A 13 de julho de 2026, a General Fusion Group Ltd. começou a cotar no Nasdaq sob o ticker GFUZ. É, segundo a própria empresa e a cobertura da TechCrunch, a primeira companhia de fusão nuclear a entrar num grande mercado bolsista — à frente da rival TAE Technologies, ainda em processo de listagem. A operação resulta da combinação de negócios com a Spring Valley Acquisition Corp. III, um SPAC.
150 milhões de dólares para provar a máquina
A General Fusion declara entrar no mercado público com aproximadamente 150 milhões de dólares em caixa (cerca de 131 milhões de euros, à taxa de 21 de julho de 2026), incluindo o private placement e o capital do trust do SPAC. Esse envelope deve financiar o programa Lawson até marcos técnicos que a empresa quer fechar até 2028. A TechCrunch nota o detalhe típico dos de-SPAC: redemptions elevadas no trust — estimativas da imprensa canadiana apontam para menos de 30 milhões de dólares vindos do SPAC — compensadas por cerca de 108 milhões de dólares angariados em paralelo junto de investidores privados. O total comunicado pela empresa mantém-se nos ~150 milhões de dólares.
Fundada em 2002 e sediada em Vancouver, a General Fusion é uma das veteranas do setor privado. Diz ter realizado mais de 200.000 experiências de plasma ao longo de duas décadas. O CEO é Greg Twinney. A empresa foi ainda classificada em primeiro lugar na lista TIME dos World’s Top GreenTech Companies de 2026 — um reconhecimento de marca, não um certificado técnico de produção de eletricidade.
Protótipo MTF da General Fusion: pistões dispostos em torno da câmara central para compressão mecânica do plasma. Wikimedia Commons.
MTF e LM26: o que está mesmo no laboratório
A abordagem da empresa chama-se Magnetized Target Fusion (MTF). Em vez de supercondutores de grande escala ou lasers de alta potência, o desenho usa compressão mecânica de um liner de lítio em torno de um plasma magnetizado. A máquina de demonstração atual, Lawson Machine 26 (LM26), opera nas instalações de Vancouver a cerca de 50% do diâmetro comercial previsto. Foi concebida, construída e colocada em operação em menos de dois anos, segundo a empresa, com arranque no início de 2025.
O progresso técnico mais recente comunicado: aquecimento compressional do plasma até temperaturas eletrónicas de cerca de 0,72 keV — aproximadamente 8,4 milhões de graus Celsius — a caminho do marco intermédio de 1 keV (10 milhões de °C). Depois viria 10 keV (100 milhões de °C) e, por fim, o critério de Lawson no plasma: a combinação de densidade, temperatura e tempo de confinamento que permite ganho líquido de energia de fusão no plasma. Isto não é ainda uma central a injetar megawatts na rede. É um programa de des-risco científico e de engenharia, com metas de 2028 e uma ambição de primeira central «por volta de 2035» — formulação da própria empresa, não um calendário garantido.
Detalhe dos atuadores e da cablagem no protótipo MTF. A General Fusion evita supercondutores e lasers de alta potência, apostando em compressão mecânica. Wikimedia Commons.
O setor inteiro está a angariar como nunca
O IPO da General Fusion não acontece no vazio. O relatório Global Fusion Industry 2026 da Fusion Industry Association (FIA), coberto pela Power Technology a 15 de julho e pela World Nuclear News a 14 de julho, aponta um recorde: 4,48 mil milhões de dólares angariados nos 12 meses até julho de 2026 (cerca de 3,92 mil milhões de euros). O total acumulado desde 2021 sobe para 14,24 mil milhões de dólares (cerca de 12,47 mil milhões de euros). A FIA inquiriu 56 empresas — face a 23 em 2021.
Entre as rondas destacadas no relatório: Commonwealth Fusion Systems com 863 milhões de dólares (agosto de 2025); Proxima Fusion com 518 milhões (julho de 2026, cerca de 454 milhões de euros); Helion Energy com 465 milhões (junho de 2026); e Inertia Enterprises com 450 milhões (fevereiro de 2026). O relatório regista ainda, pela primeira vez, acordos de siting e power purchase agreements (PPA) no setor — com a procura energética dos centros de dados a ser citada como acelerador de offtake por empresas como Microsoft e Google noutros contratos de fusão.
Itália no mapa — e o que o ticker não prova
Do lado comercial, a General Fusion assinou um framework agreement com a Renexia S.p.A. (grupo Toto) para avançar um eventual deployment em Itália — um acordo por marcos, não uma encomenda de megawatts. No dia da estreia, a ação GFUZ chegou a subir na ordem dos 40% face ao preço de referência reportado pela TechCrunch, sinal de apetite especulativo por um setor que ainda não vende eletricidade de fusão.
Para o leitor: GFUZ é um marco de capital e de transparência pública, não a prova de que a fusão comercial chegou. O que está verificado é a listagem, o envelope de caixa declarado, o estado da LM26 e o boom de investimento setorial medido pela FIA. O resto — Lawson em 2028, central em 2035 — continua no domínio das metas.
We bring more than 20 years of real-world testing, demonstration, and results to the development of commercial fusion energy. We are excited about this next chapter.
— Greg Twinney, CEO da General Fusion (comunicado de 13 de julho de 2026)
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