascas de ovo e restos de culturas. A investigação usou dados de 91 culturas, 20 tipos de gado e 3.142 condados, cobrindo o período entre 1866 e 2050.
O resultado central é mais interessante do que a ideia de uma simples escassez. Segundo o modelo, o fósforo residual acumulado nos solos dos EUA poderia, entre 2024 e 2050, fornecer o equivalente a 2,4 a 5,1 vezes a procura projetada de fósforo mineral do país. A palavra importante é “poderia”: trata-se de um potencial calculado, não de fertilizante pronto a ser recolhido, tratado e distribuído pelas explorações agrícolas.
O paper calcula potenciais técnicos relativos à procura projetada de fósforo mineral entre 2024 e 2050. Os intervalos não são aditivos e não representam fertilizante já recuperado. Elaboração: Portugal Binário, com base no abstract de Wang et al., PNAS (2026).
O fósforo já está espalhado pelo território
Até 2023, os solos agrícolas e as pastagens dos Estados Unidos tinham acumulado aproximadamente 99 teragramas de fósforo — cerca de 52 teragramas em terrenos agrícolas e 47 teragramas em pastagens. Um teragrama corresponde a um milhão de toneladas métricas. Esse total equivalia a cerca de 68% de todo o fósforo mineral aplicado como fertilizante entre 1866 e 2023.
A investigação também concluiu que a reciclagem de lamas de depuração, subprodutos de animais e resíduos agrícolas poderia compensar mais 0,5 a 1 vez a procura de fósforo mineral. A redução do desperdício alimentar teria ainda potencial para diminuir as necessidades em aproximadamente 0,3 vezes.
Esquema conceptual do percurso entre rocha fosfatada, fertilizante, solos, culturas, resíduos e recuperação. As setas representam relações conceptuais, não fluxos quantitativos. Elaboração: Portugal Binário, com base no estudo publicado na PNAS.
O comunicado da Universidade do Arkansas apresenta o problema de forma mais directa: os Estados Unidos poderão esgotar a sua oferta doméstica de fósforo em cerca de 40 anos. A mesma fonte afirma que a Europa, a América Latina e o Sudeste Asiático dependem já de importações provenientes, entre outros países, da China e de Marrocos. Esta é uma avaliação de risco de abastecimento apresentada pela universidade — não uma data exacta para o fim do fósforo no planeta.
A agricultura perde grande parte do que aplica
O fósforo não desaparece simplesmente depois de ser espalhado num campo. Parte dele fica retida no solo, onde pode deixar de estar imediatamente disponível para as raízes; outra parte pode ser transportada pela água da chuva ou da irrigação para os cursos de água.
A Universidade do Arkansas afirma que cerca de 80% do fósforo aplicado como fertilizante não chega às culturas. Isso não significa necessariamente que todo esse fósforo esteja perdido para sempre. Uma parte permanece no solo e pode constituir uma reserva aproveitável, desde que existam métodos agronómicos e económicos para a mobilizar sem provocar mais poluição.
É essa passagem de um modelo linear para um modelo circular que está no centro do paper. No modelo linear, a rocha é extraída, transformada em fertilizante, aplicada no campo e parte dos nutrientes acaba por ficar imobilizada ou sair do sistema. No modelo circular, os solos, os resíduos animais e os subprodutos agrícolas passam a ser tratados como fontes que podem voltar a alimentar a produção.
O mapa é tão importante como a quantidade
A existência de fósforo suficiente no conjunto do território não resolve automaticamente o problema. O estudo encontrou uma separação geográfica entre as zonas onde o fósforo circular está disponível e as regiões com maior procura agrícola.
O potencial de evitar a utilização de fósforo mineral concentra-se sobretudo no Sul e no Oeste dos Estados Unidos, enquanto muitos condados do Midwest apresentam uma relação menos favorável entre a oferta circular e a procura projetada. O estrume de uma exploração pecuária pode ser uma fonte útil de fósforo, mas transportá-lo para outra região pode não compensar economicamente porque contém uma grande quantidade de água.
Esta é a parte menos espectacular da solução e talvez a mais importante: não basta descobrir uma reserva. É preciso recolhê-la, tratá-la, garantir que não contém contaminantes, transportá-la e aplicá-la na cultura certa, no local certo e na quantidade certa.
A lição para a Europa e Portugal
Para Portugal, o estudo não permite afirmar que exista uma reserva nacional com a mesma dimensão. Os dados analisados são dos Estados Unidos. A lição é outra: um país pode depender de importações de fósforo enquanto acumula nutrientes nos solos, nos resíduos pecuários, nas lamas de depuração e nos restos da cadeia alimentar.
A agricultura circular não significa abandonar imediatamente os fertilizantes minerais nem transformar qualquer resíduo em adubo. Significa identificar onde os nutrientes estão, medir a sua disponibilidade, avaliar os riscos de contaminação e aproximar as fontes das explorações que deles precisam.
O fósforo é um bom exemplo de uma fragilidade que não aparece como uma crise instantânea. O recurso continua a existir, os fertilizantes continuam a ser vendidos e as culturas continuam a crescer. Mas cada tonelada extraída, transportada e parcialmente perdida reforça uma dependência que se torna mais cara e mais difícil de corrigir quando surgem problemas de preço, comércio ou logística.
A conclusão do estudo não é que os Estados Unidos tenham resolvido o problema. É que uma parte significativa da solução pode já estar dentro dos campos, dos pastos e dos resíduos produzidos pela própria agricultura. Falta transformar essa reserva dispersa numa cadeia de recuperação que seja tecnicamente segura e economicamente viável.
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