Todos os anos, o World Economic Forum (WEF) — a organização por detrás do Fórum de Davos — publica a sua lista das 10 tecnologias emergentes que estão a atravessar o limiar entre a investigação laboratorial e o impacto real no mundo. A edição de 2026, lançada a 23 de junho na reunião anual dos 'Novos Campeões' em Dalian, na China, sob o tema Innovating at Scale, não é uma coleção de gadgets futuristas. É um retrato das inovações que, silenciosamente, atingiram o ponto de maturação em que empresas começam a investir, a ciência saiu do laboratório e o impacto se torna plausível.
O relatório, compilado pelo WEF em colaboração com a Dubai Future Foundation e a editora científica Frontiers, analisa as condições atuais que permitirão a estas tecnologias evoluir e escalar até 2031. Foram selecionadas pela sua novidade, desenvolvimento e potencial impacto, através de um processo rigoroso que envolve dezenas de cientistas e inovadores de topo mundial. O resultado são três clusters tecnológicos que, lidos em conjunto, contam uma história de convergência.
🔋 Energy Backbone — a nova arquitetura da energia
Três das dez tecnologias escolhidas pelo WEF agrupam-se em torno da energia. Nenhuma é espetacular. Todas são fundacionais.
1. Everything-to-Grid: todos fornecedores, todos consumidores
O conceito de Everything-to-Grid (X2G) — ou 'tudo-à-rede' — inverte a lógica tradicional do sistema elétrico. Em vez de edifícios, veículos, fábricas e até centros de dados serem apenas consumidores passivos de energia, o X2G transforma-os em participantes ativos, capazes de armazenar, devolver e até comercializar energia em tempo real com a rede elétrica. Um carro elétrico estacionado pode vender energia à rede durante as horas de pico. Um centro de dados pode ceder o seu excesso térmico para aquecer bairros inteiros. Uma fábrica com painéis solares no telhado pode fornecer o excedente ao vizinho. Segundo o WEF, esta mudança de paradigma pode melhorar drasticamente a resiliência energética e redefinir o próprio conceito de energia renovável.
O modelo Everything-to-Grid transforma edifícios, veículos e fábricas em nós ativos da rede elétrica — consumidores e fornecedores em simultâneo. As cidades inteligentes são o laboratório natural desta revolução.
2. Passive Radiative Cooling: arrefecer sem gastar energia
Uma das tecnologias mais inteligentes e mais simples da lista: os materiais de arrefecimento radiativo passivo. São revestimentos especiais que libertam o calor absorvido através de uma banda estreita de radiação infravermelha que escapa diretamente para o espaço, sem aquecer a atmosfera. O resultado é que uma superfície revestida com estes materiais pode manter-se até 6°C mais fria do que a temperatura ambiente sem consumir um único watt de eletricidade. Não precisa de ventoinhas, compressores ou sistemas de ar condicionado. Aplicações possíveis: telhados de edifícios em cidades com ondas de calor cada vez mais frequentes, contentores de transporte de alimentos e medicamentos, e até vestuário. Empresas como a SkyCool Systems já comercializam painéis de arrefecimento radiativo, e vários institutos de investigação estão a desenvolver tintas e filmes aplicáveis a qualquer superfície.
3. Direct Lithium Extraction: lítio em horas, não em meses
A procura global de lítio — o mineral crítico para baterias de veículos elétricos e armazenamento de energia renovável — está a crescer a um ritmo vertiginoso. O método tradicional de extração, por evaporação de salmouras em grandes lagoas, consome imensa água e demora meses ou até anos. A Extração Direta de Lítio (DLE) utiliza materiais especializados que filtram o lítio da salmoura em horas, consumindo uma fração da água e ocupando muito menos espaço. O relatório do WEF sublinha que a DLE não só reduz o tempo de produção como também diminui o custo dos dispositivos que usam lítio e minimiza o dano ambiental. Empresas como a Eramet e a Livent já estão a escalar a tecnologia, com projetos-piloto na Argentina e nos Estados Unidos.
A procura de lítio para baterias de veículos elétricos disparou. A extração direta de lítio (DLE) pode reduzir o tempo de produção de meses para horas, com menor consumo de água e menor pegada ambiental.
🧬 Biological Turn — a medicina e os materiais ao nível molecular
O segundo grupo da lista do WEF é o mais íntimo. Quatro tecnologias que operam ao nível biológico e molecular, desde a destruição de químicos eternos até vacinas feitas à medida do genoma de cada doente.
