Caçador, agricultor ou mero citadino. Por esta altura do campeonato, a maioria dos portugueses já ouviu falar da polémica que o javali tem causado. Estragos agrícolas, acidentes rodoviários, deambulação em praias e zonas urbanas, peste suína — o rastilho de destruição parece não ter fim. Mas afinal, o que se passa? O javali é um destruidor ou um arquiteto dos ecossistemas? Fomos falar com quem melhor conhece a realidade no terreno: António Simão, da Associação de Caça e Pesca da Freguesia de Salgueiro do Campo, concelho de Castelo Branco.
400 mil javalis: um país refém
O problema não é novo, mas atingiu proporções históricas. Estima-se que existam em Portugal cerca de 400 mil javalis adultos — um número que cresce a cada ano sem travão natural. Para António Simão, as causas são claras:
O javali não tem, na presente data, predadores naturais. Tratando-se de um animal possante, os únicos predadores naturais que, com possibilidade de sucesso, sem consequências de maior para o predador, são o lobo e o urso. Estes predadores desapareceram da fauna ibérica sem sucesso de reintrodução.
— António Simão
O desaparecimento do lobo e do urso da paisagem ibérica criou um vazio ecológico que nada veio preencher. E os esforços de reintrodução, conta-nos, têm sido infrutíferos:
Os esforços têm sido sistemáticos e afincados mas, a verdade é que o lobo não sobrevive sozinho em meio selvagem. Sobrevive e prospera em matilha, com organização e hierarquia social complexa. A sua reintrodução em meio selvagem na fauna ibérica reveste-se de maior complexidade que a reintrodução do lince, por exemplo.
— António Simão
Mas a falta de predadores é apenas metade da equação. O javali é um dos mamíferos mais prolíferos da Europa:
Em média, uma fêmea pode introduzir no ecossistema oito crias por ano. Ainda que o cio ocorra, pelo menos uma vez por ano, nos meses de Outubro a Janeiro, com os nascimentos entre Março e Maio, na maioria das fêmeas esse período verifica-se em mais que uma vez, em períodos aleatórios, dependendo sobretudo da disponibilidade de alimento e condições adequadas à procriação.
— António Simão
Presas de um javali macho (Sus scrofa) — troféu de caça. Foto: Franco Atirador (CC BY-SA 3.0, Wikimedia Commons)
“Ganhou fama” — mas o javali foge do ser humano
A imagem do javali como animal agressivo e perigoso está enraizada no imaginário popular. António Simão faz questão de a desconstruir:
Ainda que seja um animal ‘atacante’ — o javali atacará qualquer ser que se interponha entre si e a sua prol, no intuito de se defender de qualquer perigo — a verdade é que ‘ganhou fama’. Se puder, o javali fugirá sempre do ser humano e de animais que o tentem atacar.
— António Simão
O verdadeiro perigo, sublinha, não está na agressividade, mas na doença:
O maior perigo do javali é a possibilidade de ser portador e transmitir doenças potencialmente transmissíveis ao ser humano.
— António Simão
Estragos nas culturas e ataques a animais domésticos
Em virtude da sua abundância e da falta de alimento nos habitats selvagens, o javali aproxima-se cada vez mais das zonas humanas:
O javali, desde há muito, procura alimento nas culturas, sobretudo milho e demais cerealíferas, mas também em vinhas, hortas e, cada vez mais, animais domésticos. São frequentes os ataques a rebanhos, cães e gatos domésticos, galinheiros, etc. Sendo um suídeo, é um omnívoro.
— António Simão
Os estragos agrícolas e os acidentes rodoviários são as duas faces mais visíveis do problema. Mas há uma terceira, menos conhecida: o impacto nos ecossistemas.
Caçador com arma de fogo em campo aberto. Foto: Cole Miller (Unsplash)
Arquiteto de ecossistemas: o lado positivo do javali
Se o javali é visto como praga, a verdade é que o seu papel na natureza é bem mais complexo. António Simão descreve-o como, ao mesmo tempo, “renovador e destruidor”:
Sendo, desde sempre, um autóctone da fauna ibérica, a presença do javali é fundamental nos ecossistemas. Pode ‘destruir’ certos elementos da flora e fauna, como também dá a possibilidade desses elementos se renovarem, como acontece com o azinho e o sobreiro, leporídeos e galináceos (coelho e perdiz). Pode, ao mesmo tempo, consumir bolotas e exemplares menos aptos — doentes — de coelho e perdiz.
— António Simão
O javali, ao revolver o solo à procura de alimento, areja a terra e permite a regeneração de espécies vegetais. Ao caçar os exemplares mais fracos de coelho e perdiz, contribui para a seleção natural. É, paradoxalmente, uma espécie que destrói para renovar.
