Na noite de 28 de junho, sob uma lua quase cheia que iluminava a costa do Cabo Canaveral, um foguetão Falcon 9 levantou voo da Plataforma de Lançamento 40 com um satélite Sirius XM a bordo. Foi o 78.º lançamento da SpaceX em 2026 — e o último do primeiro semestre a partir da Flórida. Um marco silencioso para uma empresa que transformou o acesso ao espaço numa operação industrial tão rotineira que já ninguém estranha.
A SpaceX fechou o primeiro semestre de 2026 com 78 lançamentos, todos bem-sucedidos (100% de taxa de sucesso). O número é impressionante por si só — uma média de um foguetão a cada 2,3 dias — mas ganha contexto quando comparado com o ritmo global: de acordo com dados da SpaceXNow, a empresa de Elon Musk é responsável por cerca de 40% de todos os lançamentos orbitais do planeta. Em 2025, a SpaceX completou 167 lançamentos, o recorde anual absoluto da empresa e da história da exploração espacial.
O booster que voou 35 vezes: a reutilização como religião
O número 1067 — mais conhecido como B1067 — entrou para a história em 2026. Este booster específico do Falcon 9 tornou-se no recordista absoluto de reutilização, com 35 voos completos. Não é uma exceção: a SpaceX já realizou 593 reutilizações de boosters, com uma taxa de sucesso de 99,83% na versão Block 5 do Falcon 9 (601 sucessos em 602 tentativas). Dos 654 boosters que tentaram aterrar, 631 conseguiram — uma taxa de 96,5%.
Os navios-droneship da SpaceX — "Of Course I Still Love You", "Just Read The Instructions" e "A Shortfall of Gravitas" — são já uma imagem tão familiar como os próprios foguetões. O recorde de turnaround (tempo entre aterragem e reutilização) é de apenas 1 hora e 5 minutos, entre duas missões Starlink no mesmo dia em agosto de 2024. Em 2026, o turnaround mais rápido em Cabo Canaveral foi de 1 dia e 21 horas.
A reutilização de foguetões é o segredo da SpaceX: 593 reutilizações de boosters, o B1067 com 35 voos, e turnarounds de apenas 1h05m entre lançamentos.
Starship V3: o monstro de 150 metros prepara o 13.º voo
Enquanto o Falcon 9 mantém a cadência industrial, a Starship prepara-se para o próximo passo. O 13.º voo de teste (Flight 13) está previsto para julho de 2026, a partir da Orbital Launch Pad 2 em Starbase, Texas. Será o segundo voo da versão V3 da Starship — a mais recente iteração do maior foguetão alguma vez construído, com 150 metros de altura (incluindo o propulsor Super Heavy).
A Starship V3 introduz melhorias significativas em relação às versões anteriores, incluindo os motores Raptor 3. O histórico da Starship é ainda acidentado: dos 12 voos de teste realizados até à data, apenas 6 foram considerados sucessos (50% de taxa de sucesso). Mas a trajetória é claramente ascendente — os últimos voos mostraram progressos consistentes na reentrada atmosférica, controlo de atitude e aterragem do Super Heavy com os braços mecânicos Mechazilla.
Starlink: 10.680 satélites e uma constelação que cresce todos os dias
A constelação Starlink continua a ser o motor comercial da SpaceX. Em junho de 2026, a empresa mantém 10.682 satélites em órbita — embora o número real flutue diariamente com as reentradas e os novos lançamentos. Cerca de 59% de todos os lançamentos da SpaceX (405 em 688) foram dedicados à Starlink, o que mostra como o negócio da internet por satélite financia o resto da operação.
Em 2026, a SpaceX lançou já mais de 1.000 satélites Starlink. O ritmo é tão industrial que a empresa atingiu o milésimo satélite do ano ainda em junho, com vários meses de semestre por fechar.
O foguetão mais versátil do mundo: Falcon Heavy perfeito, Dragon a levar pessoas
O Falcon Heavy, o foguetão de carga pesada da SpaceX, mantém um registo imaculado: 12 lançamentos, 12 sucessos (100%). Já a cápsula Dragon, tanto na versão Cargo como na Crew, realizou 55 missões com sucesso, transportando 74 astronautas para o espaço e cerca de 70 toneladas de carga para a Estação Espacial Internacional.
O semestre que ninguém celebrou — e por isso mesmo é tão impressionante
Talvez o dado mais impressionante sobre a SpaceX em 2026 seja este: o lançamento que fechou o primeiro semestre — o Falcon 9 com o satélite Sirius XM, no dia 28 de junho — passou quase despercebido. Não houve comunicados de imprensa triunfais, não houve diretos nas redes sociais. Foi apenas mais um lançamento. É este o verdadeiro sinal de que o acesso ao espaço se tornou, finalmente, uma operação industrial. A questão já não é se a SpaceX vai lançar amanhã, mas quantas vezes.
Com 78 lançamentos em seis meses, a empresa está a caminho de bater o seu próprio recorde anual de 167 lançamentos (2025). A meta para 2026 era 145 lançamentos — e está a 54% de cumprimento. Se o ritmo se mantiver, o segundo semestre trará mais satélites Starlink, mais missões comerciais, a Starship V3 a voar regularmente e, quem sabe, os primeiros passos a sério para uma base na Lua.
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