4. PFAS Destruction: o fim dos 'químicos eternos'
Os PFAS (substâncias perfluoroalquiladas e polifluoroalquiladas) são conhecidos como 'forever chemicals' — químicos eternos — porque as suas ligações carbono-fluor são tão fortes que não se degradam no ambiente. Usados em panelas antiaderentes, embalagens de comida, espuma de combate a incêndios e centenas de outros produtos, os PFAS acumulam-se no solo, na água e no corpo humano, estando associados a cancro, problemas de fertilidade e supressão do sistema imunitário. Agora, várias equipas científicas desenvolveram métodos para destruir PFAS de forma definitiva, incluindo processos de degradação química com plasma, pirólise e reações com hidróxido de sódio a altas temperaturas. Uma das abordagens mais promissoras, publicada na Nature em 2025, consegue quebrar as ligações carbono-fluor usando um solvente simples e temperatura moderada. A inclusão desta tecnologia na lista do WEF é um caso claro de como as inovações de ontem criam os problemas de hoje — e de como a ciência está a correr para os resolver.
5. Precision Fermentation: micróbios como fábricas
A fermentação de precisão usa microrganismos geneticamente modificados — leveduras, bactérias, fungos — como minúsculas fábricas biológicas para produzir proteínas, gorduras, vitaminas, enzimas e até materiais. A técnica não é nova (a insulina produzida por fermentação de precisão salva vidas desde os anos 80), mas nos últimos anos a capacidade de programar micróbios disparou com a biologia sintética e a edição genética CRISPR. Hoje, empresas como a Perfect Day produzem proteínas do leite sem vacas, a Clara Foods fabrica claras de ovo sem galinhas e a Geltor produz colagénio e elastina para cosméticos — tudo por fermentação microbiana. A promessa? Produzir comida e materiais com uma fração da terra, água e energia dos métodos tradicionais.
6. Exosome Drug Delivery: a entrega ao nível celular
Os exossomas são pequeníssimas vesículas — bolhas — que as células libertam naturalmente para comunicar entre si. Durante anos foram considerados 'lixo celular', mas a ciência descobriu que são transportadores sofisticados de proteínas, lípidos e material genético. Agora, empresas de biotecnologia estão a aprender a projetar exossomas como veículos de entrega de fármacos, capazes de levar medicamentos diretamente a células específicas — como células tumorais — sem afetar as saudáveis. A vantagem sobre os métodos tradicionais (lipossomas, nanopartículas sintéticas) é que os exossomas são naturais, não desencadeiam respostas imunitárias e conseguem atravessar barreiras biológicas que os fármacos convencionais não conseguem, incluindo a barreira hematoencefálica. Empresas como a Codiak BioSciences e a Evox Therapeutics já têm candidatos em ensaios clínicos para cancro e doenças neurológicas.
7. Personalized mRNA Cancer Vaccines: o princípio do fim do cancro?
Se a tecnologia mRNA conquistou o mundo com as vacinas contra a COVID-19, o seu verdadeiro potencial pode estar no cancro. As vacinas mRNA personalizadas contra o cancro funcionam assim: os médicos sequenciam o tumor de um doente, identificam as mutações específicas, e desenham uma vacina mRNA feita à medida que ensina o sistema imunitário a reconhecer e atacar exatamente aquelas células cancerígenas. Ao contrário da quimioterapia, que mata tudo indiscriminadamente, a vacina é uma espécie de 'treino militar' do sistema imunitário contra o invasor certo.
As vacinas mRNA personalizadas contra o cancro ensinam o sistema imunitário a reconhecer as mutações específicas de cada tumor — uma abordagem radicalmente diferente da quimioterapia.
Os resultados dos primeiros ensaios clínicos são notáveis. Num ensaio da Merck & Moderna para melanoma em estádio avançado, a combinação da vacina mRNA-4157 com o fármaco Keytruda reduziu o risco de recidiva em 65% comparado com Keytruda isolado. A NPR reportou em junho de 2026 que os doentes tratados com vacinas personalizadas estão a sobreviver muito além do esperado. Ensaios para cancro do pâncreas, pulmão e ovário estão em curso. Como disse Stephan Mergenthaler, managing director do WEF: «Cada uma destas tecnologias tem potencial para um impacto significativo, mas juntas contam uma história mais ampla sobre para onde a inovação caminha.»
