Portugal vai passar a ter quatro satélites de observação da Terra em órbita até ao final de 2026. A Força Aérea adquiriu dois novos satélites SAR (Radar de Abertura Sintética) à empresa finlandesa ICEYE, que vêm juntar-se aos dois já lançados na primeira metade do ano. O objectivo é um só: vigiar o Atlântico como nunca antes foi possível.
Quatro satélites, uma constelação
Os dois novos satélites foram adquiridos no âmbito da Agenda New Space Portugal, integrada no Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), através do CTI Aeroespacial — um consórcio que junta a Força Aérea, o CEiiA e a Geosat. O seu lançamento está previsto para “o final de Outubro”, segundo fonte oficial da Força Aérea ao ECO.
Com esta aquisição, a Constelação do Atlântico passa a contar com quatro satélites operacionais. Os primeiros dois foram lançados na primeira metade de 2026, com sucesso, através de foguetões SpaceX. Esta constelação é a primeira frota de satélites inteiramente operada por Portugal, marcando um salto qualitativo na capacidade de observação espacial do país.
O que é a tecnologia SAR?
Ao contrário dos satélites ópticos tradicionais, que dependem de luz solar e céu limpo, os satélites SAR (Synthetic Aperture Radar) emitem os seus próprios pulsos de radar e medem o eco refletido pela superfície terrestre. Isto permite-lhes obter imagens de alta resolução 24 horas por dia, 365 dias por ano, através de nuvens, nevoeiro, fumo ou chuva. A tecnologia é particularmente valiosa para vigilância marítima, detecção de derrames de petróleo, monitorização de navios, apoio a emergências e desastres naturais, e defesa.
“Reforça a liberdade de acção de Portugal”
O Chefe do Estado-Maior da Força Aérea Portuguesa, General Sérgio da Costa Pereira, citado em comunicado da ICEYE, sublinhou o significado estratégico da aquisição: “Esta mais recente aquisição reforça a liberdade de acção de Portugal. A capacidade SAR ampliada melhora a prontidão para missões de defesa e segurança, ao mesmo tempo que apoia ambições nacionais mais amplas, incluindo a monitorização ambiental e a salvaguarda dos recursos naturais.”
A empresa finlandesa ICEYE salientou que, com estes quatro satélites, a Força Aérea portuguesa poderá “atribuir missões e recolher dados mais rapidamente, transformando os seus recursos espaciais soberanos numa constelação de alta velocidade para o domínio marítimo do Atlântico e a Zona Económica Exclusiva (ZEE)”.
Órbita inclinada para apoiar Madeira e Açores
Os satélites serão colocados numa órbita baixa, mas inclinada, “de modo a dar apoio particularmente aos arquipélagos da Madeira e dos Açores”, explicou a Força Aérea à Lusa. Esta é uma decisão técnica relevante: órbitas inclinadas permitem maior tempo de passagem sobre latitudes mais afastadas do equador, maximizando a cobertura das ilhas atlânticas.
Investimento do PRR e o futuro do espaco português
Globalmente, a Agenda New Space Portugal tem um investimento previsto de €417,03 milhões, dos quais já foram pagos €229,46 milhões, segundo o Portal Mais Transparência. Os valores específicos da aquisição dos satélites não foram divulgados, por estarem sob gestão do CTI Aeroespacial.
Além dos satélites, o PRR prevê ainda dois projectos de infraestrutura espacial de grande envergadura: uma fábrica de produção de satélites em Alverca, em parceria com a ICEYE, e um porto espacial em Santa Maria, nos Açores. Ambos os projectos terão de estar concluídos até final de Junho, data limite para a conclusão dos projectos no âmbito do PRR.
Portugal no clube espacial
Com esta constelação, Portugal junta-se a um grupo restrito de países que operam os seus próprios satélites de observação da Terra com tecnologia SAR. A Finlândia, através da ICEYE, é líder mundial neste segmento, e a parceria com Portugal reflecte o posicionamento estratégico do país no atlântico como plataforma ideal para observação marítima.
O país não se fica pelos satélites. O ecossistema espacial português inclui ainda o Centro de Investigação e Desenvolvimento em Telecomunicações Espaciais de Leiria, acordos com a Agência Espacial Europeia (ESA), e a participação em missões internacionais. A aposta no espaço é uma aposta no futuro — e, como disse o General Sérgio da Costa Pereira, “na liberdade de acção de Portugal”.
Feito por humanos — Portugal Binário
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