Ilustração de Julio Lacerda: Eosphorosuchus lacrimosa (esquerda) e Hesperosuchus agilis (direita) junto a uma carcaça de Coelophysis há 210 milhões de anos, em Ghost Ranch
🔬 Ciência

O crocodilo que ficou 75 anos esquecido num museu: dois predadores do Triásico morreram a olhar um para o outro

Há 210 milhões de anos, dois parentes distantes dos crocodilos modernos, cada um do tamanho de um chacal, ficaram lado a lado numa margem húmida e lamacenta do que hoje é o norte do Novo México. Uma cheia varreu-os e enterrou-os juntos. O bloco de rocha que os guardou foi escavado em 1948 e ficou, durante 75 anos, numa coleção de museu sem que ninguém o estudasse a fundo. Quando finalmente o fizeram, descobriram que um dos dois animais era uma espécie completamente desconhecida.

A nova espécie chama-se Eosphorosuchus lacrimosa — "o crocodilo que traz a aurora" — e a sua história começa no Ghost Ranch Bone Bed, um dos mais ricos jazigos do Triásico Superior, estudado há quase um século. O Museu Peabody de História Natural, em Yale, guarda dois grandes blocos desse jazigo, juntos do tamanho de um carro. Neles estão os restos de dois predadores: o Hesperosuchus agilis, de focinho longo e corpo ágil, e o seu companheiro de bloco, de focinho curto, que durante décadas foi tratado como mais um exemplar da mesma espécie.

Fóssil de Coelophysis com ossos de crocodylomorphos preservados na rocha, coleção do AMNH

Fósseis do dinossauro Coelophysis bauri e de parentes dos crocodilos preservados juntos na rocha — a associação típica do jazigo de Ghost Ranch. Crédito: Wikimedia Commons/AMNH

"Estava a olhar para este fóssil há algum tempo"

O curador associado do Peabody, Bhart-Anjan Bhullar, suspeitava há anos que o animal de focinho curto tinha uma estrutura facial diferente do Hesperosuchus. Foi Miranda Margulis-Ohnuma, estudante de doutoramento em ciências da Terra e planetárias em Yale, quem resolveu a questão: analisou uma tomografia computorizada do fóssil, feita no Yale Chemical and Biophysical Imaging Center, e "desmontou-o" digitalmente, osso a osso, sem tocar na rocha.

As diferenças eram reais: o animal tinha um focinho invulgarmente curto e osteologicamente reforçado, um arco temporal robusto e uma crista no surangular que indicam músculos adutores superficiais bem desenvolvidos — em português corrente, mandíbulas feitas para fechar com força sobre presas grandes. As análises filogenéticas colocaram a nova espécie perto da base do grupo Crocodylomorpha, fora do clado do Hesperosuchus. Os autores publicaram a descrição na Proceedings of the Royal Society B.

Dois vizinhos, duas estratégias

O que torna a descoberta especial não é só o fóssil: é o par. Os dois protocrocodilos viveram no mesmo ecossistema, ao mesmo tempo, com a mesma dimensão — mas caçavam de maneiras opostas. O Hesperosuchus era rápido, de focinho longo, à procura de presas ágeis; o Eosphorosuchus era mais robusto, de crânio curto e reforçado, capaz de triturar presas maiores. É a primeira evidência forte de dois crocodylomorfos funcionalmente diferentes a coexistirem, diz Margulis-Ohnuma — uma divisão de nichos que mostra que a especialização ecológica começou muito cedo na história do grupo.

É uma fatia de tempo de um momento único há 210 milhões de anos. Estes dois indivíduos tinham de competir e interagir um com o outro. Estavam possivelmente a olhar um para o outro quando morreram.

— Bhart-Anjan Bhullar, curador associado do Museu Peabody (Yale)

O amanhecer dos crocodilos

No Triásico Superior, duas dinastias de répteis disputavam o domínio do planeta: a que viria a dar origem aos crocodilos e jacarés e a que daria origem aos dinossauros — e às aves. Os dinossauros eram então animais delgados, que corriam em duas patas finas "quase como garças"; os protocrocodilos eram predadores robustos de quatro patas, baixos e pesados, "como um chacal, uma raposa grande ou um cão", descreve Bhullar. O nome da nova espécie captura esse momento: Eosphorus, na mitologia grega o deus que anuncia a aurora — o contraponto de Hesperos, o deus do entardecer que dá nome ao seu vizinho — e soukhos, a palavra grega para crocodilo.

Falésias vermelhas de Ghost Ranch, Novo México

As falésias vermelhas de Ghost Ranch, no Novo México: foi aqui, em 1948, que o bloco de rocha com os dois protocrocodilos foi escavado. Crédito: Wikimedia Commons

A lição das coleções de museu

O fóssil foi escavado em 1948 e esteve 75 anos disponível aos cientistas antes de ser formalmente identificado — identificado por uma estudante de doutoramento, com um scanner, sem nunca sair da gaveta. "O espécime demonstra o potencial das coleções de museu existentes para continuarem a revelar novos conhecimentos sobre a história da vida", nota Margulis-Ohnuma. É um lembrete com eco em Portugal e na Europa: em armários e gavetas de museus de todo o continente podem estar descobertas à espera de um olhar novo — e de uma tomografia.

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