Parque fotovoltaico de grande escala com fileiras de painéis solares a estenderem-se até ao horizonte sob um céu azul com nuvens
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JinkoSolar bate recorde mundial com célula solar de 34,82% de eficiência — construída na plataforma que já domina a produção em massa

A JinkoSolar, um dos maiores fabricantes mundiais de painéis solares, anunciou a 19 de junho de 2026 que a sua célula tandem perovskita-silício N-type TOPCon atingiu uma eficiência de conversão de 34,82%, certificada pelo Shanghai Institute of Microsystem and Information Technology (SIMIT) da Academia Chinesa de Ciências. O resultado supera o anterior recorde da própria empresa (34,76%, de dezembro de 2025) e marca o 33.º recorde mundial de eficiência ou potência da JinkoSolar.

O número por si só é impressionante, mas o que verdadeiramente distingue este anúncio é onde o recorde foi alcançado: pela primeira vez, este nível de eficiência foi atingido na plataforma TOPCon N-type — a arquitetura de células solares que já domina a produção em massa à escala global. Isto significa que o caminho do laboratório para as fábricas pode ser mais curto do que o esperado.

O limite dos 65 anos que caiu

Desde 1961 que o limite de Shockley-Queisser definia o teto teórico de eficiência para qualquer célula solar de junção única: cerca de 33,7%. O problema é físico — um único material só consegue absorver fotões dentro de uma janela de energia limitada. Fotões com energia acima dessa janela perdem o excesso como calor; fotões abaixo passam diretamente. Durante 65 anos, este limite parecia intransponível para o silício convencional.

As células tandem resolvem o problema empilhando dois materiais absorventes: uma camada superior de perovskita que capta os fotões de alta energia (azul e verde) e uma camada inferior de silício que aproveita os fotões de menor energia (vermelho e infravermelho). Juntas, as duas camadas conseguem colher uma fatia muito maior do espectro solar. O limite teórico para uma tandem de duas junções é de aproximadamente 43% — o que significa que ainda há margem considerável para melhorar.

Fileiras de painéis solares fotovoltaicos instalados num campo aberto sob um céu azul claro

As células tandem perovskita-silício prometem aumentar a eficiência dos painéis solares sem ocupar mais terreno — crucial para países como Portugal com espaço limitado.

Porque é que a plataforma TOPCon importa

A maioria dos recordes de laboratório é alcançada com arquiteturas exóticas e dispendiosas que dificilmente se traduzem em produção em massa. O recorde da LONGi (34,85%, certificado pelo NREL americano em abril de 2025) foi obtido numa plataforma de heterojunção de silício (SHJ) — que exige equipamentos de deposição diferentes das linhas de produção atuais.

Ora, a JinkoSolar foi o primeiro fabricante mundial a produzir TOPCon em massa à escala industrial, e a plataforma tornou-se entretanto o padrão dominante nas novas fábricas de células solares. Construir uma célula tandem recordista sobre TOPCon significa que as gigawatts de capacidade de produção já instaladas podem, em princípio, ser adaptadas para a nova tecnologia sem uma reforma completa das linhas de montagem — uma vantagem económica significativa.

O recorde da JinkoSolar é o mais comercialmente relevante porque foi alcançado na plataforma que já enche as fábricas do mundo. Não é apenas um número bonito de laboratório — é um sinal de que o caminho para o produto é mais curto.

— Jerry Cards, análise ao recorde de 34,82%

As quatro inovações que o tornaram possível

A JinkoSolar atribuiu o ganho de eficiência a quatro inovações interligadas, todas aplicadas na interface entre a perovskita e o silício — a parte mais exigente de uma célula tandem:

1. Estrutura de passivação de contacto composta de dupla camada — uma camada ultrafina de óxido de silício (1-2 nm) depositada na superfície traseira da célula, coberta por uma camada de silício policristalino dopado. Os portadores de carga maioritários atravessam o óxido por tunelamento quântico, enquanto os minoritários são bloqueados, reduzindo as perdas por recombinação.

2. Passivação de interface multidimensional — trata os defeitos na fronteira crítica entre a perovskita e o silício, onde os portadores de carga gerados na perovskita precisam de transitar para a junção de recombinação. Defeitos nesta interface atuam como centros de recombinação que reduzem a corrente que a tandem consegue entregar.

3. Controlo do gradiente de cristalização — uma técnica que gere a taxa e a uniformidade espacial com que a camada de perovskita cristaliza durante o fabrico. Películas que cristalizam demasiado depressa ou de forma irregular desenvolvem defeitos que reduzem a eficiência e a estabilidade a longo prazo.