⚙️ Compute Layer — a infraestrutura invisível do futuro
O terceiro cluster da lista é o mais silencioso — e talvez o mais transformador. Três tecnologias que funcionam como infraestrutura de computação para tudo o resto.
8. Quantum Simulation for Drug Discovery: modelar o impossível
Há doenças que são consideradas 'não tratáveis' não porque não existam moléculas que possam curá-las, mas porque simular a interação entre essas moléculas e as proteínas humanas é computacionalmente impossível para os computadores clássicos. A simulação quântica promete mudar isto. Ao contrário dos computadores quânticos de uso geral — que ainda estão a anos de distância — os simuladores quânticos são dispositivos especializados que modelam interações moleculares com uma precisão que os melhores supercomputadores não conseguem igualar. Empresas como a IBM, Google Quantum AI e a finlandesa IQM já estão a trabalhar com farmacêuticas para usar simulação quântica na descoberta de novos fármacos para doenças como o Alzheimer, Parkinson e vários tipos de cancro.
9. AI World Models: máquinas que aprendem física como crianças
Os atuais sistemas de IA são especialistas em padrões, mas falham redondamente na compreensão do mundo físico. Um modelo de linguagem sabe descrever uma chávena a cair, mas não sabe prever que ela se vai partir ao bater no chão. Os AI World Models — modelos de mundo — tentam resolver exatamente isso: dar às máquinas uma compreensão intuitiva da realidade física, aprendendo pela experiência, da mesma forma que uma criança aprende a gravidade muito antes de estudar física. Empresas como a OpenAI (com o seu modelo Sora), DeepMind (com Genie) e World Labs (fundada por Fei-Fei Li) estão a treinar modelos que simulam o mundo físico — com aplicações que vão desde robótica e veículos autónomos até à simulação industrial e videojogos. O WEF identifica esta área como uma das mais transformadoras da próxima década.
10. Lattice-Based Cryptography: a criptografia que resiste a computadores quânticos
Chama-se Q-Day ao momento — que muitos especialistas acreditam estar a 5-10 anos de distância — em que um computador quântico suficientemente potente conseguirá quebrar toda a criptografia assimétrica que protege as nossas comunicações, transações bancárias, dados de saúde e infraestruturas críticas. A criptografia baseada em retículos (lattice-based cryptography) é a principal candidata a sucessora da criptografia atual. Baseia-se em problemas matemáticos complexos — grelhas multidimensionais chamadas retículos — que são tão difíceis de resolver que nem um computador quântico consegue quebrá-los. O Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia dos EUA (NIST) já selecionou algoritmos baseados em retículos como padrão pós-quântico, e empresas como a IBM, Google e Cisco já começaram a migrar os seus sistemas para esta nova geração de criptografia.
A criptografia baseada em retículos substituirá os atuais padrões RSA e ECC antes que os computadores quânticos os tornem obsoletos — uma corrida contra o relógio.
Convergência: o que une as 10 tecnologias
O que torna a lista de 2026 especial não são as tecnologias individuais, mas a forma como se combinam. A simulação quântica acelera a descoberta de novos materiais, que por sua vez melhoram as baterias de lítio, que alimentam os veículos elétricos que participam na rede everything-to-grid. A fermentação de precisão produz proteínas, enquanto os modelos de mundo da IA otimizam as fábricas onde essas proteínas são feitas. As vacinas mRNA personalizadas tratam doentes, e a criptografia pós-quântica protege os dados genéticos desses mesmos doentes.
«Cada uma destas tecnologias tem potencial para fazer uma diferença significativa por si só», afirmou Stephan Mergenthaler, managing director do WEF. «Mas juntas contam uma história mais ampla sobre para onde a inovação caminha. Estas inovações podem desafiar pressupostos antigos sobre como usamos a tecnologia para enfrentar alguns dos desafios mais prementes do mundo — desde a insegurança alimentar às alterações climáticas e doenças incuráveis.»
Frederick Fenter, chief editor da Frontiers, acrescentou: «Compreender quais as tecnologias que se aproximam de um verdadeiro ponto de inflexão exige acesso à melhor evidência científica disponível. Essa base comum é fundamental para identificar e desenvolver inovações que possam trazer benefícios duradouros à sociedade.»
O relatório completo Top 10 Emerging Technologies of 2026 está disponível no site do World Economic Forum. Como todos os anos, o valor real da lista não está nas previsões, mas no convite a prestar atenção — a seguir estas tecnologias à medida que avançam e a perguntar não só o que tornam possível, mas que tipo de futuro assumem silenciosamente.
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