A SpaceX tornou oficial o que muitos suspeitavam: o serviço de conectividade por satélite para telemóveis, antes conhecido como Direct-to-Cell, passa a chamar-se Starlink Mobile. O anúncio foi feito no Mobile World Congress (MWC) 2026 em Barcelona, a 2 de março, num keynote que contou com a presidente e COO da SpaceX, Gwynne Shotwell, e o vice-presidente sénior do Starlink, Michael Nicolls.
O rebranding não é cosmético — sinaliza a transição de uma tecnologia experimental para um produto comercial de massa. E os números apresentados confirmam essa maturidade: 650 satélites de primeira geração totalmente implantados em 18 meses, a operar em 5 continentes, com 16 milhões de utilizadores únicos alcançados e 10 milhões de utilizadores ativos por mês através de operadoras parceiras como a T-Mobile (EUA), Rogers (Canadá) e KDDI (Japão).
52.000 novos utilizadores por dia
O ritmo de crescimento do Starlink Mobile rivaliza com os lançamentos de tecnologia de consumo mais rápidos da história. A SpaceX projeta adicionar 52.000 novos utilizadores por dia ao longo de 2026, com o objetivo de atingir 25 milhões de utilizadores ativos até ao final do ano — um crescimento de 4x face aos 6 milhões registados em dezembro de 2025.
O que torna estes números credíveis é o modelo de parceria com operadoras. «O Starlink Mobile não exige que os utilizadores comprem novo hardware ou mudem de operadora. Funciona como uma camada suplementar sobre os planos existentes, preenchendo automaticamente as zonas mortas», explicou Nicolls. Nos EUA, o serviço custa $10/mês através da T-Mobile ou está incluído em planos premium.
Como funciona: o telemóvel que já tens
Ao contrário dos terminais Starlink residenciais (a antena retangular que se vê em telhados), o Starlink Mobile não requer equipamento especial. Qualquer smartphone atual consegue comunicar com os satélites — a constelação funciona como uma torre 4G/5G no espaço, usando espectro de operadoras parceiras.
Quando começaram o programa Direct-to-Cell em 2024, 20% da área terrestre dos EUA e 90% da superfície da Terra não tinham cobertura móvel terrestre. O Starlink Mobile preenche essas lacunas. «É a maior cobertura 4G por área geográfica do mundo», disse Nicolls.
Com 650 satélites em órbita baixa (350 km), o Starlink Mobile já oferece a maior cobertura 4G por área geográfica do mundo.
A segunda geração: 150 Mbps diretamente para o telemóvel
Se a primeira geração do Starlink Mobile é sobre cobertura — mensagens de texto, chamadas de voz e dados básicos em zonas mortas — a segunda geração (V2) promete mudar o paradigma. Com lançamento previsto para meados de 2027 a bordo da Starship, os novos satélites V2 foram desenhados para oferecer velocidades de download até 150 Mbps diretamente para um smartphone standard.
As especificações são impressionantes: cada satélite V2 terá um phased array 5x maior que os atuais, 4x mais largura de banda por feixe e 100x a densidade de dados por satélite em comparação com a geração V1. A SpaceX planeia lançar mais de 50 satélites por voo da Starship e estima que 1.200 satélites serão suficientes para cobrir todo o planeta de forma contínua, o que espera alcançar em apenas 6 meses de lançamentos.
A segunda geração do Starlink Mobile será épica — conectividade de banda larga para centenas de milhões de telemóveis em todo o mundo.
— Michael Nicolls, VP Sénior de Satélite Engineering da SpaceX, no MWC 2026
Deutsche Telekom é a primeira operadora europeia a aderir
Paralelamente ao keynote, a Deutsche Telekom anunciou um acordo para ser a primeira operadora europeia a lançar a tecnologia V2 do Starlink Mobile. A operadora alemã planeia usar o serviço para garantir conectividade a clientes em regiões de difícil acesso devido a condições topográficas.
Este movimento é significativo: ao contrário do que muitos temiam, a SpaceX não está a tentar substituir as operadoras tradicionais. «O satélite é complementar às redes terrestres. Não consegue fornecer a densidade de dados que as redes terrestres têm, mas pode aumentá-las nos locais onde as redes terrestres não conseguem chegar», sublinhou Nicolls. A estratégia é clara: parceria, não concorrência — pelo menos para já.
Ucrânia: 3 milhões de subscritores em dois meses
Na Ucrânia, o Starlink Mobile já tem 3 milhões de subscritores através de uma parceria com a Kyivstar, demonstrando o valor do serviço em situações de crise.
Gwynne Shotwell revelou que a SpaceX assinou uma parceria com a operadora ucraniana Kyivstar para fornecer conectividade direta de satélite para telemóvel. O serviço está ativo há cerca de dois meses e já conta com 3 milhões de subscritores. Shotwell mostrou ainda um vídeo de um executivo da Starlink a fazer uma videochamada a partir de uma zona sem cobertura móvel nas colinas da Califórnia com um colega em Seattle ligado por rede terrestre — a chamada funcionou perfeitamente.
O espetro que vai mudar tudo
Um dos fatores mais estratégicos para o futuro do Starlink Mobile é o espetro. Em 2025, a SpaceX comprou licenças de espetro sem fios à EchoStar (dona da Boost Mobile) por cerca de $17 mil milhões, e depois por mais $2,6 mil milhões em novembro, garantindo acesso a ondas rádio na banda S com alcance internacional. O negócio fecha oficialmente a 30 de novembro de 2027, e a SpaceX espera que, quando os satélites V2 começarem a ser lançados, estejam disponíveis na maioria dos dispositivos nos EUA.
A longo prazo, a SpaceX já apresentou à FCC planos para expandir a constelação para 15.000 satélites dedicados ao serviço móvel. E, numa indicação do que pode estar para vir, Elon Musk já admitiu a possibilidade de o Starlink Mobile se tornar um operador móvel global — embora, para já, a empresa mantenha o discurso de complementaridade com as operadoras tradicionais.
O que isto significa para Portugal
Em Portugal, onde 5% do território ainda não tem cobertura móvel de qualidade, o Starlink Mobile pode ser a solução para as zonas rurais e montanhosas do interior.
Portugal tem uma das melhores coberturas de fibra ótica da Europa (90% do território), mas a cobertura móvel em zonas rurais e montanhosas do interior ainda tem lacunas significativas. O Starlink Mobile, quando chegar à Europa através de operadoras como a Deutsche Telekom (que tem presença em Portugal através da rede Magenta), pode preencher essas falhas sem necessidade de investimento em infraestrutura terrestre.
O serviço V1 já está disponível em Portugal através de operadoras parceiras com roaming internacional, oferecendo mensagens e chamadas em zonas sem cobertura. A versão V2, com 150 Mbps previstos para 2027, poderá tornar o telemóvel num terminal de satélite de alta velocidade — algo que até há poucos anos parecia ficção científica.
Feito por humanos — Portugal Binário
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