4. Acoplamento ótico otimizado — melhora a forma como os fotões são encaminhados para a camada absorvente correta, em vez de serem refletidos pela superfície ou dispersos para fora da região ativa.

O estado da corrida aos 35%

Este é um campeonato que se mede já em centésimas de ponto percentual — sinal de como a tecnologia está madura. Eis o panorama atual:

A LONGi detém ainda o recorde absoluto (34,85%), certificado pelo NREL — o organismo de referência internacional. Mas fê-lo na plataforma SHJ, que exige linhas de produção diferentes. A JinkoSolar está apenas a 0,03 pontos percentuais atrás, mas na plataforma que já domina a indústria — o que, para muitos analistas, é o marco mais relevante para a comercialização.

Os três obstáculos entre o recorde e o telhado

Vista aérea da central solar JinkoSolar de 1177MW em Abu Dhabi, no deserto — uma das maiores do mundo

A JinkoSolar é um dos maiores fabricantes mundiais de painéis solares e a primeira a produzir TOPCon em massa à escala global.

Embora o recorde seja um marco importante, a comercialização em massa enfrenta três barreiras significativas que o anúncio de 19 de junho não resolve:

1. Estabilidade. Os painéis de silício atuais têm garantia de 25 anos, suportada por décadas de dados de campo e cerca de 175.000 horas de vida útil demonstrada. As células de perovskita são sensíveis à humidade, ao calor e à radiação ultravioleta de forma que o silício não é. Os dados operacionais mais longos publicados para tandems com perovskita rondam as 1.000 horas — um fator de 100 abaixo do exigido para uso comercial. A falta de protocolos de teste padronizados é apontada como a principal barreira à comercialização.

2. Toxicidade do chumbo. A maioria das células de perovskita de alta eficiência utiliza absorvedores à base de chumbo, que oferecem a melhor combinação de ajustabilidade de bandgap e desempenho eletrónico. No entanto, o chumbo apresenta riscos ambientais em caso de fuga durante o fabrico, danos na instalação ou eliminação em fim de vida — riscos que já motivaram interesse regulatório na União Europeia e em vários estados norte-americanos.

3. Escalabilidade. O recorde de 34,82% foi medido numa célula de pequena área — o formato padrão para recordes de laboratório — e não num painel comercial de tamanho real. A Oxford PV, pioneira britânica do conceito tandem comercial, opera a primeira linha de produção tandem do mundo em Brandemburgo, Alemanha, e atingiu 26,9% de eficiência em módulo (certificado Fraunhofer CalLab). Esta diferença de 2 a 8 pontos percentuais entre a célula de laboratório e o módulo comercial é um dos problemas definidores de toda a indústria.

Uma corrida com linha de meta incerta

Investigador do NREL segura uma célula solar de perovskita num laboratório — o material que permite às células tandem ultrapassar os limites do silício

As células de perovskita conseguem absorver os fotões de alta energia que o silício desperdiça, permitindo eficiências acima do limite teórico de 33,7%.

A JinkoSolar compete num campo que inclui LONGi, Oxford PV, Hanwha Q CELLS, Trina Solar e um número crescente de instituições de investigação. Analistas da PatSnap estimam que, se os fabricantes chineses de topo — LONGi, JinkoSolar e Trina — entrarem em produção em massa de células tandem em 2026 ou 2027, a rápida descida de custos pode commoditizar a tecnologia antes de os fabricantes europeus ganharem escala.

Por enquanto, o 33.º recorde da JinkoSolar demonstra duas coisas: que o teto de Shockley-Queisser deixou de ser uma barreira prática para as células tandem, e que ultrapassá-lo numa plataforma TOPCon — que já corre à escala industrial — é mais relevante para o mundo real do que fazê-lo em abstrato. Se a empresa conseguirá traduzir os 34,82% do laboratório num produto comercial com eficiência comparável, durabilidade de 25 anos e conformidade regulatória é o trabalho de engenharia que falta fazer.

O que disto interessa a Portugal? O país tem uma das maiores taxas de penetração solar da Europa — a energia solar representou 10,3% da eletricidade consumida em Portugal em 2025, segundo a APREN. Cada ponto percentual de ganho de eficiência nos painéis traduz-se em mais eletricidade por metro quadrado instalado, o que é particularmente relevante num país com espaço limitado para grandes centrais solares e onde a potência instalada fotovoltaica já ultrapassou os 6 GW. A tecnologia tandem, se chegar ao mercado nos próximos anos, pode acelerar o retorno do investimento em novas instalações solares em Portugal sem ocupar mais terreno.

Feito por humanos — Portugal Binário

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