Dois dias antes dos Estados Unidos celebrarem a sua independência, a China vai escrever um dos capítulos mais ambiciosos da sua exploração espacial. A sonda Tianwen-2, lançada a 28 de maio de 2025, chegou ao asteroide 469219 Kamo'oalewa a 7 de junho de 2026 e, este sábado, 4 de julho, deverá fechar a aproximação a apenas 20 quilómetros da superfície do corpo celeste — o início da fase mais crítica da missão.
O Kamo'oalewa, frequentemente descrito como a "mini-lua" da Terra, é um dos apenas sete quase-satélites conhecidos do nosso planeta. Descoberto a 27 de abril de 2016 pelo telescópio Pan-STARRS 1, no Havai, mede entre 40 e 100 metros de diâmetro — aproximadamente o tamanho da Estátua da Liberdade — e completa uma rotação a cada 28 minutos, uma das mais rápidas jamais registadas num asteroide visitado por uma sonda.
O Kamo'oalewa orbita o Sol em ressonância 1:1 com a Terra — completa uma volta ao mesmo tempo que o nosso planeta, o que cria a ilusão de que está a orbitar-nos. É esta caraterística que lhe vale o título de "quase-satélite" ou "quasi-moon".
Um fragmento da Lua ou um asteroide comum?
O que torna o Kamo'oalewa verdadeiramente fascinante é o mistério da sua origem. Em 2021, uma equipa liderada pelo astrónomo Ben Sharkey, da Universidade do Arizona, usou telescópios no Arizona e descobriu que a luz refletida pelo asteroide correspondia à de rocha lunar alterada por exposição espacial — especificamente, amostras recolhidas pelas missões Apollo 14 e Luna 24. Em 2024, um estudo publicado na Nature Astronomy apontou mesmo para a cratera Giordano Bruno, no lado oculto da Lua, como a fonte provável do impacto que terá ejectado o fragmento.
Mas nem todos concordam. Um estudo de 2025 na Nature Communications reanalisou o mesmo espetro e concluiu que ele é igualmente consistente com meteoritos condritos LL, o tipo mais comum de meteoritos rochosos. Estatisticamente, explicou o professor Mikael Granvik, da Universidade de Helsínquia, é cerca de 10 vezes mais provável que o Kamo'oalewa venha da cintura de asteroides do que da Lua.
A única forma de resolver o debate é analisar a razão isotópica do oxigénio nas rochas do asteroide. A Terra e a Lua partilham uma assinatura isotópica praticamente idêntica e diferente de qualquer outro corpo do Sistema Solar. Essa medição exige amostras físicas num laboratório — e é exatamente isso que a Tianwen-2 vai buscar.
Três métodos de recolha para um asteroide imprevisível
A Tianwen-2 é a missão de recolha de amostras tecnicamente mais ambiciosa já enviada a um asteroide — em parte porque o Kamo'oalewa apresenta desafios que a OSIRIS-REx (NASA) e a Hayabusa2 (JAXA) não enfrentaram. Com uma rotação de 28 minutos, uma superfície completamente desconhecida e um diâmetro de apenas 40 a 100 metros, é o asteroide mais pequeno alguma vez visitado por uma missão de retorno de amostras.
Para lidar com o desconhecido, a sonda transporta três modos de recolha:
1. Touch-and-go (TAG): O método já testado pela NASA e JAXA — um disco com escovas acionadas por gás faz contacto breve com a superfície e recolhe rególito antes de a nave se afastar. É a opção de menor risco.
2. Hover sampling: A nave usa um braço robótico para recolher material enquanto flutua e acompanha a rotação do asteroide. A cientista planetária Christine Hartzell, da Universidade do Maryland, descreveu esta abordagem como a "mais arriscada": "É muito difícil gerir as forças de reação quando não há nada sólido contra o qual se apoiar."
3. Anchor-and-attach: O método mais inovador — quatro braços robóticos com brocas fixam-se diretamente à superfície do asteroide, segurando a nave para uma extração mais controlada e prolongada. Nunca foi tentado no espaço profundo. A sua utilização depende do que as câmaras revelarem sobre a superfície: se for um monólito sólido, funciona; se for um monte de cascalho solto, não.
A exploração espacial humana atingiu novos patamares nas últimas décadas. As missões robóticas como a Tianwen-2 preparam o caminho para os próximos passos da humanidade no Sistema Solar.
O silêncio de Pequim e os radioamadores que revelaram a verdade
Ao contrário das missões da NASA e da ESA, a CNSA (Agência Espacial Nacional Chinesa) não divulgou os dados orbitais da Tianwen-2, mantendo as efemérides em segredo. Quem confirmou que a sonda chegou ao asteroide foram os radioamadores da AMSAT-DL, na Alemanha e nos Países Baixos, que apontaram as suas antenas para as coordenadas do Kamo'oalewa e detetaram o sinal em banda X da nave. A manobra de inserção orbital a 7 de junho foi confirmada por estes observadores independentes semanas antes de qualquer comunicado oficial de Pequim.
O que vem a seguir
Após a aproximação a 20 km, a Tianwen-2 passará vários meses a mapear o asteroide com LiDAR, câmaras e radares de sondagem, a altitudes que descerão progressivamente de 20 km para 3 km, 600 m e finalmente 300 m. A recolha de amostras está prevista para os meses seguintes, usando o método que melhor se adequar à superfície encontrada.
A 24 de abril de 2027 — que coincide com o Dia Nacional do Espaço da China — a sonda partirá do asteroide. A 29 de novembro de 2027, a cápsula com as amostras separar-se-á da nave e reentrará na atmosfera terrestre a aproximadamente 12 km/s (cerca de 10% mais rápido que as cápsulas Apollo), aterrando no deserto de Gobi, perto do Centro de Lançamento de Jiuquan.
A exploração de asteroides como o Kamo'oalewa segue a tradição das missões robóticas a Marte e a outros corpos do Sistema Solar, cada vez mais ambiciosas na sua capacidade de recolher e devolver amostras à Terra.
Missão dupla: após a Terra, um cometa no cinturão principal
Depois de largar a cápsula, a Tianwen-2 não ficará parada. Usará a gravidade da Terra como catapulta para se redirecionar rumo ao cometa do cinturão principal 311P/PanSTARRS, onde deverá chegar em janeiro de 2035. Este corpo comporta-se simultaneamente como asteroide e como cometa, desenvolvendo caudas de poeira visíveis pelo Telescópio Espacial Hubble. A missão estendida servirá também como demonstração tecnológica para a Tianwen-4, a futura missão chinesa a Júpiter e à lua Calisto.
O Kamo'oalewa — cujo nome havaiano significa "fragmento celeste oscilante" — é o primeiro objeto com nome em havaiano a ser visitado por uma nave espacial. Em 2027, quando as amostras aterrarem no deserto de Gobi, poderão finalmente responder à pergunta que os cientistas debatem há cinco anos: estamos a olhar para um pedaço perdido da Lua ou para um viajante anónimo da cintura de asteroides?
Fontes: TechTimes (2 jul 2026), Forbes Brasil (1 jul 2026), Wikipedia, The Planetary Society (jun 2026), Scientific American (jun 2026), SpaceNews (jun 2026), Communic. Earth & Environment 2021, Nature Astronomy 2024, Nature Communications 2025.
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