Há mais de 100 mil milhões de euros em projetos de energia renovável parados à espera de ligação à rede elétrica europeia. A culpa não é da falta de sol ou vento — é de uma infraestrutura envelhecida, desenhada para o carvão e o gás, que não acompanhou a revolução energética. E Portugal, encalhado no canto sudoeste da Europa como uma «ilha energética», é um dos casos mais emblemáticos deste paradoxo.
O número é difícil de ignorar: 375 gigawatts (GW) de projetos de energia limpa e 455 GW de baterias de armazenamento estão presos em filas de espera nas redes de distribuição de eletricidade em oito países europeus. O valor, revelado por um estudo da consultora AFRY para a organização Beyond Fossil Fuels, representa mais de 100 mil milhões de euros em investimentos que não conseguem produzir um único quilowatt-hora. Para perceber a escala: uma central de 1 GW a funcionar ininterruptamente durante um ano pode abastecer cerca de 876 mil habitações. Estamos a falar de 375 vezes isso — parado.
O que está a falhar?
A rede elétrica europeia foi construída ao longo do século XX à volta de grandes centrais a carvão e, mais tarde, a gás — instalações centralizadas, próximas dos centros de consumo, que injetavam eletricidade de forma previsível e constante. As energias renováveis são o oposto: os melhores locais para painéis solares e turbinas eólicas são remotos — desertos, colinas ventosas, plataformas offshore. A eletricidade que produzem é intermitente (depende do tempo) e viaja centenas de quilómetros até chegar a casa das pessoas. As redes de distribuição, geridas por operadores locais (DSOs), não foram dimensionadas para esta realidade.
A tentativa de ligar projetos de energia renovável tornou-se uma verdadeira corrida de obstáculos. Os maiores desafios são os sistemas administrativos dos operadores de rede, que são lentos e difíceis de navegar.
Na Alemanha, uma comunidade energética espera há mais de dois anos para ligar painéis solares num complexo habitacional — apesar de já ter o investimento garantido. No Reino Unido, a cooperativa Together Housing queria instalar 1500 bombas de calor por ano para reduzir as faturas dos inquilinos, mas «o progresso está a ser limitado por operadores de rede subdimensionados e capacidade de rede insuficiente», diz Gemma Voaden, responsável da organização.
O paradoxo
A ironia é que a Europa nunca produziu tanta energia renovável. Em 2025, a redução das importações de petróleo e gás graças às renováveis poupou 51 mil milhões de euros ao bloco comunitário. Ainda assim, 29% do mix elétrico europeu continua a vir de combustíveis fósseis. O problema não é a produção — é o transporte.
Sem reformas de governação e operacionais, o potencial renovável da Europa será sufocado, não por falta de ambição ou investimento, mas por constrangimentos nas próprias redes que deviam distribuí-lo.
Produzir energia limpa já não é o problema. O problema é levá-la a casa das pessoas. Crédito: Bernd Dittrich/Unsplash
O drama ibérico: uma ilha energética na Europa
Se a situação é preocupante no conjunto da Europa, na Península Ibérica atinge contornos de emergência silenciosa. Portugal e Espanha formam aquilo a que os especialistas chamam uma «ilha energética» — um sistema altamente integrado entre si, mas com uma capacidade de interconexão com o resto da Europa de apenas 2% (contra os 10% recomendados pela UE para 2020 e os 15% para 2030).
A razão é geográfica e política. A cordilheira dos Pirenéus funciona como barreira natural entre Espanha e França. Mas a verdadeira barreira é política: a França tem resistido sistematicamente a novas ligações, argumentando que os custos de reforço da sua própria rede seriam «muito significativos» — pelo menos 2,6 mil milhões de euros, segundo o regulador francês CRE. O único cabo em construção — um cabo submarino no Golfo da Biscaia, em corrente contínua — não resolve o problema. «Esta tecnologia, no estado atual de implementação, não reduz o risco de apagão, nem aumenta a segurança dinâmica da nossa rede», explica José Luís Pinto de Sá, professor jubilado do Instituto Superior Técnico.
O apagão que (não) serviu de lição
A 28 de abril de 2025, a Península Ibérica sofreu o pior apagão da sua história. Quase 60 milhões de pessoas ficaram sem eletricidade durante várias horas. A rede não aguentou. Na altura, o apagão expôs a vulnerabilidade da «ilha energética»: em caso de emergência, a capacidade limitada de importar energia de França deixou Portugal e Espanha entregues a si próprios. E apesar de 75% do consumo espanhol naquele momento vir de renováveis, o sistema não conseguiu lidar com as oscilações que levaram ao colapso. Passou mais de um ano. As ministras da Energia de Portugal e Espanha escreveram cartas a exigir «prazos concretos e compromissos vinculativos» a França. A resposta foi a mesma: «não é claro que mais interconexões teriam permitido um melhor funcionamento».
Baterias: a solução que também está presa na fila
Uma das respostas mais promissoras para aliviar a pressão sobre a rede é o armazenamento em baterias. A frota de baterias da UE cresceu dez vezes desde 2021, atingindo mais de 77 GWh de capacidade. Mas, segundo o relatório da AFRY, a capacidade de projetos de baterias presos em filas de espera na Alemanha, Reino Unido e Polónia já excede o dobro das metas nacionais para 2030. Ou seja: até a solução para o congestionamento está congestionada.
O plano europeu (e as suas falhas)
Em dezembro de 2025, a Comissão Europeia apresentou o European Grids Package — um pacote que promete 1,2 biliões de euros em investimento na rede até 2040 e mais de 500 GW de nova capacidade renovável. O plano inclui oito «autoestradas energéticas» estratégicas para resolver os bottlenecks críticos, entre os quais a ligação através dos Pirenéus para integrar a Península Ibérica. Mas as organizações ambientais e os analistas são céticos. «O pacote não aborda completamente os bottlenecks ao nível da distribuição», diz a Beyond Fossil Fuels.
A Comissão Europeia promete 1,2 biliões de euros para modernizar a rede, mas os críticos dizem que o plano não resolve os problemas ao nível da distribuição. Crédito: P Anosh/Unsplash
O que isto significa para os Portugueses
Portugal é, paradoxalmente, um dos países com a eletricidade mais limpa da Europa. A Agência Internacional de Energia (AIE) descreve a «intensidade carbónica da produção de eletricidade em Portugal» como «das mais baixas entre os países membros». Em junho de 2026, num dia típico, as renováveis representaram 86% da produção nacional. Mas este sucesso na produção esconde um atraso na distribuição. Enquanto isso, mais de 600 mil pessoas vivem em situação de pobreza energética severa em Portugal, e entre 1,8 a 3 milhões têm dificuldade em manter a casa quente no inverno. A energia limpa existe. O que falta é a rede que a traga a casa.
Conclusão
A transição energética europeia está a ser travada não por falta de ambição, tecnologia ou investimento em renováveis — mas por uma infraestrutura de rede do século XX que não consegue escoar a energia do século XXI. O caso da Península Ibérica é o mais gritante: temos sol, temos vento, temos rios, temos uma das eletricidades mais limpas do mundo. Mas estamos isolados, dependentes de uma França que não quer pagar a conta para nos ligar ao resto da Europa, e com uma rede interna que já não aguenta o volume de energia limpa que produzimos. Resolver este problema não é uma questão de tecnologia — é de vontade política, coordenação europeia e investimento maciço em infraestruturas.
Feito por humanos — Portugal Binário
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