Berlim fez o que muitos achavam impensável: cancelou o programa de fragatas F126, o maior contrato de construção naval militar desde o fim da Segunda Guerra Mundial. A decisão, tornada pública a 24 de junho de 2026, põe fim a seis anos de atrasos, custos descontrolados e negociações falhadas com estaleiros europeus. A Marinha Alemã, que precisa urgentemente de capacidade antissubmarino para cumprir compromissos com a NATO, vai receber em vez disso oito fragatas MEKO A-200 DEU, um design já testado internacionalmente.
O programa que prometia ser a espinha dorsal da Deutsche Marine
O programa F126 arrancou em 2020 com um orçamento de aproximadamente 10 mil milhões de euros para a construção de seis fragatas de 10.550 toneladas, nave-mãe de 152 metros, capazes de operar em missões expedicionárias de longa duração. O estaleiro neerlandês Damen Schelde Naval Shipbuilding venceu o concurso, prometendo entregar a primeira unidade em 2027. Seriam os maiores navios de superfície construídos para a Alemanha desde os encouraçados da Primeira Guerra Mundial.
Mas os problemas começaram cedo. A complexidade técnica do projeto, combinada com a inflação pós-pandemia e exigências operacionais cada vez maiores, fez os custos dispararem. Em 2025, o Ministério da Defesa alemão explorou transferir o contrato para a Naval Vessels Lürssen, grupo recém-adquirido pela Rheinmetall. As contas não fecharam: mesmo com Lürssen, o programa custaria 15,2 mil milhões de euros. Somados os trabalhos já executados pela Damen e os acordos logísticos, o valor total ultrapassava os 18 mil milhões de euros — quase o dobro do orçamento inicial.
Perante este cenário, Berlim tombou o machado. A 24 de junho de 2026, o Ministério da Defesa anunciou o cancelamento definitivo do F126. A Alemanha já tinha gasto cerca de 2,3 mil milhões de euros no programa sem receber uma única fragata operacional.
A decisão que abalou a indústria europeia de defesa
O impacto foi imediato. As ações das empresas ligadas ao setor de defesa naval despencaram nos mercados europeus. O Financial Times noticiou que o cancelamento do F126 representa o maior colapso de um programa naval na Europa desde a Guerra Fria. A Damen, estaleiro original, viu-se excluída de um dos maiores contratos da sua história. O grupo Lürssen/Rheinmetall, que chegou a negociar a assunção do programa, ficou igualmente de fora.
Para a ThyssenKrupp Marine Systems (TKMS), a decisão foi um balão de oxigénio. A empresa germânica, sediada em Kiel, foi escolhida para fornecer oito fragatas MEKO A-200 DEU, um design modular de 121 metros e 3.900 toneladas, já testado em várias marinhas do mundo — África do Sul, Argélia, Egito, Portugal (as fragatas da classe Bartolomeu Dias são MEKO A-200). O pacote total está avaliado em 11,6 mil milhões de euros: 6,3 mil milhões para as primeiras quatro unidades, com opção para mais quatro por 5,3 mil milhões, exequível até ao final de 2026.
Uma fragata mais pequena para um mundo maior
A comparação entre as duas classes é esclarecedora. Onde a F126 prometia 10.550 toneladas de deslocamento e 152 metros de comprimento, a MEKO A-200 fica-se pelas 3.900 toneladas e 121 metros — menos de metade do porte. A F126 teria um lançador vertical Mk 41 de 32 células (expansível a 64), enquanto a A-200 tem 16 células para mísseis ESSM. Em compensação, a A-200 é uma plataforma comprovada, com custos previsíveis e prazos de entrega realistas: a primeira unidade deverá ser entregue a partir de 2029.
A escolha reflete uma mudança estratégica profunda: a Alemanha trocou a ambição tecnológica pela viabilidade financeira e operacional. As fragatas F125, entregues entre 2019 e 2022, já tinham demonstrado que designs demasiado ambiciosos podem gerar navios tecnicamente problemáticos — as F125 estiveram anos sem ser plenamente operacionais devido a falhas de software e estabilidade. Berlim aprendeu a lição.
O que significa para Portugal e para a NATO
Portugal opera fragatas MEKO A-200 desde 2009 (classe Bartolomeu Dias, ex-Marinha Neerlandesa, com 3.750 toneladas e 122 metros). A decisão alemã de apostar na mesma plataforma significa que a TKMS manterá a linha de produção ativa por mais anos, o que poderá traduzir-se em melhores condições de suporte logístico e disponibilidade de peças para a Marinha Portuguesa. Além disso, a presença de um cliente do peso da Alemanha valida o design MEKO A-200 como padrão NATO para guerra antissubmarino, facilitando interoperabilidade entre aliados.
Para a NATO, a decisão alemã é uma faca de dois legumes. Por um lado, a Marinha Alemã terá fragatas antissubmarino operacionais mais cedo — as F126 nunca chegariam antes de 2031, enquanto as primeiras MEKO A-200 DEU poderão estar ao mar em 2029. Por outro, a perda de capacidade face ao design original (menos células de lançamento vertical, menos deslocamento, menor autonomia) reduz a contribuição alemã para a defesa coletiva no Atlântico Norte, numa altura em que a atividade submarina russa não para de aumentar.
O Bundestag terá ainda de aprovar o financiamento, mas a Comissão de Finanças já foi informada e o almirantado deu o seu aval. O que parecia impensável há um ano — enterrar 2,3 mil milhões de euros e recomeçar do zero — tornou-se a opção mais sensata. Numa Europa que promete rearmar-se, a Alemanha acaba de demonstrar que até os maiores programas podem falhar. A questão que fica é: quantos mais estão a caminho do mesmo destino?
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