Javali (Sus scrofa) de perfil — um animal feito para o monte. Pixabay License
O problema da caça: montarias vs. esperas
Se o javali precisa de ser controlado, como se chegou à situação atual? A resposta, segundo António Simão, está nos métodos de caça praticados em Portugal.
O método mais eficaz — a montaria — é também o menos seletivo:
Este método de caça ocorre no período principal de gestação das fêmeas e não é, nem pode ser seletivo. Os animais são conduzidos para as linhas de tiro por matilhas de cães e abatidos em movimento, tornando quase impossível a sua distinção morfológica (machos e fêmeas). É frequente o abate de fêmeas prenhes, obstando à renovação de efetivos.
— António Simão
Já a caça de espera, que poderia ser mais seletiva, tem outros problemas:
A caça de espera, para além de exigir meios mais dispendiosos (miras e meios de observação noturnos, com preços bem acima dos 1.500€), está muito focada, por valorização dos troféus, no abate de machos com presas volumosas. São desprezados os exemplares sem troféu ou com troféus menores, que consomem os alimentos disponibilizados pelos caçadores.
— António Simão
E acrescenta um paradoxo: os caçadores, ao alimentarem os javalis para os atrair, criam artificialmente uma fonte de alimento que acaba por propiciar a expansão do suídeo.
COVID-19: o golpe que faltava
Entre 2020 e 2022, as medidas de mitigação da pandemia tiveram um efeito colateral devastador no controlo do javali:
Por via das medidas de mitigação ao COVID-19, sendo ilegal a criação de ajuntamentos e deslocação de pessoas entre concelhos, tanto as montarias como as esperas ficaram vedadas à maioria dos caçadores. De igual forma, no período de verão e com as frequentes proibições de saídas ao campo...
— António Simão
Dois anos sem pressão de caça permitiram que as populações de javali disparassem sem qualquer controlo.
Igreja de Salgueiro do Campo — património da terra. (Foto cedida por António Simão)
Solução: dar o poder a quem está no terreno
Para António Simão, a solução passa por uma mudança de paradigma na gestão das populações de javali. E essa mudança tem um nome: responsabilidade total dos caçadores.
Estamos perante um animal muito invasivo mas que é necessário e bem-vindo ao nosso ecossistema. Contudo, são necessárias medidas para controlar as suas populações. Estas devem ser monitorizadas pelos caçadores — intervenientes muito importantes na gestão dos ecossistemas — aos quais, através de OSC, TEM de ser atribuída TOTAL responsabilidade na gestão das populações de javali, sob pena de se agravar substancialmente uma situação, já de si, fora de controlo.
— António Simão
OSC — Organizações da Sociedade Civil, como as associações de caça e pesca que pontuam o território nacional. A tese de António Simão é clara: quem conhece o terreno, quem lá está todos os dias, deve ter os instrumentos e a autoridade para gerir as populações. Burocracia e centralismo, diz, só agravam o problema.
O que dizem os números
O diagnóstico de António Simão é corroborado pelos números. A estimativa de 400 mil javalis em Portugal representa uma densidade insustentável para o território nacional. Para comparação, em países com gestão ativa e predadores naturais (como o lobo na Polónia ou nos Cárpatos), as densidades são 5 a 10 vezes inferiores.
Os acidentes rodoviários envolvendo javalis aumentaram mais de 60% na última década, e os pedidos de indemnização por estragos agrícolas não param de crescer. A peste suína africana, que já assola outros países europeus, é uma ameaça constante que poderá ter consequências devastadoras para a suinicultura nacional.
Salgueiro do Campo — a terra do nosso pai, Beira Baixa. (Foto cedida por António Simão)
Conclusão: um equilíbrio possível
O javali não é o vilão da história. É uma espécie autóctone da fauna ibérica, essencial para o equilíbrio dos ecossistemas, e que estava aqui muito antes de nós. O problema é humano: a forma como gerimos (ou não gerimos) o território, a burocracia que emperra as soluções, as contradições entre métodos de caça e objetivos de conservação.
A lição que fica da conversa com António Simão é que não há soluções mágicas. Há, sim, a necessidade de responsabilizar quem está no terreno, de simplificar processos, e de reconhecer que o javali é, ao mesmo tempo, um problema e uma oportunidade — um recurso cinegético que, bem gerido, pode ser uma mais-valia para as comunidades rurais.
Como ele próprio resume:
São necessárias medidas para controlar as populações. Estas devem ser monitorizadas pelos caçadores, aos quais TEM de ser atribuída TOTAL responsabilidade na gestão das populações de javali, sob pena de se agravar substancialmente uma situação, já de si, fora de controlo.
— António Simão
Portugal Binário agradece esta ilustre colaboração da Beira Baixa.
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