Num mundo onde a desinformação viaja mais depressa do que a verdade, a diferença entre conter uma mentira e deixá-la tornar-se viral é muitas vezes uma questão de minutos. É precisamente esta corrida contra o tempo que o VEREFY quer encurtar — um algoritmo baseado em inteligência artificial, 100% Português, que consegue prever quais as narrativas falsas com maior probabilidade de se espalharem antes mesmo de o fazerem.
Desenvolvido por Filipe Altoe e Sérgio Pinto, do Instituto Superior Técnico e do INESC-ID, o VEREFY foi o grande vencedor da 10.ª edição do Lab2Market@Técnico, um programa de aceleração que transforma tecnologias académicas em negócios de mercado. Pela vitória, a equipa recebeu o Prémio António Brandão de Vasconcelos, no valor de cinco mil euros.
O VEREFY permite que os fact-checkers recebam informação preditiva e atempada, para atuarem antes de a opinião pública ser influenciada.
— Filipe Altoe e Sérgio Pinto, Técnico/INESC-ID
Como funciona o VEREFY
O algoritmo analisa padrões de propagação de conteúdos nas redes sociais, identificando características que tornam determinadas narrativas mais propensas a tornar-se virais. Em vez de esperar que uma mentira já esteja a espalhar-se para a detetar — a abordagem tradicional dos fact-checkers — o VEREFY atua a montante, sinalizando quais os conteúdos que merecem atenção prioritária.
A ferramenta foi desenhada para ser usada por fact-checkers profissionais, jornalistas e plataformas digitais. Ao identificar precocemente os focos de desinformação com maior potencial de dano, permite uma intervenção mais rápida e eficaz — antes que a narrativa falsa se enraíze na opinião pública.
Lab2Market: 10 anos a transformar ciência em negócio
O Lab2Market@Técnico é um programa de aceleração promovido pelo Instituto Superior Técnico em colaboração com a NTT Data e a i-Deals. O objetivo é capacitar equipas de estudantes, investigadores e docentes para transformar soluções tecnológicas desenvolvidas em contexto académico em modelos de negócio sustentáveis e orientados para o mercado.
O VEREFY não estava sozinho na final. Concorreram também o DEXUM (que combina realidade virtual e escultura em argila digital para diagnóstico de défices motores e cognitivos, em parceria com a Fundação Champalimaud), o Embedded AI (algoritmos de aprendizagem automática em sistemas de baixo consumo energético) e o Sheep4wall (material de isolamento térmico produzido a partir de lã reutilizada para construção sustentável, desenvolvido pelo CERIS).
Ao longo dos seus 10 anos, o Lab2Market já gerou spin-offs de sucesso como a BreastScreening-AI (tecnologia de IA para rastreio do cancro da mama), a Lampsy Health (dispositivo médico para deteção em tempo real de crises epiléticas) e a RTBeamTech (sistema de monitorização de feixe para radioterapia FLASH).
O contexto Português e global
Portugal tem um ecossistema crescente de investigação em IA e combate à desinformação. O INESC-ID, laboratório associado ao Técnico, é um dos centros de investigação mais produtivos do país nas áreas de sistemas de informação, segurança e inteligência artificial. O VEREFY junta-se a um conjunto de ferramentas Portuguesas que procuram responder a um problema global: a desinformação custa à economia global cerca de 78 mil milhões de dólares por ano (68,5 mil milhões de euros, ao câmbio atual) em perda de produtividade, danos reputacionais e impactos sociais.
Numa altura em que as eleições, a pandemia e os conflitos geopolíticos são palco de campanhas de desinformação cada vez mais sofisticadas — muitas delas alimentadas por IA generativa —, ter uma ferramenta que antecipa o que vai viralizar é mais do que uma inovação: é uma peça de defesa democrática. E é Portuguesa.
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