Durante anos, o AROS viveu numa zona intermédia: era uma reimplementação livre do AmigaOS, mas o caminho mais simples para o experimentar em hardware ARM passava por executá-lo alojado dentro de outro sistema operativo, normalmente o Linux. Isso mudou com as novas imagens experimentais para Raspberry Pi.
O projecto passou a disponibilizar compilações que arrancam directamente no hardware ARM, sem precisarem de Linux como camada intermédia. O suporte ainda é experimental, mas funciona especialmente bem no Raspberry Pi 3.
A Raspberry Pi 4 Model B é a plataforma de hardware ilustrada; esta fotografia não mostra o AROS em execução nem prova que esta placa específica o esteja a executar.
Duas imagens para hardware ARM diferente
A página de compilações nocturnas do AROS passou a incluir duas variantes destinadas ao Raspberry Pi: raspi-aarch64-system, para hardware compatível com ARM de 64 bits, e raspi-armhf-system, para equipamentos ARMv6 mais antigos.
O Raspberry Pi 3 é o principal alvo funcional neste momento. O Raspberry Pi 4 já aparece como uma possibilidade, mas ainda com problemas por resolver, incluindo limitações no som e na rede. Não se trata de uma distribuição universal que possa ser gravada em qualquer Raspberry Pi e funcionar automaticamente.
O instalador AROS identifica directamente o sistema, mas esta é uma captura histórica do projecto e não demonstra o novo port Raspberry Pi.
Cinco segundos até ao Workbench
Segundo o The Register, a versão para Raspberry Pi 3 consegue arrancar até ao ambiente gráfico Workbench em aproximadamente cinco segundos. O número é interessante porque o AROS foi pensado como um sistema operativo pequeno e directo.
Em placas com apenas 512 MB ou 1 GB de memória, a máquina dispõe de poucos recursos para correr um ambiente gráfico moderno baseado em Linux, Windows ou BSD. Esses limites são menos problemáticos para o AROS: o objectivo não é oferecer mais desempenho do que o Linux, mas fazer algo funcional num equipamento modesto.
Esta captura oficial mostra o AROS x86_64 em VirtualBox e serve apenas para explicar o ambiente Wanderer e a capacidade gráfica do projecto; não representa a execução ARM nativa no Raspberry Pi.
A imagem base ocupa pouco mais de 100 MB
As imagens de instalação têm pouco mais de 100 MB. Para acrescentar aplicações, demonstrações, acessórios e ferramentas suplementares, o utilizador pode copiar os ficheiros da variante contrib, que acrescentam cerca de 1 GB de ficheiros comprimidos.
O detalhe que impede a nostalgia total
A versão para Raspberry Pi ainda não tem emulação 680x0. Os processadores Motorola 68000 e derivados foram a base dos computadores Amiga clássicos. Sem uma camada de emulação para essa arquitectura, o AROS no Raspberry Pi não consegue executar directamente as aplicações antigas escritas para os modelos originais.
O sistema consegue arrancar nativamente num computador ARM moderno, mas ainda não pode ser utilizado como uma máquina Amiga clássica completa. Quem quiser apenas correr jogos e aplicações antigas tem alternativas mais simples, como distribuições Linux com emuladores Amiga integrados.
As preferências de rede mostram uma funcionalidade real do AROS, embora a captura seja anterior ao novo port Raspberry Pi e não identifique a arquitectura ARM.
Quase 2.000 commits num ano
A evolução do port para Raspberry Pi surge num período de actividade significativa no projecto. Num resumo publicado no final de Julho, a equipa do AROS contabilizou quase 2.000 commits no ramo de desenvolvimento entre Julho de 2025 e Julho de 2026.
O mesmo documento identifica um novo port AArch64 para Raspberry Pi e vários controladores associados, incluindo suporte para armazenamento SD, HDMI, áudio, Wi-Fi Broadcom, Ethernet por USB e aceleração 2D VideoCore. Estes dados não significam que todas as funcionalidades estejam prontas ou activadas em todos os modelos.
Um protótipo, não um novo Raspberry Pi OS
O AROS para Raspberry Pi deve ser encarado como um protótipo funcional. Pode arrancar no hardware, chegar rapidamente ao ambiente gráfico e demonstrar uma abordagem diferente da habitual. Ainda assim, o suporte está concentrado sobretudo no Raspberry Pi 3, o Pi 4 continua incompleto, a estabilidade não é garantida e falta emulação 680x0.
É precisamente essa combinação que torna o projecto interessante. O AROS não está apenas a emular um Amiga: está a tentar ser um sistema operativo nativo, inspirado nesse legado, num processador ARM actual. Ainda não é um Amiga moderno pronto a substituir um PC, mas é uma demonstração de que o legado do Amiga pode continuar a ser usado para experimentar sistemas operativos e hardware acessível.
💬 Comentários
Nenhum comentário ainda. Sê o primeiro a comentar!