A SpaceX lançou ontem, 22 de maio, o 12.º voo de teste da Starship — o primeiro da versão V3, a mais profunda remodelação do maior foguetão já construído. Às 23h30 (hora portuguesa), os 33 motores Raptor 3 acenderam na nova Plataforma 2 de Starbase, Texas, e a nave de 124 metros de altura descolou sem um segundo de atraso. Durante cerca de uma hora, cumpriu marcos históricos — incluindo a primeira implantação de carga no espaço — mas também expôs fragilidades no novo propulsor Super Heavy que a equipa de Elon Musk terá de resolver até ao próximo voo.
Este era o primeiro voo da Starship em sete meses — o último modelo V2 tinha descolado em outubro de 2025. A V3, apresentada a 12 de maio, nasce precisamente das lições acumuladas: o Starship V3 incorpora um sistema de propulsão redesenhado de raiz, tanques de maior capacidade e controlo melhorado, enquanto o Super Heavy V3 reduziu as grelhas aerodinâmicas de quatro para três — cada uma 50% maior com novos pontos de agarre para a torre —, integrou o hot stage na estrutura e passou a ter dois pontos de desconexão rápida para redundância no reabastecimento. O objetivo: transportar mais de 100 toneladas métricas para a órbita terrestre em configuração reutilizável.
O que correu bem — e foi muito
O lançamento foi imaculado: os 33 Raptor 3 acenderam em simultâneo — algo que o novo tubo de transferência de combustível, do tamanho de um Falcon 9 inteiro, veio permitir — e a separação por hot-staging ocorreu sem anomalias. A Starship V3 seguiu viagem, atingiu uma altitude de 194 km e fez algo que a SpaceX nunca tinha conseguido: largou 20 satélites modificados (versões de engenharia dos Starlink, alguns equipados com câmaras) no espaço, provando que o sistema de deploy de carga funciona em voo real. As imagens captadas por esses próprios satélites — que filmaram a Starship vista de fora, no espaço — são um marco técnico absoluto.
No regresso, a nave executou uma amaragem vertical controlada no Oceano Índico. O veículo tombou e explodiu após o nariz tocar na água — um desfecho esperado e planeado —, mas o facto de ter conseguido reacender motores no vácuo e descer controladamente sobre um ponto específico representa um salto técnico enorme. A Associated Press sublinhou que "não houve bolas de fogo até ao fim", ao contrário dos voos anteriores. Elon Musk celebrou no X: "Vocês marcaram um golo para a humanidade."
Elon Musk, fundador da SpaceX, celebrou o voo de estreia da V3 como "um golo para a humanidade". A empresa está a preparar a maior Oferta Pública Inicial da história de Wall Street, avaliada em 75 mil milhões de dólares. Foto: US Air Force / Wikimedia Commons
A Starship V3 atingiu 194 km de altitude e largou 20 satélites mockup — a primeira implantação de carga do programa. Foto: SpaceX / Space.com
O que falhou — a aprender com os erros
Ambas as etapas do foguetão sofreram falhas de motor, confirmou a BBC. O Super Heavy V3, imediatamente após a separação, não conseguiu reacender os motores para a manobra de retorno à torre — a anomalia destruiu parte significativa da secção traseira do booster e levou à perda total de controlo. Dados de telemetria analisados pela comunidade de fãs mostram que o booster vinha a quase o dobro da velocidade nominal a 73 km de altitude (4.600 km/h contra as esperadas 2.300 km/h), o que ajuda a explicar a falha na reignição.
A nave-mãe também operou com menos motores durante a fase final da descida, outro ponto que a equipa de engenharia terá de investigar a fundo. O lado positivo: Musk confirmou no X que o escudo térmico da V3 aguentou perfeitamente — "Sem queimaduras. O escudo resistiu." —, o que significa que o redesign da proteção térmica, uma das maiores dores de cabeça dos voos anteriores, está finalmente controlado.
O contexto e o que vem a seguir
A filosofia de desenvolvimento da SpaceX — testar cedo, falhar rápido, iterar — continua a produzir resultados. Dos 12 voos desde 2023, cada um trouxe mais dados que o anterior. A NASA depende da Starship para levar astronautas à Lua em 2028 no âmbito do programa Artemis, e o administrador da NASA, Jared Isaacman, marcou presença em Starbase para assistir ao lançamento. O preço estimado por lançamento ronda os 90 milhões de dólares — competitivo face aos 60 a 75 milhões do Falcon 9, mas com muito mais capacidade. O próximo voo, Flight 13, deverá ocorrer dentro de dois a três meses, incorporando as correções que ontem se tornaram evidentes. Se há algo que a história dos voos anteriores ensinou é que a SpaceX falha para a frente — e cada teste, mesmo imperfeito, aproxima-a do objetivo.
Vídeo condensado (1 minuto e 17 segundos) do lançamento, voo e amaragem da Starship V3 no Oceano Índico. Fonte: VideoFromSpace / Space.com
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