No ano em que celebra 50 anos de existência, a EDP deixou claro o que não será: nuclear. O presidente executivo da maior elétrica portuguesa, Miguel Stilwell d'Andrade, foi direto ao ponto num encontro com jornalistas a propósito do cinquentenário da empresa: «Não me peçam para investir nisso [energia nuclear]. Acho que não faz sentido nenhum do ponto de vista de gestão e de investimento.»
Os três argumentos de Stilwell d'Andrade
O CEO da EDP não se ficou por uma negação genérica. Apresentou três razões concretas para a posição da empresa. Primeiro, o custo: «todos os projetos têm custado o dobro ou o triplo do orçamento inicial e demoraram o dobro ou o triplo do tempo que estava previsto.» Depois, o licenciamento: «Sabem a dificuldade que é licenciar um parquezinho solar. Imaginem uma central nuclear. Boa sorte», ironizou. Por fim, a dependência do Estado: são projetos que «exigem garantias do Estado», algo que a EDP, enquanto empresa cotada, não quer ter no seu balanço.
Stilwell d'Andrade fez questão de sublinhar que a posição não é ideológica — é de gestão. «Não tenho nada contra [a nuclear] enquanto engenheiro, mas enquanto gestor não faz sentido», explicou. A distinção é relevante: a EDP não está a fazer uma cruzada contra o átomo, está a dizer que, para o seu balanço e para os seus acionistas, o risco não compensa.
Onde é que a EDP vai meter o dinheiro então?
A resposta de Stilwell d'Andrade foi clara: solar, eólica (que classifica como tecnologia «premium»), baterias e bombagem hídrica. A bombagem, em particular, «faz imenso sentido em Portugal», disse, referindo-se à capacidade de armazenar energia nas barragens já existentes. O eventual projeto de Fridão — uma barragem com bombagem no Tâmega — foi mencionado como algo que «é preciso fazer as contas», dado o investimento «extremamente elevado».
O Governo pensa diferente
A posição da EDP contrasta com o discurso do Governo. A 28 de maio, o secretário de Estado Adjunto e da Energia, Jean Barroca, admitiu no Parlamento que a energia nuclear em Portugal «é uma conversa interessante para se começar a ter». A declaração, feita numa audição parlamentar, foi ecoada pelo Expresso e sinaliza que o executivo não descarta totalmente a hipótese nuclear no médio prazo.
A Euronews dedicou um artigo de fundo ao tema a 11 de março («Será a energia nuclear solução para a independência energética de Portugal?»), ouvindo especialistas que apontam os SMR (small modular reactors) como uma tecnologia que poderá fazer sentido para um país da dimensão de Portugal. Paris, Helsínquia e Estocolmo já estão a avançar com planos nucleares — mas a EDP, a maior empresa do setor em Portugal, diz que não.
O consumo dispara e o sistema estica
A recusa da EDP em investir em nuclear acontece numa altura em que o consumo de eletricidade em Portugal está a crescer «exponencialmente», nas palavras do próprio CEO. A culpa é dos centros de dados, que estão a instalar-se no país em força. O Público noticiou no mesmo dia que a EDP antevê uma «procura enorme» de energia nos próximos anos, alimentada pelos data centers que escolhem Portugal para a sua localização.
Esta procura crescente coloca uma pressão imensa no sistema elétrico nacional. Portugal já bateu recordes de incorporação de renováveis (71,2% em 2025, 80% em alguns meses de 2026), mas a intermitência da solar e da eólica exige soluções de armazenamento em escala. As baterias e a bombagem hídrica são as apostas da EDP — mas o Governo parece manter a porta entreaberta para o átomo.
A EDP nasceu em 1976 da fusão de 14 empresas elétricas regionalizadas. Cinquenta anos depois, é uma multinacional com presença em 19 países, 12 mil trabalhadores e uma capitalização bolsista superior a 20 mil milhões de euros. A decisão de fechar a porta ao nuclear não é uma opinião — é uma declaração estratégica que condiciona o futuro energético de Portugal. Resta saber se o Governo, que fala em nuclear como «conversa interessante», terá coragem de a ter sem a maior elétrica do país à mesa.
💬 Comentários
Nenhum comentário ainda. Sê o primeiro a comentar!