Dodge Charger Daytona de teste equipado com baterias de estado sólido da Stellantis e Factorial
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Stellantis já testa baterias de estado sólido na estrada — 375 Wh/kg, carga em 18 minutos e ligação a Portugal

As baterias de estado sólido, há muito apresentadas como o próximo salto tecnológico dos veículos elétricos, saíram finalmente do laboratório e entraram na estrada. A Stellantis — o gigante automóvel que detém marcas como Peugeot, Citroën, Fiat, Opel e Chrysler, e que emprega milhares de trabalhadores em Portugal nas fábricas de Mangualde e da Autoeuropa (Palmela) — anunciou ter iniciado testes de estrada com um Dodge Charger Daytona equipado com baterias de estado sólido desenvolvidas em parceria com a norte-americana Factorial Energy.

O que trazem as novas células FEST

No centro do programa está a tecnologia FEST (Factorial Electrolyte System Technology), que substitui o eletrólito líquido das baterias convencionais por um híbrido semissólido. Os números são impressionantes: as células, no formato automóvel de 77 Ah, atingem uma densidade energética de 375 Wh/kg — muito acima dos 250-296 Wh/kg das melhores baterias de iões de lítio atuais, como as Tesla 4680. Isto significa que, para a mesma capacidade, o conjunto de baterias pode ser 30 a 40% mais leve.

O carregamento é igualmente revolucionário: a bateria carrega dos 15% aos 90% em apenas 18 minutos à temperatura ambiente, um número que coloca as baterias de estado sólido muito à frente da maioria dos elétricos atuais. Além disso, as células FEST mantêm fiabilidade comprovada entre os -30°C e os 45°C, um intervalo que cobre praticamente todas as condições de condução do planeta.

Primeira integração na América do Norte

O Dodge Charger Daytona, construído sobre a plataforma STLA Large do grupo Stellantis, é o primeiro veículo de produção a circular na América do Norte com baterias de estado sólido. A integração não foi trivial: a Stellantis desenvolveu uma arquitetura mecânica patenteada para acomodar as novas células no conjunto de baterias existente, adaptando também os sistemas de controlo e o design térmico para garantir o desempenho em todas as condições de condução.

«O desenvolvimento de baterias é um exercício de equilíbrio. Não basta otimizar um único parâmetro. Precisamos de um sistema que proporcione benefícios reais num veículo real», afirmou Ned Curic, diretor de Engenharia e Tecnologia da Stellantis. «Este marco demonstra que estamos a aproximar as baterias de estado sólido dos nossos clientes, com potencial para maior autonomia, carregamento mais rápido e custos mais baixos.»

O caminho para a produção em série

A grande vantagem da tecnologia FEST não está apenas no desempenho: a Factorial afirma que as suas células semissólidas são compatíveis com os processos de fabrico existentes das baterias de iões de lítio, o que abre um caminho crítico para escalar a produção sem necessitar de fábricas totalmente novas. Siyu Huang, CEO da Factorial, sublinhou: «O que construímos juntos, desde a química das células até à arquitetura do conjunto, é exatamente o tipo de colaboração abrangente que as baterias de estado sólido sempre exigiram.»

Os testes em estrada que agora começam vão servir para afinar o comportamento do pack de baterias em diferentes condições de carregamento e condução, e para verificar a segurança global do veículo. É o primeiro veículo de um programa de desenvolvimento faseado — os resultados destes ensaios serão determinantes para os passos seguintes rumo à produção em série.

E Portugal nisto tudo?

A Stellantis não é apenas um nome distante com sede nos Países Baixos. Em Portugal, o grupo mantém duas unidades de produção: a fábrica de Mangualde, que desde outubro de 2024 produz veículos 100% elétricos (Citroën ë-Berlingo, Fiat e-Doblò, Opel Combo-e, Peugeot E-Partner) após um investimento de 119 milhões de euros do PRR; e a Autoeuropa, em Palmela, que fabrica modelos Volkswagen e é uma das maiores empregadoras industriais do país. A aposta da Stellantis nas baterias de estado sólido pode, a prazo, ter implicações diretas na competitividade das suas fábricas portuguesas.

A corrida às baterias de estado sólido está longe de ser uma disputa a solo. Na Europa, a BMW e a Mercedes também já testam células sólidas em estrada — a Mercedes com uma parceria com a própria Factorial. Na China, a Dongfeng prepara-se para iniciar produção em massa já este ano. Mas a Stellantis acaba de dar um passo que poucos esperavam: sair do comunicado de imprensa e meter as baterias na estrada, num carro a sério. E com fábricas em Portugal, o grupo pode muito bem ser a porta de entrada desta tecnologia na indústria automóvel nacional.

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