Racks de servidores num centro de dados empresarial — a infraestrutura física que o novo stack RISC-V europeu pretende alimentar
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SUSE e Openchip unem-se para criar o primeiro stack tecnológico soberano europeu: Linux, Kubernetes e IA em hardware RISC-V nativo — e aberto

Há uma dependência silenciosa que atravessa toda a tecnologia moderna: praticamente todos os servidores, clouds e centros de dados do mundo funcionam com processadores de duas arquiteturas — x86 (Intel e AMD) e ARM (Apple, Qualcomm, Amazon Graviton). Ambas são propriedade intelectual de empresas sediadas nos Estados Unidos. Para a União Europeia, que tem investido milhões na sua autonomia digital, esta dependência é um risco estratégico que o projeto RISC-V pretende eliminar.

A 25 de junho de 2026, a SUSE — uma das maiores empresas de software open source do mundo, conhecida pelo SUSE Linux Enterprise Server (SLES) — e a Openchip — empresa espanhola especializada em aceleradores RISC-V de alto desempenho — assinaram um Memorando de Entendimento (MoU) para criar o primeiro stack tecnológico soberano europeu, que vai desde a arquitetura de hardware RISC-V até ao software empresarial de código aberto.

O que é o RISC-V e porque é que isto importa

O RISC-V é uma arquitetura de processadores aberta e gratuita — ao contrário do x86 (propriedade da Intel/AMD) e do ARM (licenciado pela empresa britânica ARM Holdings). Isto significa que qualquer empresa ou país pode fabricar chips RISC-V sem pagar royalties, modificá-los à sua medida e garantir que não há portas traseiras ou dependências geopolíticas. Por isso, o RISC-V é visto como a grande esperança para a soberania digital europeia e chinesa.

AOpenchip foi selecionada pela Comissão Europeia como Projeto Importante de Interesse Europeu Comum (IPCEI ME/CT), o que lhe dá acesso a 111 milhões de euros em fundos NextGen EU, além dos 240 milhões de euros do projeto DARE. A empresa, sediada em Barcelona, está a desenvolver aceleradores RISC-V de alto desempenho para centros de dados, Inteligência Artificial e supercomputação.

Placa de circuito impresso com processadores e componentes eletrónicos — o coração físico do stack tecnológico

O RISC-V permite que a Europa desenhe os seus próprios processadores sem depender de licenças x86 ou ARM. A Openchip está a construir aceleradores para servidores, IA e HPC.

Linux, Kubernetes e IA nativos em RISC-V

O acordo entre a SUSE e a Openchip não é apenas mais uma parceria tecnológica. Pela primeira vez, uma das maiores distribuições Linux empresariais do mundo — o SUSE Linux Enterprise Server (SLES) — vai ser nativamente certificada para correr em hardware RISC-V desenhado na Europa. Mas o âmbito é mais alargado: o SUSE Kubernetes Engine (RKE2), o Rancher Prime (plataforma de gestão de contentores) e o SUSE AI Factory (plataforma de inteligência artificial) também vão ser otimizados para os aceleradores RISC-V da Openchip.

Na prática, isto significa que uma empresa ou organismo público europeu poderá adquirir servidores com chips RISC-V desenhados em Espanha, a correr Linux certificado pela SUSE, com orquestração Kubernetes, tudo com garantia de que não há dependência de tecnologia controlada por jurisdições estrangeiras. O perfil RVA23 (que inclui instruções vetoriais RVV para HPC e IA) será suportado nativamente, tal como a virtualização para ambientes cloud.

Conformidade com NIS2, DORA e CRA

Um dos fatores críticos para o mercado europeu é a conformidade regulatória. Este novo stack foi desenhado para ajudar organizações a cumprir os requisitos de auditoria de dados, localização de dados e resiliência operacional impostos por regulamentos como a NIS2 (Diretiva de Segurança de Redes e Informação), o DORA (Regulamento de Resiliência Operacional Digital do setor financeiro) e o CRA (Lei da Ciberresiliência). Ter um stack completo, desde a arquitetura do processador até ao software empresarial, que é 100% europeu, simplifica enormemente a conformidade.

Portugal no meio disto?

Portugal não está ausente deste ecossistema. O INL — Laboratório Ibérico Internacional de Nanotecnologia, em Braga — é uma referência europeia em investigação de semicondutores e arquiteturas RISC-V. Várias universidades portuguesas (IST, Universidade do Minho, Universidade de Coimbra) têm grupos de investigação ativos em RISC-V. E o cluster de semicondutores português, com empresas como a CeNTI, a NANIUM (Porto) e o recém-criado Polo de Semicondutores, posiciona Portugal como um potencial participante na cadeia de valor RISC-V europeia.

A SUSE e a Openchip não estão a inventar uma tecnologia nova — estão a fazer algo talvez mais importante: a juntar as peças que já existem (RISC-V, Linux, Kubernetes) num ecossistema coerente, certificado e, acima de tudo, europeu. Num mundo onde os semicondutores são o novo petróleo e as arquiteturas de processador definem quem controla a computação, ter uma alternativa soberana não é um luxo — é uma questão de estratégia.

O primeiro stack RISC-V empresarial europeu não vai substituir a Intel ou a AMD de um dia para o outro. Mas pela primeira vez, os organismos públicos, as empresas de defesa, as infraestruturas críticas e os setores regulados da Europa têm uma escolha real — uma alternativa que não depende de Silicon Valley, nem de licenças estrangeiras, nem de decisões tomadas do outro lado do Atlântico. A era do silício soberano europeu começou.

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