As águas costeiras portuguesas guardam muito mais do que as espécies já conhecidas da ciência. Entre os organismos menos estudados encontra-se o Vermetus triquetrus, um gastrópode marinho que vive fixo ao substrato e forma pequenos recifes ao longo da costa. Apesar da sua presença relevante nas águas nacionais — sobretudo no estuário do rio Mira, no Alentejo — permaneceu praticamente ignorado pelos investigadores durante décadas.
Agora, uma equipa do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) publicou o primeiro estudo aprofundado sobre esta espécie na revista científica Marine Biotechnology, revelando que o vermetídeo possui propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias promissoras, com potencial para aplicações nas indústrias nutracêutica, cosmética e farmacêutica.
O que é o Vermetus triquetrus?
O Vermetus triquetrus é um gastrópode marinho da família Vermetidae, conhecido popularmente como "verme marinho" ou "caracol verme" devido ao formato irregular e tubular da sua concha. Ao contrário da maioria dos caracóis, que transportam a concha às costas, os vermetídeos fixam-se permanentemente a rochas e outros substratos duros, formando colónias densas que se assemelham a pequenos recifes. No Mediterrâneo, estas estruturas são conhecidas como "trottoir a vermeti" — plataformas calcárias que desempenham um papel ecológico semelhante ao dos corais.
Costa alentejana — os ecossistemas costeiros portugueses, como o estuário do rio Mira e a Costa Vicentina, albergam uma biodiversidade marinha ainda pouco explorada pela ciência. © Pexels / Rui Silva
O que descobriu o estudo do IPMA?
A investigação, liderada pelos investigadores André Breves Ramos, Carlos Cardoso, Cláudia Afonso, Joana Matos, Jorge Lobo-Arteaga, Cátia Bartilotti, Sabrina Sales, Sónia Pedro e Narcisa M. Bandarra, analisou a composição bioquímica do organismo e avaliou a sua atividade biológica, diferenciando entre duas unidades anatómicas principais: a massa visceral e o manto (head-foot).
Os resultados revelaram níveis elevados de atividade antioxidante e anti-inflamatória, com uma concentração significativa de compostos polifenólicos, sobretudo na massa visceral. Estas substâncias são amplamente estudadas pelas suas propriedades benéficas para a saúde e pelo potencial para integrar suplementos alimentares, formulações cosméticas ou futuros produtos farmacêuticos.
Dados os níveis de atividade biológica quantificados e os componentes presentes, não só se justifica um estudo mais aprofundado sobre a composição bioquímica e o refinamento das frações obtidas da biomassa, como também se pode procurar uma valorização e aplicações futuras destas frações em domínios como o nutracêutico, o cosmético ou mesmo o farmacêutico.
— Investigadores do IPMA, no artigo publicado na Marine Biotechnology
Biobanco Azul — o primeiro banco de biodiversidade marinha Português
Esta descoberta insere-se no projeto MAR2030 Genemare_Portugal — Biobanco Azul (Blue Biobank), uma iniciativa ambiciosa que pretende criar o primeiro repositório biológico da biodiversidade marinha das águas Portuguesas. O projeto funciona como um Banco Nacional dos Recursos Vivos Marinhos, reunindo informação genética, bioquímica e biotecnológica de milhares de espécies, desde microrganismos a vertebrados.
O estudo envolveu análise bioquímica detalhada em laboratório, com recurso a microscopia e ensaios de atividade biológica para identificar os compostos de interesse. © Pexels
Mais do que um arquivo biológico, o Biobanco Azul pretende ser uma infraestrutura estratégica para valorizar a biodiversidade nacional. Portugal possui uma das maiores Zonas Económicas Exclusivas (ZEE) da Europa, e a conservação e caracterização dos recursos marinhos é essencial para o desenvolvimento da economia azul — um setor que a Comissão Europeia estima valer mais de 600 mil milhões de euros anuais.
Um primeiro passo, com promessa de futuro
Apesar dos resultados promissores, a equipa do IPMA sublinha que este é apenas o primeiro passo. O percurso até uma eventual aplicação comercial ainda exige investigação adicional, incluindo a caracterização molecular detalhada dos compostos identificados e o refinamento das frações extraídas da biomassa.
No entanto, o estudo do Vermetus triquetrus demonstra como o conhecimento da biodiversidade pode gerar novas oportunidades. Espécies que durante muito tempo passaram despercebidas podem revelar compostos naturais com elevado interesse científico e industrial, contribuindo para a criação de produtos inovadores e de maior valor acrescentado — e Portugal, com a sua extensa costa e ZEE, está numa posição privilegiada para liderar esta exploração.
O artigo, intitulado "Unveiling the Hidden Biotechnological Potential of the Vermetid Gastropod Vermetus triquetrus: Insights into an Unexplored Marine Resource", foi publicado a 28 de maio de 2026 na Marine Biotechnology (Springer) e está em acesso aberto.
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