A Europa prepara-se para dar o maior passo de sempre no financiamento de tecnologia profunda (deep tech): o Scaleup Europe Fund, um fundo de €5 mil milhões gerido pela sueca EQT, vai começar a investir no outono de 2026. E Portugal, com um ecossistema de startups em franca expansão, está na linha da frente para beneficiar.
O fundo foi formalmente lançado a 3 de junho de 2026, no EIC Summit, e nasce de uma constatação incómoda: a Europa produz excelentes startups, mas perde-as quando precisam de crescer. Por falta de capital de crescimento (growth capital), muitas acabam por se mudar para os Estados Unidos ou Ásia, onde há investidores dispostos a escrever cheques de centenas de milhões de euros. O Scaleup Europe Fund quer fechar essa torneira de fuga de talento e tecnologia.
A ideia não é nova — o relatório Draghi, publicado em 2024, já apontava o dedo a este défice de financiamento como um dos principais entraves à competitividade europeia. Mas agora, pela primeira vez, a União Europeia e um consórcio de investidores institucionais juntaram-se para criar um veículo de investimento à escala do problema.
O Scaleup Europe Fund vai investir em empresas tecnológicas europeias em fase de crescimento, com cheques a partir de €100 milhões.
Como funciona o fundo?
O Scaleup Europe Fund é um fundo independente de capital privado, gerido pela EQT (uma das maiores gestoras de ativos da Europa, com €269 mil milhões em ativos sob gestão (dados de março de 2026)). A Comissão Europeia entra com €1 mil milhões como investidor âncora, e os restantes €4 mil milhões vêm de um consórcio de investidores institucionais: o fundo de pensões dinamarquês EIFO, o CriteriaCaixa (espanhol), o Santander/Mouro Capital, a seguradora Allianz, o fundo de pensões neerlandês ABP (via APG), as Wallenberg Investments (suécias) e fundações italianas ligadas ao Intesa Sanpaolo.
O fundo vai investir em empresas europeias em fase de crescimento (scaleup), com cheques a partir de €100 milhões (incluindo follow-on investments). O foco são tecnologias estratégicas: semicondutores, energia, espaço, biotecnologia, materiais avançados, robótica, agritech, e também inteligência artificial e quantum (mas o fundo não se limita a estas). A gestão é independente — a EQT decide os investimentos com base em critérios comerciais, sem interferência política.
O fundo é uma iniciativa da Comissão Europeia no âmbito da Estratégia Europeia para Startups e Scaleups, apresentada por Ursula von der Leyen.
O que significa para Portugal?
Portugal tem vindo a afirmar-se como um ecossistema tecnológico relevante na Europa. Dados recentes mostram que startups apoiadas por programas europeus geraram €520 mil milhões em valor empresarial. Em Portugal, empresas como a Unbabel (tradução por IA), a Feedzai (segurança financeira), a Knok (saúde digital) ou a Remote (gestão de trabalho remoto) já provaram que o país sabe criar scaleups de dimensão global. O problema é o mesmo de sempre: depois de atingirem um certo patamar, estas empresas olham para fora da Europa para crescer.
O Scaleup Europe Fund pode mudar esse padrão. Com cheques de €100 milhões ou mais, uma startup Portuguesa que precise de capital para escalar já não precisa de emigrar para Silicon Valley. Pode fazê-lo a partir de Lisboa, Porto, Braga ou Coimbra — e manter a propriedade intelectual, os talentos e o valor fiscal em Portugal. Além disso, o novo regime «EU Inc.» (28.º regime), aprovado em março de 2026, simplifica as regras societárias para scaleups que operam em vários países europeus, reduzindo a burocracia.
Lisboa é um dos hubs tecnológicos que mais cresce na Europa. Com o Scaleup Europe Fund, as startups Portuguesas podem escalar sem sair do país.
O contexto político: o relatório Draghi e a estratégia europeia
O Scaleup Europe Fund não é uma iniciativa isolada. Faz parte de um pacote mais amplo — a Estratégia Europeia para Startups e Scaleups — que inclui 26 ações concretas, desde a simplificação fiscal ao reconhecimento mútuo de licenças tecnológicas. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, tem repetido o objetivo estratégico: «que o melhor da Europa escolha a Europa».
O relatório Draghi, encomendado pela própria Comissão, calculou que a Europa precisa de investir €800 mil milhões por ano para fechar a diferença de produtividade face aos EUA e à China. O Scaleup Europe Fund é apenas uma peça desse puzzle — mas é a peça que faltava no lado do financiamento de crescimento. Com a EQT, uma gestora com experiência comprovada em scaleups tecnológicas (já investiu em mais de 60 empresas deste perfil), o fundo tem a credibilidade de mercado que faltava a iniciativas anteriores.
E quando é que o dinheiro chega às empresas?
O calendário é agressivo: a EQT está a ultimar os acordos legais com os investidores fundadores, e a primeira closing (fecho da ronda inicial) está iminente. As primeiras operações estão previstas para o outono de 2026. Seguir-se-á uma segunda ronda de angariação, liderada pela EQT, para alargar a base de investidores.
Para as empresas Portuguesas, o conselho é simples: começar a preparar a documentação, as métricas de crescimento e a estratégia de internacionalização. Quando o fundo abrir, a competição será europeia — e só os melhores projetos levarão o investimento. Mas, pela primeira vez, o dinheiro está ao lado certo do Atlântico.
Feito por humanos — Portugal Binário
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