Os robôs humanoides deixaram de ser experiências de laboratório e estão a entrar na produção industrial em escala real. A Figure AI, uma startup californiana fundada em 2022 por Brett Adcock (o mesmo fundador da Archer Aviation), acaba de cruzar um marco que separa os projetos de investigação dos fabricantes a sério: a sua fábrica BotQ produz agora um robô Figure 03 por hora — um salto de 24 vezes em menos de quatro meses.
De 1 por dia a 1 por hora: a fábrica que fabrica robôs
Até ao início de 2026, a BotQ funcionava como uma unidade de prototipagem, com ciclos de produção lentos e muito trabalho manual. Em 120 dias, a equipa de manufacturing da Figure transformou a fábrica numa linha de montagem de alto rendimento: 150+ estações de trabalho em rede, software de execução de fabrico personalizado, 50+ pontos de inspeção ao longo da linha e controlo de qualidade apertado junto dos fornecedores.
O resultado são mais de 350 unidades do Figure 03 já entregues, uma cadência de 1 robô por hora e uma capacidade instalada de 12.000 unidades/ano — com o objetivo de chegar às 50.000/ano. Os números de qualidade são impressionantes para uma indústria tão jovem: rendimento de primeira passagem acima de 80%, produção de baterias com 99,3% de yield, e mais de 9.000 atuadores fabricados em 10 variantes diferentes. Cada robô é submetido a mais de 80 testes funcionais, incluindo exercícios de stress como agachamentos e corrida, para eliminar falhas precoces.
Robôs Figure 03 na linha de produção da fábrica BotQ, na Califórnia. Cada unidade sai ao ritmo de 1 por hora, 24 horas por dia. Fonte: Figure AI.
Do laboratório para a linha de montagem: 30.000 BMW X3
O grande teste do mundo real aconteceu na fábrica da BMW em Spartanburg, na Carolina do Sul — a maior fábrica da BMW no mundo, com mais de 400.000 veículos/ano. Durante 11 meses, o modelo anterior, Figure 02, trabalhou na body shop a inserir painéis de chapa metálica para soldadura, ajudando a produzir mais de 30.000 unidades do BMW X3. A tarefa, que exige precisão milimétrica e velocidade, foi executada sem incidentes.
"A nossa implementação de 11 meses do Figure 02 provou que os humanoides já não são experiências de laboratório — podem ser um ativo valioso para criar uma força de trabalho de produção flexível e fiável", afirmou Brett Adcock, CEO da Figure AI.
Figure 03 sobe de nível: mãos tácteis, carga sem fios e trabalho em logística
O novo Figure 03 traz melhorias substanciais em relação ao antecessor. As mãos foram redesenhadas com sensores tácteis e câmaras nas palmas, permitindo uma manipulação muito mais fina. O corpo recebeu componentes exteriores macios para segurança junto de trabalhadores humanos. A bateria carrega sem fios, maximizando o tempo operacional. E o robô ganhou comunicação speech-to-speech para interagir naturalmente com os operadores da linha.
A BMW moveu o Figure 03 da body shop para a logística do Hall 52, o edifício de montagem que produz o X3 e, no futuro, o elétrico iX5. Agora o robô faz sequenciação de peças: componentes que chegam em contentores não-sorted são apanhados, organizados e colocados em trolleys de sequenciação, que seguem por transportes autónomos até à linha de montagem — entregando as peças "just in sequence" aos trabalhadores.
Figure 03 a trabalhar na fábrica da BMW em Spartanburg, Carolina do Sul. O robô faz sequenciação de peças em logística após o Figure 02 ter produzido 30.000+ BMW X3 na body shop. Fonte: BMW Group.
Helix S0: o cérebro que vê o que pisa
Paralelamente ao avanço na produção, a Figure atualizou o seu modelo de IA Helix System 0 (S0) com controlo corporal condicionado por perceção visual. O sistema usa as câmaras stereo do robô para construir uma representação 3D do terreno em tempo real, permitindo navegar escadas, rampas e superfícies irregulares sem programação específica para cada tarefa. O modelo foi treinado com reinforcement learning em simulação e transferido diretamente para os robôs físicos sem ajustes no mundo real — um marco importante para a autonomia.
O contexto: a corrida à produção de humanoides
A Figure AI não está sozinha nesta corrida. A Tesla prepara o Optimus Gen 3 para produção em baixo volume em Fremont (target Late Jul-Ago 2026). A Unitree (China) já vende o G1 por $16.000 e produziu 5.500+ unidades em 2025. A norueguesa 1X abriu pré-reservas do NEO, o primeiro humanoide doméstico, por $20.000 ou $499/mês de subscrição. Mas a Figure distingue-se por ter um cliente industrial real (BMW) a validar os robôs em produção — e por ter fabricado mais de 350 unidades num ano em que a maioria dos concorrentes ainda conta pilotos pelos dedos.
Com mais de mil milhões de dólares em funding (Series C a $39 mil milhões de valuation, com NVIDIA, Intel Capital, Qualcomm Ventures, Brookfield, Salesforce e T-Mobile a bordo), a Figure AI promete 100.000 humanoides nos próximos quatro anos. Se a BotQ continuar a acelerar, o número de robôs a trabalhar ao lado de humanos nas fábricas vai crescer muito mais depressa do que a maioria das pessoas espera.
Cada robô que sai da linha BotQ é mais do que hardware — é um motor de recolha de dados, uma ferramenta de desenvolvimento e uma unidade de implantação comercial ao mesmo tempo.
— Brett Adcock, CEO da Figure AI
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