Em fevereiro de 2025, a China apertou o cerco a um material obscuro chamado fosfeto de índio. O que parecia uma medida técnica é, afinal, a peça mais recente de uma estratégia meticulosa: transformar o controlo dos minerais críticos numa arma de guerra económica contra o Ocidente. E os data centers de IA são o primeiro alvo.
Barely a week after Nvidia-backed chipmaker Coherent warned of a shortage — tão recente que o aviso ainda ecoava quando o seu CEO, Jim Anderson, embarcou num avião com o Presidente Donald Trump a caminho de Pequim. Anderson levava um problema na bagagem: a China estava a atrasar licenças de exportação de um material essencial para fabricar os componentes óticos mais avançados do mundo — o fosfeto de índio (InP).
A visita de Anderson à China, em maio de 2026, não foi um caso isolado. O tema foi discutido em Seul entre negociadores dos dois países antes da cimeira Trump-Xi a 14-15 de maio. A urgência americana revela uma verdade desconfortável: Pequim descobriu um ponto de estrangulamento que pode travar a expansão global da inteligência artificial.
O que é o fosfeto de índio e porque é que importa?
O fosfeto de índio (InP) é um material semicondutor composto, discreto e pouco conhecido fora dos círculos da fotónica. Mas a sua função é crítica: é usado para fabricar lasers e componentes de comunicação ótica de altíssima velocidade — as autoestradas de dados dentro dos data centers. À medida que os clusters de IA crescem — com milhares de GPUs a trabalhar em paralelo — a capacidade de mover dados entre chips tornou-se tão importante como a potência de processamento.
O InP é um dos vários bottlenecks na cadeia de fornecimento que, em conjunto, estão a limitar a construção de data centers de IA.
O problema é que a China controla 70% da produção global de índio (segundo o U.S. Geological Survey) e, desde fevereiro de 2025, sujeitou o InP a um regime de licenciamento de exportação tão restritivo que está a paralisar a indústria fotónica ocidental.
Os números do aperto
Os dados são impressionantes. AXT Inc., o segundo maior produtor mundial de substratos de InP e principal fornecedor da Coherent, disse em maio que «as licenças de exportação de InP representam o desafio mais significativo que enfrentamos atualmente». A sua subsidiária chinesa só recebeu as primeiras licenças em junho de 2025 e acumula uma carteira de encomendas por satisfazer superior a 60 milhões de dólares.
Lumentum, outro gigante da fotónica, está esgotado até 2028 — apesar de ter quadruplicado a produção. O preço médio de uma wafer de InP de 6 polegadas disparou 250%, para 5.000 dólares. A Coherent, participada pela Nvidia, registou receitas de 1,8 mil milhões de dólares no seu último trimestre e está a duplicar a capacidade de produção de InP a cada trimestre — mas continua a não conseguir satisfazer a procura.
As interconexões óticas baseadas em InP movem dados entre chips à velocidade necessária para treinar modelos de IA à escala. Crédito: Unsplash
Uma arma de precisão
O mais impressionante na estratégia chinesa não é a brutalidade — é a precisão. «Pequim está a desenvolver um arsenal de 'pontos de estrangulamento de materiais' mais granular», explica Paul Triolo, parceiro da Albright Stonebridge Group. «Em vez de bloquear completamente os produtos fotónicos acabados, pode atrasar ou condicionar a exportação dos compostos de base, substratos e metais que determinam se o ecossistema de módulos óticos consegue escalar suficientemente rápido para satisfazer a procura dos hyperscalers.»
As restrições ao InP fazem parte de um movimento mais amplo de controlo de exportações que entrou em vigor a 4 de fevereiro de 2025, abrangendo tungsténio, telúrio, bismuto, molibdénio e índio. O controlo sobre o InP continua ativo e não foi incluído na suspensão temporária de novembro de 2025.
O contexto: uma guerra em múltiplas frentes
O controlo do InP é apenas a ponta mais visível de uma estratégia que Pequim vem aperfeiçoando desde 2023: Gálio e germânio (agosto 2023): licenciamento obrigatório para exportação, com exportações a caírem a zero; Grafite (dezembro 2023): restrições à grafite de alta pureza para baterias; Terras raras (abril 2025): 7 elementos adicionados à lista de controlo; Outubro 2025: o pacote mais abrangente — qualquer produto com 0,1% ou mais de terras raras chinesas passou a exigir licença; Novembro 2025: suspensão temporária após cimeira Trump-Xi, mas o InP continuou controlado; Março 2026: Decreto do Conselho de Estado n.º 834 — primeiro quadro jurídico dedicado à segurança das cadeias de fornecimento.
A Europa na mira
Se a situação é grave para os EUA, para a Europa é potencialmente catastrófica. A China é responsável por 60% da produção global de minerais críticos e 90% da capacidade de refinação. O Tribunal de Contas Europeu alertou em fevereiro de 2026 que a UE importa da China 97% do magnésio, 71% do gálio, 45% do germânio, 40% da grafite, e 98% dos ímanes de terras raras usados em turbinas eólicas, veículos elétricos e defesa.
Without critical raw materials, there will be no energy transition, no competitiveness, and no strategic autonomy.
Em abril de 2026, os EUA e a UE assinaram um Memorando de Entendimento para coordenar políticas de minerais críticos. Marco Rubio, secretário de Estado americano, foi claro: «A sobreconcentração destes recursos, o facto de serem dominados por um ou dois lugares, é um risco inaceitável.»
O que significa para Portugal
Portugal, que se posiciona como destino para data centers (a Google tem um centro de dados em Sines), está exposto a esta fragilidade. A construção de nova capacidade de IA na Europa depende da disponibilidade de componentes fotónicos que usam InP. Se a China apertar o cerco, os projetos podem atrasar-se ou encarecer significativamente.
Entretanto, Pequim não está parada. Em abril de 2026, a Yunnan Germanium anunciou um investimento de 189 milhões de yuan (28 milhões de dólares) para expandir a produção anual para 450.000 wafers de InP. As suas expedições cresceram 74% em 2025. A Guangdong Xiandao lançou um novo projeto para 40 toneladas anuais de cristais de InP. A China está a construir capacidade de produção enquanto condiciona o acesso dos concorrentes.
Conclusão
A guerra dos chips de IA sempre foi contada como uma história de design e fabrico de processadores — Nvidia, TSMC, ASML. Mas a verdadeira batalha pode estar a travar-se num campo menos visível: o dos materiais críticos que estão nos componentes mais básicos das infraestruturas digitais. O fosfeto de índio é o mais recente, mas não será o último. A China construiu um sistema legal e industrial que lhe permite apertar ou aliviar o cerco com uma precisão cirúrgica. O Ocidente está a correr para criar alternativas — parcerias transatlânticas, reciclagem, novas minas. Mas a corrida é contra o relógio. A pergunta que fica para os leitores Portugueses: quando o próximo data center de IA for anunciado para Portugal, sabemos de onde virão os materiais para o construir?
Feito por humanos — Portugal Binário
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