O Reino Unido vai gastar mais de £5 mil milhões (cerca de €5,9 mil milhões) nos próximos quatro anos para transformar as suas forças armadas numa força híbrida, tripulada e não tripulada, num dos maiores programas de autonomia militar da história do país. O anúncio foi feito a 30 de junho de 2026 pelo primeiro-ministro cessante Keir Starmer, durante a apresentação do Defence Investment Plan (DIP), um documento de 80 páginas que define a estratégia de defesa do Reino Unido para a próxima década.
O plano representa uma viragem radical na doutrina militar britânica, acelerada pelos conflitos na Ucrânia e no Irão, onde os drones demonstraram ser capazes de destruir alvos de alto valor com sistemas de baixo custo. Segundo o Ministério da Defesa britânico, a Ucrânia utiliza cerca de 200.000 drones por mês para se defender da invasão russa, enquanto no auge do conflito no Irão foram lançados 700 drones ofensivos por dia.
Royal Navy: a Marinha Híbrida
A Royal Navy vai transformar-se numa Hybrid Navy, combinando navios tripulados com embarcações autónomas e inteligência artificial. O plano inclui quatro novas classes de plataformas não tripuladas:
Type 91 — plataformas de lançamento de mísseis não tripuladas para aumentar a potência de fogo da frota. Type 92 — navios-sensor não tripulados desenhados para caçar submarinos inimigos em todo o Atlântico Norte, apoiando as novas fragatas. Type 93 — veículos submarinos extra-grandes não tripulados (XLUUV) que operarão lado a lado com submarinos de ataque nucleares. Type 94 — plataformas de vigilância aérea não tripuladas para proteger a frota e o território nacional.
Para a década de 2030, estão previstos pelo menos seis Common Combat Vessels, navios de guerra modulares que funcionarão como o 'cérebro' de um sistema de Defesa Aérea Marítima em rede, coordenando dezenas de drones de superfície, submarinos e aéreos. O programa inclui ainda o Project PANTHEON, que desenvolverá uma asa aérea híbrida para porta-aviões, com drones a jato a operar ao lado dos caças F-35B.
A Royal Navy vai transformar-se numa Hybrid Navy, onde navios de guerra tripulados operarão em conjunto com plataformas não tripuladas Type 91 (mísseis), Type 92 (caça submarinos), Type 93 (veículos submarinos) e Type 94 (vigilância aérea), numa rede integrada de combate marítimo.
British Army: mais letalidade com drones de ataque e vigilância
O Exército britânico vai receber um reforço imediato de £50 milhões nos próximos 12 meses para o programa RAPSTONE, que financia drones FPV (first-person-view) e drones de interceção, baseado nas lições aprendidas na Ucrânia sobre o uso tático de pequenos drones a baixo custo.
O Project NYX prevê a entrada ao serviço de 24 drones armados autónomos até 2030, capazes de voar ao lado dos helicópteros Apache recentemente modernizados. Estes drones executarão missões de reconhecimento armado, ataques de precisão e guerra eletrónica.
Já o Project Corvus vai fornecer 24 drones de vigilância para substituir o sistema Watchkeeper, assumindo missões de inteligência, vigilância, aquisição de alvos e reconhecimento (ISTAR). Serão ainda desenvolvidos veículos terrestres não tripulados através da indústria britânica, num programa que visa acelerar a produção de plataformas autónomas para o Exército.
Royal Air Force: caças autónomos e guerra eletrónica
A Força Aérea Real vai lançar um novo programa nacional de Collaborative Combat Air, que desenvolverá caças autónomos não tripulados para operar ao lado dos aviões tripulados. Um demonstrador tecnológico deverá voar pelo menos em 2030.
Mais imediato é o Storm Shroud, um drone de guerra eletrónica não tripulado que entrou ao serviço da RAF em 2025 e que será expandido no âmbito deste investimento. O Storm Shroud — baseado na plataforma Tekever AR3, fabricada no País de Gales e equipada com o payload BriteStorm da Leonardo UK, produzido em Luton — é capaz de cegar radares inimigos, aumentando a taxa de sobrevivência dos caças Typhoon e F-35B em espaço aéreo contestado.
O Taranis, demonstrador de caça autónomo stealth da BAE Systems para a RAF, representa o conceito por detrás do Collaborative Combat Air programme — caças não tripulados que operarão em enxame ao lado dos Typhoon e F-35B, com um demonstrador previsto para 2030.
O contexto político e económico
O Defence Investment Plan foi aprovado após semanas de tensão no governo britânico. O anterior secretário da Defesa, John Healey, demitiu-se a 11 de junho por considerar insuficiente o aumento do orçamento militar. O seu sucessor, Dan Jarvis, conseguiu negociar com a chanceler Rachel Reeves um reforço adicional de £1,5 mil milhões, permitindo aumentar a verba para drones de £4 mil milhões para £5 mil milhões.
Parte do financiamento foi encontrado através de cortes de pelo menos 1% nos orçamentos de capital de outros ministérios, numa das negociações mais difíceis do governo Starmer. O plano foi apresentado dias antes da cimeira da NATO e da transição de poder para o novo primeiro-ministro, Andy Burnham.
Este investimento transformador vai fortalecer as nossas Forças Armadas em terra, no mar e no ar, garantindo que os nossos soldados têm as capacidades de ponta de que precisam para dissuadir ameaças em evolução e manter o povo britânico em segurança.
— Keir Starmer, primeiro-ministro do Reino Unido
O plano inclui ainda a criação do Uncrewed Systems Centre, o maior centro de testes de drones da Europa, inaugurado em Swindon, e de uma Uncrewed Systems Taskforce para acelerar o desenvolvimento e a aquisição de capacidades autónomas em parceria com a indústria. O objetivo é encurtar os ciclos de aquisição e permitir que as forças britânicas recebam as mais recentes tecnologias de drones à velocidade operacional.
O investimento de £5 mil milhões em drones representa o maior compromisso financeiro do Reino Unido com sistemas não tripulados e coloca o país na dianteira europeia da autonomia militar. Se executado na totalidade, o plano dará às forças britânicas uma combinação de plataformas de alto nível e capacidades autónomas de baixo custo, ao mesmo tempo que fortalece a indústria nacional de defesa e posiciona o Reino Unido para exportar tecnologia de drones para aliados. O verdadeiro teste, porém, será a capacidade de executar este ambicioso plano num contexto de restrições orçamentais e de ameaças que evoluem mais depressa do que os ciclos de aquisição tradicionais conseguem acompanhar.
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