Parque híbrido solar e eólico ao amanhecer — Portugal atingiu 80,4% de eletricidade renovável no 1.º trimestre de 2026.
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Portugal bate recorde: 80,4% da eletricidade já vem de renováveis

Portugal acaba de atingir um feito que parecia inatingível há uma década: 80,4% de toda a eletricidade consumida no primeiro trimestre de 2026 veio de fontes renováveis. É o valor mais alto de sempre, e não é um acaso — resulta de uma década de investimento consistente em energia eólica, hídrica e solar.

No total, o país consumiu 14.624 GWh de eletricidade entre janeiro e março, um novo recorde histórico. E conseguiu-o com cada vez menos recurso ao exterior: o saldo importador caiu mais de metade (54%), e a dependência energética externa desceu de 7,5% para apenas 3,3%.

Distribuição da matriz elétrica Portuguesa no 1.º trimestre de 2026. As renováveis (hídrica, eólica, solar e biomassa) somam 80,4% do total.

O vento e a água no comando

A grande protagonista do trimestre foi a energia hídrica, responsável por 38% da produção — as barragens nacionais beneficiaram de um inverno especialmente chuvoso, com as albufeiras a recuperar níveis que não se viam desde 2021. A energia eólica, por seu lado, contribuiu com 31,9%, e registou um crescimento homólogo de 12,4%, graças à entrada em funcionamento de novos parques no interior Norte e Centro do país.

Já a solar e a biomassa sofreram quebras ligeiras (de 7,5% e 8,2%, respetivamente), mas continuam a ser pilares fundamentais da rede. A solar, em particular, tem vindo a crescer de forma explosiva nos últimos anos: dos 0,5 GW instalados em 2016, Portugal passou para mais de 6,3 GW em 2025, e o governo estima que a potência solar e eólica aumente mais 25% até ao final de 2026, num total de 3 GW adicionais — o maior salto anual em três décadas.

Parque eólico ao pôr do sol. A energia eólica cresceu 12,4% face a 2025 e representa 31,9% da produção nacional.

Dependência externa cai para metade

Um dos dados mais relevantes do trimestre é a queda abrupta da dependência energética externa. No primeiro trimestre de 2025, Portugal importava 7,5% da eletricidade que consumia. Um ano depois, esse número caiu para 3,3% — uma redução de 54%. O país está cada vez mais perto da autossuficiência elétrica.

Esta redução tem implicações diretas na balança comercial e na segurança energética nacional. Menos importação de eletricidade significa menos exposição à volatilidade dos preços internacionais e menos dependência de interligações com Espanha e do mercado grossista europeu, que têm registado picos de preço nos últimos anos.

Torres de alta tensão: a redução da importação de eletricidade fortalece a segurança energética nacional.

Mas o gás natural ainda é preciso

Apesar do domínio das renováveis, o gás natural continua a ser o «seguro» do sistema elétrico nacional. O seu consumo aumentou 13,8% face ao período homólogo, impulsionado pelas centrais de ciclo combinado que entram em funcionamento nos picos de procura — sobretudo ao final do dia, quando a produção solar cai e o vento nem sempre sopra.

Os dados de março de 2026 mostram que os Estados Unidos continuam a ser o principal fornecedor de gás a Portugal, com 36,6% do total, seguidos pela Nigéria (30,8%). A Rússia representa ainda 9,5% do gás importado — um número que tem vindo a descer, mas que mostra como a dependência energética externa não desapareceu por completo; apenas se deslocou da eletricidade para o gás.

O que significa para o consumidor Português?

No curto prazo, a fatura da luz continua a ser influenciada pelo preço do gás natural no mercado grossista — porque as centrais de ciclo combinado marcam o preço marginal. Mas a tendência é clara: quanto mais renováveis, menos exposição ao preço do gás. A médio prazo, a eletricidade mais barata gerada por solar e eólica acabará por fazer descer o preço final, sobretudo se o país investir em armazenamento (baterias) para aproveitar a sobreprodução nas horas de menor consumo.

Portugal tem também um ambicioso plano de expansão de renováveis: mais 3 GW de potência solar e eólica até ao final de 2026, o maior aumento anual em 30 anos. Se a este ritmo de crescimento juntarmos a aposta em baterias e na reestruturação da rede de transporte, o objetivo de 93% de eletricidade renovável em 2030 (definido no PNEC) parece cada vez mais ao alcance.

O futuro energético Português passa por um mix equilibrado entre solar, eólica e armazenamento. As baterias serão a «canivete suíço» do setor.

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Fonte: ComparaJá · Portal Energia · Jornal Económico · 14 JUN 2026

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